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05
Jul 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Miguel Raimundo é o primeiro poeta a pisar a Paraíso Biblioteca. E como eu gosto de receber gente assim: talentosa, simpática e com gosto pelo que faz. 

 

 

P.B: Escrever é...

M.R: Suponho que outros já o tenham dito (ou escrito): escrever é outra forma de respirar. Se a respiração nos mantêm vivos, a escrita confere valor a essa sobrevivência. Considero que existe sempre qualquer coisa de angústia existencial quando escrevemos, tal como nas primeiras golfadas de ar que damos de depois de nascer. Por outro lado, esta metáfora entre a escrita e a respiração pode ser ambígua. Efectivamente, podemos nunca escrever uma linha sequer, nem imaginar nada novo, nem procurar respostas para as questões essenciais do percurso humano, nem tão pouco pensar sobre nada disso e, assim mesmo, levarmos uma vida longa e pacata. No entanto, esses “não escreventes” também estão cá na literatura, no fundo, ainda que sem vontade, toda a escrita encerra preocupações que dizem respeito à humanidade… Por isso escrever é como respirar. Aliás, muitas vezes, escrever não é mais que um longo suspiro sobre o mundo.

 

P.B: Poesia ou contos?

M.R: Poesia no quotidiano e, por vezes, contos. Na poesia, quase sempre, não há um exercício de racionalização sobre o que se escreve. São momentos, são tristezas, são alegrias, são frustrações que se movem nos versos. Isto não quer dizer que a poesia não traga olhares sobre o mundo, que a poesia não traga questões filosóficas. Todos esses aspectos estão lá, ainda que mais ou menos evidentes. Por vezes, no meu caso particular, procuro fazer isso. Os poemas também contam histórias aproximando-se de realidades narrativas. Por outro lado, escrevo poesia desde os 15 anos. Daí que também me seja mais imediato ter vontade de escrever, configurando logo, quase sem querer, a ideia de um poema.

Os contos, ou melhor, a ficção narrativa, qualquer que seja a sua dimensão, envolve outras preocupações inerentes ao acto de contar uma história. Estou neste momento a rever uma colectânea de “pequenas estórias” que fui escrevendo nos últimos anos, penso chamar-lhe “Simplesmente contos”, mas este ainda não é o título definitivo.


P.B:
A Literatura Fantástica tem futuro em Portugal?

M.R: Claro que tem. Na verdade, a literatura fantástica é tida como marginal em Portugal. O que só é verdade se apenas consideramos uma estrita definição moderna de literatura fantástica (delineada por Colin Manlove). De facto, o fantástico está bem presente em O Mandarim de Eça de Queirós, por exemplo, ou, mais recentemente, em José Saramago, leia-se O Centauro (conto em Objecto Quase) ou A Jangada de Pedra, para já não falar das conhecidas obras de Jorge de Sena. Na minha opinião, talvez por “deformação profissional”, seja necessário estudar melhor a literatura fantástica em língua portuguesa.

Quanto ao futuro, vemos duas perspectivas. Uma, que já vai sendo explorada, será a da criação de obras com base na “matriz clássica” do fantástico imaginado mundos paralelos e desenvolvendo sagas heróicas (veja-se O Escolhido de Samuel Pimenta). Possivelmente, esta vertente terá maior sucesso comercial. Outra ideia que tenho prende-se com a apropriação das lendas tradicionais portuguesa no quadro do fantástico. O nosso folclore é muito rico em superstições, em seres sobrenaturais e, até, em histórias tenebrosas. Bastará ter imaginação e saber aproveitá-las. 


P.B:
Fale-nos, um pouco, sobre o seu trabalho enquanto escritor.

M.R: Na minha condição de escritor e de investigador, tenho de distinguir entre criação literária e “escrita da história”. Ao escrevermos sobre o passado, procuramos um discurso credível sobre realidades que já não existem. Temos duas preocupações fundamentais: a verdade dos factos ou tentativas de verdade sobre aquilo que já ocorreu e o contar de uma história. Aqui, a historiografia aproxima-se da ficção.

Por sugestão dos meus colegas da revista RELER, comecei a utilizar o nome Miguel Raimundo em textos poéticos e fui-me afeiçoando à ideia. 

Eu escrevo como quem desabafa. Para além da necessidade primordial de contar histórias, à qual nunca consigo fugir, escrever é desabafar, sem nunca ter bem a certeza de quem é o ouvinte ou sequer se há ouvinte. A escrita procura os outros, é uma partilha. Há na escrita uma necessidade fundamental de leitura, uma necessidade intrínseca ao acto criador, ou melhor, ao acto perguntador. Assim, ao escrever procuramo-nos continuamente uns aos outros. Parafraseando o músico Fausto: “não escrevo porque sonho, escrevo porque é real”!   

 

 

 

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Miguel Raimundo nasceu perto do Natal de 1980. Mantém o blog de poesia “Evangelhos Libertários” (www.evangelhos.blogspot.com) desde Agosto de 2006. Publicou em 2010, com a chancela da “Corpos Editora/WAF”, o seu primeiro livro de poesia hEra de Fumo. Em Novembro de 2010, três dos seus poemas integraram a antologia brasileira de poesia fantástica À Sombra do Corvo (Editora Estronho/Editora Literata, São Paulo).

Miguel Raimundo é o nome literário de José Raimundo Noras historiador, investigador e professor natural de Santarém. Raimundo Noras têm publicado várias ensaios sobre história local e património, em 2010, com o cunho da editora Imagens & Letras, deu à estampa a Fotobiografia de José Relvas (1858-1929).

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