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23
Jun 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Nabokov tornou-se, logo nas primeiras páginas, um dos meus mestres da Literatura. Ele deve ter sido dos poucos autores - senão o único - que li que consegue misturar tanto género dentro do mesmo livro sem, com isso, desqualificar a obra (bem pelo contrário). Duvido que não conheçam a história mas, resumidamente, aborda a paixão/amor/fixação que Humbert Humbert - um maduro professor de literatura francesa - por Dolores Haze - a arisca e maliciosa Lolita de 12 anos. Ele, que sabe muito bem que o desejo que sente por rapariguinhas é, não digo errado, mas pouco percebido pela sociedade, conhece Lola, apaixona-se por ela e, para manter-se perto, casa com a sua mãe que, um tempo depois, acaba por morrer. Humbert pega na menina e partem numa viagem pelos Estados Unidos, fingindo uma relação de marido e mulher, dentro das quatro paredes dos hoteis onde ficam. O pedófilo ameaça-a com reformatórios e ilude-a com presentes e dinheiro para que ela não conte a ninguém. 

Em relação à narrativa, já referi que Nabokov tem o dom de misturar géneros literários mas não expliquei como. Ao início ficamos um tanto chocados (bem, na verdade eu não fiquei porque o Distúrbio, o meu livro, enquadra-se dentro do mesmo tema) com as descrições eróticas que Humbert nos faz das ninfetas que vai encontrando (repare-se que ninfeta foi uma palavra criada pelo autor para descrever as meninas dos 9 aos 14 anos que, pelas suas características, atraem homens como Humbert - e até nisto Nabokov foi supremo!). Depois, quando ele se muda para New Hampshire, a história ganha a forma de romance e, com a partida do "casal" pelos EUA temos uma espécie de livro de viagem. Finalmente, após quase dois anos de hotel em hotel, o drama ganha contornos misteriosos quando Humbert descobre que estão a ser seguidos. Eu queria contar-vos o final - não vou fazer, não se preocupem - porque, embora não seja surpeendente (o próprio Humbert previa o desfecho), conseguiu ser colossal devido à viragem de estilo: do romance misterioso passa para um policial noir, se assim o quisermos chamar. A meu ver, Nabokov foi brilhante. Esta mudança de narrativa parece que acompanha o crescimento de Lolita e, também, os vários sentimentos que o seu pai-amante sente por ela.

As personagens são fortes, com personalidades palpáveis e tanto podemos odiar Humbert como detestar Lolita: o primeiro pelas razões que se sabe; a segunda por ser uma criancinha sonsa. Mas, por outro lado, também conseguimos ter pena dos dois e sentir uma espécie de empatia pela loucura de Humbert e pela ingenuidade disfarçada de Lola.

E vou-me calar que isto já vai longo e daqui a nada ando a contar todos os detalhes. Como podem ver, eu amei.

 

Nota: 10 Lolitas, claro!

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