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Ago 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

- Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais bonito do que eu? - pergunta Manuel diante do antigo espelho. Era o único objecto naquela sala - uma sala com oito metros quadrados e seis janelas cobertas por cortinas poeirentas.

- Duvido que te responda… Para além disso eu sou mais bonito - responde Luís, com um piscar de olhos.

- Vou explorar o resto da casa. Vens?

- Já vou…

Manuel sai e Luís coloca-se diante do espelho, lembrando as palavras do amigo. Poderia não ser o homem mais bonito do mundo mas era, de facto, o mais interessante daquela zona. Agora que o tio solteiro morrera e lhe deixara aquela mansão, sentia-se realizado. Trabalhava numa empresa conceituada, tinha as mulheres que queria, conduzia o último modelo da BMW, viajava, usava roupa de marca. E agora aquela casa incrível. Só lhe faltava uma coisa. Deixar de visitar o Dr. Teles, de tomar aquela medicação, de ter aqueles momentos ruins.

É isso que queres?, pergunta o seu reflexo.

Sim, é, responde Luís.

No entanto, o reflexo não se mexera. Luís cede, dando um passo atrás. Luís, o reflexo, continua no mesmo sítio, de sorriso nos lábios e uma mão encaixada na algibeira das calças.

Mas como…?, pergunta Luís, o verdadeiro.

Decide antecipar a pergunta e caminha quatro passos para trás. Luís, o reflexo, baixa a cabeça e dá uma gargalhada de troça.

Quem és tu?

Eu sou tu.

Mas porquê não te mexes como eu?

Luís, Luís, Luís…já te esqueceste porquê que vais uma vez por semana ao Dr. Teles? 

Não, não esqueci.

Silêncio, total e absoluto.

Então diz-me.

O que?

Diz-me a razão que te leva ao Dr. Teles.

Novamente o silêncio, intercalado por uma respiração de medo.

Porque sofro de dupla personalidade.

Luís olha para o reflexo e, como um clique que se instala no cérebro, entende a pergunta.

Tu és eu, o meu outro eu?

Sim. Destrói-me, destrói-me e a tua vida será perfeita.

Sem pensar duas vezes, Luís atira-se ao espelho que se desfaz em pedaços, como um castelo de cartas que cai numa sala com correntes de ar; como um puzzle que não quer ser montado.

Manuel aparece:

- Luís?! Que te deu na cabeça em partir o espelho?! Mas tu és louco? No testamento dizia que se, por um acaso, o espelho partisse, tu perdias a casa…Oh Luís, que foste tu fazer?

Silêncio, pesado silêncio.

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