Como é o vosso Paraíso? O meu tem forma de Biblioteca.
OS MEUS LIVROS: |Distúrbio| |Antologias|

15
Ago 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

I


São quase duas da manhã. Ouvem-se uns risos abafados da sala do café. Duas colegas dela fumam e contam peripécias da sua vida doméstica. Sónia não tem filhos, nem cão, nem tem de fazer sopa para toda a semana. Nem pensa dar uma lipoaspiração como prenda de Natal a ela própria. Senta-se numa cadeira rotativa atrás de um balcão. Daqueles balcões que existem em todos os serviços públicos. De madeira meio riscada e muitas canetas e papéis espalhados. Levanta-se e estica o corpo para espreitar o corredor. Está vazio. De vez em quando ouvem-se os passos de um doente ou outro que fica sem sono e lá vai até à sala de televisão, dar uma volta ao bilhar grande.
Quatro da manhã. Os quartos estão todos escuros. Alguns doentes respiram alto e largam ais. Agarram-se às grades da cama e viram-se de lado. E quando sentem as enfermeiras chegar em seu redor, perguntam que horas são, se a noite ainda demora muito a passar.
A Sónia vai para casa e sonha com corpos, com massas de sangue ocluíndo orifícios. Olha para as pessoas como quem olha para um braço ou uma perna, com veias obesas ou temperatura fria quase necrótica. Decifra na televisão da sala traçados cardíacos arrítmicos e alarmes luminosos que piscam e piscam e que a fazem mudar de canal. E será isto uma doença? Um estado mórbido com o qual terá de viver, com o qual escolheu partilhar o seu próprio corpo? Chega à rua e fica contente por ainda respirar ar frio e ver o Sol e a Lua. Sentir o prazer de conduzir de janela aberta e vento áspero na cara. E anda nesta giga-joga de medos e quereres, sente o corpo diferente e pensa que pode ser hóspede de uma pseudomona ou de um estafilococos que ainda não deu o seu ar de graça e permanece escondido nas suas secreções.
Quatro e trinta. A enfermeira Sónia dá uma volta pelos quartos, os soros correm, os traçados sinusais, as bocas soltam roncos de descanso. Um dos seus doentes é político, lê até horas tardias e tem sempre a mesa-de-cabeceira desarrumada. Mas de resto é igual a todos nós, dorme de olhos fechados e encolhe-se como os animais quando sente dor. Sónia lembra-se das explicações da avó (sentada ao seu lado, no sofá de napa verde), enquanto ela dava um olho pelo relatório do seu ecocardiograma. Que o nosso corpo era como um carro, de vez em quando precisava de mudar de peças. E se ela tivesse uma válvula a mais era a avó que a dava.
Quatro e quarenta e cinco. Um barulho de água a pingar no chão, um doente que urina à porta do quarto. E Sónia pensa que está a sonhar, que tudo não passa de um sonho estranho. Como daquela vez que sonhou que em querendo voava. E quando acordou queria, mas não conseguia. Nem sempre o mundo faz sentido.

 

II

 

