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27
Jun 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Polinésia Francesa, seis noites. Não conseguia pensar noutra coisa, tal era o nervosismo. Odiava aviões, odiava o céu. Lembrava-lhe a morte, associação que vem desde os dias da catequese. Mas depois de três anos sem férias, merecia algo de especial só para si. Solteiro e sem ninguém para o acompanhar, partiu para um resort com tudo incluído. Nem ia sair do hotel, não era homem de aventuras.

Decidiu comprar bilhete em primeira classe. Afinal, o dinheiro não era problema, e tudo o que pudesse minimizar o desconforto dentro daquele pássaro gigante de metal era bem-vindo. Entrara só no último momento, com medo de se arrepender se tivesse de esperar. E estava realmente arrependido, agora que voava à velocidade de um Fórmula 1 com pedal a fundo, ultrapassando cegonhas e driblando nuvens carregadas.

Atreveu-se a olhar pela janela, mas ao primeiro relâmpago percebeu a péssima ideia que isso era. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Mas não devia ser a única coisa a percorrer-lhe o corpo. Começou a sentir uma comichão no pé direito. Pensou na praia outra vez, para descomprimir. Via-se na praia, deitado numa espreguiçadeira, a ler um livro, com uma margarita ao lado. Pousou o livro e olhou para o mar transparente, fazendo mira entre os pés. E reparou que, no pé direito, estava uma tarântula.

Paranóico com o medo e o nojo, começou a descalçar-se, sem noção do que era real. Onde estava não interessava, o importante era, isso sim, tirar aquele bicho do corpo. Quando a sapatilha saltou, sentiu a comichão e subir-lhe pelo interior da perna. Enquanto a abanava e gritava, para espanto de todos menos da velhota que dormia proficuamente ao seu lado, provavelmente inundada em comprimidos, continuou a despir-se. Tirou uma perna das calças, pois a outra ficou presa na sapatilha, quando lhe chegou a sensação às virilhas. Não é preciso dizer o que se passou de seguida, mas digo-vos que a única roupa que tinha quando acordou desta psicose eram as meias, tendo ainda uma sapatilha que lhe prendia as calças e as cuecas ao tornozelo esquerdo. E foi quando a senhora despertou do estranhamente pesado sono, tendo como primeira visão os genitais de um rapaz de trinta anos a vinte centímetros do seu nariz.

Educadamente, o co-piloto convidou-o a ir aos lavabos vestir-se, o que ele recusou. Nem pensar, tinha uma tarântula na roupa. Ao ouvirem tal exposição de motivos, as pessoas começaram todas a gritar e a saltar para cima dos bancos. As comichões apareceram de seguida, e as pessoas, como dominós em cadeia, despiram-se a correr. De crianças de oito ou nove anos a um senhor acima dos oitenta, acabou tudo nu e aos gritos. Nem as assistentes de bordo resistiram.

O piloto, intrigado com tamanha gritaria, decidiu sair do seu cubículo para ver o espectáculo. Assustado, e imaginando que se tratasse ou de alguma festa estranha para os seus gostos, ou de algum acto terrorista, fechou-se na cabine. Aterrou, tudo nu e a abanar-se para afastar tarântulas imaginárias mas com cinto posto, para serem todos presos à saída do avião.

E todos, sem excepção, agradeceram sarcasticamente ao passageiro paranóico que lhes controlou a mente durante os minutos suficientes para terem as piores férias de sempre.

 

 

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Luís de Aguiar Fernandes nasceu na Guarda há 21 anos, mas está registado com muito orgulho em Almeida. Veio para Lisboa tirar um curso de Direito que está prestes a acabar. Lê compulsivamente desde criança e escreve da mesma maneira desde a adolescência. Tem a mania que não o faz mal e chateia os amigos para lhe lerem alguns escritos no blogue. Escreve às tantas da noite, porque odeia manhãs. E está à procura da sua voz.

Contactos com o autor:  http://manifestacaoespontanea.blogs.sapo.pt; luis.aguiar.fernandes@gmail.com.

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