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Jul 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

"Conta-me uma história de amor, uma história oriental, uma bela história de amor, de ciúme, de sangue e de morte! Conta-me uma história senão mato-te!". Comprei o livro pelo título e por esta frase na capa. Imaginei que encontraria uma antologia de contos recheada de feitiçarias pesadas, de vodoos, de morte, sangue e homicídios. Desiludiu-me nesse aspecto. Os tais feitiços são simples mezinhas e poções de um país que (ainda) vive sob a influência tradicional de certas ideias que chocam com o mundo ocidental. Portanto, é um livro que retrata a diferença abismal entre as sociedades modernas e Marrocos. A obra divide-se em quatro partes: Amores Feiticeiros, Amores Contrariados, Traição e Amizade. Apesar da minha desilusão, o autor surpreendeu-me pela capacidade de criar personagens fortes que, no fim da leitura, acabaram por suplantar o meu desânimo inicial. Não gostei de todos os contos; adorei alguns, tanto que os li duas vezes. Esses tinham uma carga poética tão grande que eu percebi que as estórias não precisavam de grandes feitiços e magias negras: eram eles próprios - os contos - os feiticeiros que nos envolviam numa magia qualquer. Outros nem li até o fim. Acho que não se encaixavam no tema e que foram colocados ali apenas para preencher papel. Os contos que mais gostei foram:

- O homem ausente de si mesmo: começa por se escrito na primeira pessoa e fala sobre a destruição de um casamento em que marido e mulher deixam de notar a presença do outro, anulam essa companhia, tornam-na invisível. A trama desenvolve-se durante um diálogo entre dois amigos, em que um diz ao outro que está invisível e que, provavelmente, a mulher fez um qualquer feitiço para fazê-lo desaparecer.

- Sedução: deste conto foi retirada a expressão que está na capa. Uma rapariga, apaixonada por literatura, pede a um homem que a encha de histórias, se este a quiser seduzir. Porém, sendo ele um homem ligado aos números e não às letras, ele tem dificuldade em surpreendê-la e, no fim, a promessa poderá ser cumprida.

- A desconhecida: um sujeito, em casa, sozinho, decide recorrer aos serviços de uma prostituta, ligando para um número de telefone de um certo canal que vê durante dias seguidos. O narrador descreve o que irá acontecer quando a rapariga chegar e o sujeito - que não é o narrador - também imagina esse momento. Ou seja, há um cruzamento entre descrição narrativa e os pensamentos da personagem. No fim, como se toda aquela ação de contar e imaginar aquele futuro próximo pudesse saciar a vontade do homem, ele desmarca com a prostituta e vai dormir tranquilo.

- A criança traída - contada um dia antes do atentado às Torres Gémeas, colocamo-nos na pele de um dos autores do crime, em que ele se prepara para levar o plano até ao fim. Para consegui-lo, vêmo-lo num grande conflito interior, em que ele tenta separar-se do homem que é e da criança que foi, dando a sensação que, nele, existem duas pessoas completamente distintas: uma criança livre e feliz em oposição a um homem que vive os fundamentalismos da sua religião.

 

Nota: 5 feitiços.

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Bom dia,

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Parabéns e boa continuação!

Pedro
Pedro a 14 de Julho de 2011 às 14:41

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