Hoje o António sai  tarde. Passou toda a manhã na cama, é verdade, almoçou com tempo e tomou um banho calmo, quente e vagaroso, pegou no carro e chegou ao trabalho faltavam ainda dez minutos para as seis da tarde. Bebeu um café e fardou-se, picou pontualmente o cartão às 18:15 e procurou o chefe de turno, que numa voz rouca de velho lhe indicou o bloco, dois andares de escada a cima, onde iria passar a noite.
António trabalha numa prisão. Tem trinta e poucos anos, acho que não importa. Vive sozinho num apartamento que ainda hoje paga, 50 contos é quanto lhe custa a  independência, o seu reduto de solidão, o chão almofadado e quente da sua cela solitária. Tem amigos, claro que tem. Convidam-no sem o visitar, telefonam-lhe alguns quando faz anos, perguntam-lhe como vai a Rita, para quando os miúdos, para quando o encontro de casais na praia de Ílhavo, para quando o tempo que afirma sempre não ter. António ri-se baixinho daquilo, das coisas sem nexo, diz sempre que agora não pode ser, tudo muito complicado.
Não que não hajam miúdos ou Rita, ambos existem mas sem serem do António, há talvez um rasgo da história que prefere ainda hoje não contar, uma história que esconde como o seu corpo de toda a gente, com medo que o atraiçoe com um suor na cara, um tremer de mãos, um engolir em seco de angústia, que os olhos digam o contrário da boca, que o corpo o traia como ela o traiu e não haja então confiança em nada e fugimos cada um para seu lado como partículas que se repelem e por isso António tem medo, como faria então para fugir da traição do seu corpo?
Quando o turno acabar já será outro dia e calmamente chegará a casa, largará ao acaso os sapatos e, no silêncio da sala, António espoja-se no chão, procura uma bebida numa garrafa que talvez já nem exista, irá rastejar novamente sobre cardos que o queimam por dentro, escorregando no seu próprio choro, na sua própria imbecilidade que o cega de medo, e amanhã de manhã vai passar a manhã na cama, almoçar com tempo e tomar um banho calmo, quente e vagaroso, que o há-de de levar ao fim dos seus dias.



III


Na próxima semana a folha de turnos indica que António entra ao serviço de manhã, na portaria da prisão. De tudo o que por ali se faz é o que gosta mais, poder ver todo o dia o sol, quem chega para as visitas e aquele conforto, aquele carinho enorme por ver alguém de rosto assustado, de mala na mão a ser entregue ao mundo, para nele começar de novo nos braços de alguém que do outro lado da cerca o espera, de sorriso nos lábios e coração aberto, não acreditando que já é hoje este dia.

António estava quase a sair, faltava poucos minutos para as seis da tarde. Uma briga entre reclusos obrigou António a intervir. Eram muitos, os guardas prisionais, seus colegas estavam longe, e António ao tentar separar a briga fora esfaqueado. Não se lembra do depois. Lembra-se que acordou numa cama estranha, perante uns olhos verdes estranhos. A mulher, vestida de verde, perguntou-lhe: “sente-se bem?”. O António acenou com a cabeça.

A mulher de verde não lhe perguntou como vai a Rita, para quando os miúdos, para quando o encontro de casais na praia de Ílhavo. Apenas lhe disse. “Olá, o meu nome é Sónia”. O António pegou-lhe na mão e perguntou-lhe: “Às vezes também sonha que em querendo, pode voar?”. Os olhos de Sónia brilharam e ela disse: “Sim, porque o pergunta?”. O António pegou na mão da enfermeira com mais força e disse-lhe: “Encontrei-te num sonho meu e voámos os dois”.

A solidão de um foi preenchida pela solidão do outro. Agora, Sónia já tem filhos, um cão, e  tem de fazer sopa para toda a semana. Ao António, os amigos continuam a convidá-lo sem o visitar, telefonam-lhe alguns quando faz anos, perguntam-lhe como vai a Sónia, para quando mais miúdos, para quando o encontro de casais na praia de Ílhavo. E António continua a desculpar-se com o tempo e nem sempre o mundo faz sentido.

 

__________________________________

Paulo Larssen cresceu nas margens do Tejo, à beira da cidade de Montijo, há 25 anos. Foi entre o cheiro do rio, os pescadores e a influência da mãe, de origem dinamarquesa, que também escrevia que começou a escrever as primeiras coisas. A escrita cresceu e amadureceu.

Formou-se em Comunicação e jornalismo e trabalha na área da produção de moda. Escreve com e por amor às coisas simples da vida.

_________________________________________________

 

tags:

Contacto: paraisobiblioteca@sapo.pt | Twitter: @ValentinaSFerr
Adquire o teu exemplar do Distúrbio
E tu? Já és fã? ;)
A Menina da Biblioteca também escreve aqui:
"Estórias do Arco-da-Velha"