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Jun 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

E que entrevista de peso temos neste dia solarengo. A minha biblioteca tem três livros deste grande escritor. Os policiais, meus amigos, os policiais que o António escreve - assinado por um pseudónimo - são de ler e querer mais.

 

P.B: 52 anos de carreira e uma mão cheia de livros publicados. Sente-se realizado?

A.A.A: Sinto-me, particularmente depois de feito o balanço de meio século de profissão e porque continuo a considerar que a vocação de escritor não «brota» de um dia para o outro, nasce com a pessoa. E será por este motivo que me surpreende o considerável número de «espontâneos» que nos tempos que correm afirmem «Vou escrever um livro», como se escrever um livro fosse tão banal e fácil como tomar uma «bica» no café da esquina... se bem que, atendendo ao agravamento da situação política e financeira que pesa sobre nós, e sobre outros noutros países, tomar uma «bica» possa vir a tornar-se muito difícil ou mesmo proibitivo...
Mas também considero que, relativamente a outras vocações, nascemos já  «inclinados» para um dia exercer uma determinada profissão.

 

P.B: Dick Haskins, o seu pseudónimo nas obras de género policial, é diferente do António de Andrade Albuquerque?

A.A.A: Não, nome próprio e pseudónimo são irmãos gémeos. O pseudónimo foi criado por exigência da época, mas nunca me escondi atrás dele senão «graficamente falando» porque, pessoalmente, sempre me identifiquei com ele, de viva voz, na imprensa, na rádio e na televisão, como então se dizia e escrevia e que já de há uns tempos a esta data mudou para «comunicação social».

 

P.B: A Literatura é bem tratada em Portugal?

A.A.A: Decorrido já meio século de profissão, considero que sempre houve uma boa harmonia entre escritor e editor. Actualmente, também considero que esse bom entendimento se mantém entre ambos. Somos um país enorme na História Universal, mas demasiado pequeno para se esconderem inveja, círculos viciosos e o materialismo sobrepondo-se ao moralismo. A defesa do direito de autor é actualmente precária e a Justiça não actua ou é ineficaz na defesa do trabalho literário criativo. Mas não somos, ou não seremos, originais neste aspecto: as fraudes também se praticam noutros países muito superiores a nós apenas em superfície. No que me diz respeito, tenho provas de violação descarada dos meus direitos de autor, cometidas cá dentro e lá fora. Claro que isto não pode considerar-se «bom tratamento» da literatura, tanto em Portugal como no estrangeiro.

 

P.B: Que conselhos dá aos estreantes?

A.A.A: Muita paciência, persistência, mesmo «teimosia», se a vocação existe e não lhes foi apenas confirmada pela respectiva imagem num espelho, mas sim por quem - isento de preconceitos e com cultura suficiente para formar um juízo válido - lhes dê o necessário e indispensável incentivo para lutarem pelo lugar ao sol a que têm direito como outros que já conseguiram «luz e calor». Vão encontrar preconceituosos, pseudo-intelectuais e invejosos  pelo caminho, mas transponham-nos com persistência. Escrevam com naturalidade, sem termos arrevesados, e desprezem as palavras com que somos metralhados diariamente por alguns políticos e outros bem-falantes, que assassinam uma língua tão rica como a nossa com verdadeiros disparates que nunca existiram nem existem no nosso idioma, nem constam nos dicionários. Convencer e vencer é hoje muito mais difícil do que há meio século, porque educação, respeito e consideração pelo próximo são actualmente rotulados como defeitos, o que acresce substancialmente o número de barreiras a ultrapassar. Por isso uma vitória no presente duplica em valor uma de há cinquenta anos.
E é necessário considerar que a crise assustadora de cuja dimensão ainda muito poucos se aperceberam, também engloba a Literatura, o trabalho intelectual.
Com esta resposta não pretendo incutir pessimismo, mas sim realismo com o qual é indispensável contar.
Mas como diz o provérbio, «a esperança é a última a morrer»...

 

 

 

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Nascido em Lisboa, a 11 de Novembro de 1929, é defensor do princípio de que um escritor nasce com a vocação para escrever, António de Andrade Albuquerque (que usou o pseudónimo de Dick Haskins nas obras do género policial) sentiu inclinação para a produção literária desde a adolescência.

Esta pequeníssima biografia foi tirada do site do autor. António de Andrade Albuquerque tem um currículo tão mas tão vasto que a Menina da Biblioteca ficou babada. Por isso, se quiserem consultar todo o delicioso percurso deste homem das letras, não deixem de clicar em http://andradealbuquerque.net.

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