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03
Ago 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

É rara a vez que não me perguntam onde me inspiro para escrever. Ao início, numa tentativa de agradar os leitores e, até, para justificar a mim própria certos dias de preguiça em que não pegava numa só palavra, inventava teorias rocambolescas de inspirações no mar, na terra, nos cheiros, na música, em outros autores, em situações e em sentimentos. Hoje, venho tirar a máscara e revelar algo que a muitos de vós pode retirar toda a ilusão romântica que está por detrás de um escritor: eu não sou possuída por nenhuma entidade inspiradora que desce dos céus, entra em mim e comanda “Valentina, vai escrever!”. Lamento, pessoas, mas não. Com isto não quero dizer que, em certas alturas, uma coisa ou outra me despolete uma ideia mas, a maior parte das vezes, isso não acontece. Escrever - atenção, falo por mim, no meu caso concreto - é um ato diário que exige responsabilidade (sim, porque é um trabalho como qualquer outro), disciplina e, claro, amor. Todos os dias, independentemente da agenda, da disposição, ou de outra coisa, sento-me e trabalho com a literatura. Repito: trabalho com a literatura. Isso não significa que escreva todos os dias - até pode acontecer - mas refiro-me a mais que isso. E como faço? Depende do que me apetece no momento, das necessidades que tenho, das dificuldades que encontrei numa ocasião anterior. Portanto, todos os dias, ou escrevo, ou leio, ou estudo figuras de estilo, ou abro um dicionário e aprendo palavras novas, ou revejo gramática, ou releio algo que tenha escrito e corrijo, ou estruturo ideias para um novo texto. Até posso juntar, num só dia, mais que uma tarefa dessas; em dias mais ocupados ou cansativos, escolho uma coisa leve e faço-o por pouco tempo. Ao início - início, isto é, quando comecei a encarar a escrita de forma mais séria, ou seja, há mais ou menos dois anos - não fazia nada disto. Escrevia apenas quando tinha uma ideia e isso poderia espaçar-se por vários dias ou, até, semanas. Aos poucos notei que, daquela forma, não haveria evolução e criei este método. Se resulta? Com certeza. Sinto que escrevo muito melhor, que as palavras saem-me quase espontaneamente e noto diferenças tão grandes num texto que escrevo hoje para um que escrevi há um ano, por exemplo. E o melhor de tudo: sou tão mais feliz assim, trabalhando todos os dias e construindo um caminho que até pode não dar em nada mas que me faz ter um orgulho imenso em mim. Um dia mais tarde, se me perguntarem, responderei que trabalhei muito, que fui dedicada, esforçada e eternamente apaixonada pela Literatura. O talento é importante, sim, mas sem trabalho não há nada.

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