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Jul 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

O som ecoou por toda a galeria. Estilhaços voaram como lanças à procura de um sítio onde repousar. O corpo do jogador de futebol cedeu aos golpes na carne e tombou. Houve gritos. A Guernica de Picasso encontrava-se totalmente exposta a mãos que quisessem agarrar e, pior, estava destruída quase por completo. Um bando de gente aproximou-se do local. Um dos seguranças afirmou a sua autoridade, questionando os presentes pelo sucedido.

- Eu vi tudo - aprontou-se a responder um sujeito. - Este louco… - disse, apontando para um rapaz que escondia uma ferida na mão. - Este louco partiu o vidro com intenção de matar o homem.

Os olhares percorreram o metro quadrado onde se encontrava toda a agitação e encontraram o possível criminoso. Ele tinha, de facto, aspecto de quem cometera uma loucura. Transpirava abundantemente e o lábio inferior tremia de quando em quando. Estava nervoso, isso é certo.

- É verdade o que diz este senhor? - inquiriu o segurança.

O rapaz não respondeu. Ajoelhou-se perante o olhar incrédulo de quem assistia e caiu num pranto de lágrimas grossas e palavras incompreensíveis. O ferido, no chão, gemeu de dor.

- Foi ele sim! - reafirmou o homem. - Eu nunca vi nada assim. Nem nos meus livros descrevi uma forma de matar tão estranha. E olhem que sou um escritor consagrado.

Um murmurinho crescente preencheu a sala. O segurança prontificou-se a chamar uma ambulância, enquanto o jogador de futebol lamentava as suas agonias com latidos de angústia. O outro, o tal que partiu o vidro, continuava a chorar, na posição de quem cumpre uma promessa a Deus. Os coleccionadores gritavam, furiosos, pelos danos irreversíveis no quadro. Os menos apreciadores de arte comentavam a situação. Alguém chamou a televisão. O escritor chamava as atenções para si e para os seus livros. Um forrobodó dos diabos.

- Corta! - vociferou um sujeito de boné e barba de quatro dias. - Mas que merda é esta?! Parece uma comédia barata. Tu aí no chão. Que gemidos são esses?! Soas a falso. E tu de joelhos. Choras que nem uma menina. Não esqueças que és um professor de educação física e não uma bicha. Pelo amor de Deus, anda aqui um homem a tentar fazer uma novela de sucesso e tem de levar com badamecos desta categoria. Haja paciência! - suspirou, expelindo um hálito a tabaco incrustado há anos.

 

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