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05
Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Os olhos, entorpecidos pelo mergulho ao inconsciente, abriram lentamente, tentando não sucumbir ao ardor que aquela luz provocava. Não sabia onde estava nem porquê lhe doía a cabeça de uma forma tão desesperante. A última vez que estivera acordada, lembra-se perfeitamente, estava em casa a regar os pequenos vasos de plantas aromáticas que a mãe lhe dera nessa semana. Sim, lembra-se de terem tocado à porta e de a ter aberto. Mas a partir daí uma névoa nebulosa preenchia a sua memória. Tacteou ao seu redor na esperança de encontrar um objecto familiar. Nada. Jazia numa cama metálica, sem colchão, coberta apenas por um cobertor que enjoava a urina. A luz que a incomodava era, de facto, uma lâmpada cor de vinho verde que, de vez em quando, apagava por milésimos de segundos. O quarto era minúsculo, sem janelas que dessem para o exterior e nos cantos das paredes bolorentas, insectos escorregadios deslizavam com uma demora irritante.

Amélia levantou-se com dificuldade e observou todo o seu corpo, apreensiva.  Os braços doíam-lhe e estavam cobertos de nódoas negras. O ombro esquerdo, despido pelo top decotado, tinha um rasgão que, em breve, acabaria por sarar. Os abdominais estavam doridos e as ancas custavam a mexer. As pernas eram, até então, as únicas sobreviventes. Levou a mão à boca e foi aí que sentiu o gosto doce a sangue. Começava, pouco a pouco, a regressar a si como se um analgésico deixasse de fazer efeito, e as dores que, até ali, eram suportáveis, tornavam-se cruéis.

- Está aí alguém? - gritou, desesperada, dirigindo-se à única porta. - Socorro! Está aí alguém?

A porta era cinzenta e alta, com manchas de ferrugem. Em cima, uma pequena janelinha com grades deixava entrar o único oxigénio. Amélia tentou espreitar mas a altura era considerável. Olhou outra vez em redor, em busca de qualquer coisa que a fizesse chegar lá. Na extremidade oposta, uma cadeira velha olhava para ela como que a desafiando. Amélia correu afectadamente até lá e pegou nela. Dava na perfeição para chegar ao buraco. A rapariga subiu a medo, não fosse a cadeira partir-se em dois, aproximou-se da abertura e tentou decifrar o que via. Um corredor estreito, húmido e nauseabundo, ladeado por tantas outras portas iguais àquela. Alguns dos quartos iluminados, outros não. Todos num silêncio cortante, excepto um. A três portas do quarto de Amélia, alguém dizia num tom louco e apressado:

- 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres...

A reza era cada vez mais maníaca e depressiva e Amélia era capaz de decifrar o rosto do dono daqueles sussurros

- 1,2,3,4 homens e mulheres. 1, 2,3,4 homens e mulheres - por fim, com uma pancada forte, as palavras sumiram por entre o silêncio perturbador.

Amélia desceu a cadeira e voltou para a cama. O seu coração parecia um fugitivo e a bílis ameaçava querer sair cá para fora.

 

Amélia abriu os olhos e aquela luz invadiu-a de novo até ao tutano. Uma terrível sensação de Dejá Vú percorreu o seu corpo. Que horas seriam? O seu estômago roncava de fome e tinha, novamente, aquela dor de cabeça aguda. Precisava de um banho, de um prato de comida, de uma aspirina e de explicações.

- Pequeno-almoço - a voz vinha de lá de fora, ainda que longe. - Pequeno-almoço.

Amélia moveu-se até à porta e subiu a cadeira. Uma velha, com aspecto de dona de um talho, empurrava um carrinho com dificuldade. Tinha o cabelo cinzento todo puxado em cima da cabeça e preso por uma rede antiga. Na cara gordurosa tinha uns óculos de vista e os três dentes podres davam-lhe um ar assustador. Vestia uma bata branca, encardida e manchada por pingas vermelhas. A ideia de ser cortadora de carnes encaixou-lhe ainda melhor. Era gordíssima e os olhos amarelados acusavam-na de colesterol.

- Pequeno-almoço - a ladainha estava cada vez mais perto e Amélia voltou para o chão, puxando o banco para um canto.

Uma chave entrou na fechadura, girando num som estridente.

- Pequeno-almoço - a velha entrou, sem olhar para a rapariga e depositou uma pequena bandeja no chão. Amélia olhou, de relance, para ela. Um papo-seco de aspecto duro barrado com uma substância castanho-clara e uma xícara de café que nem fumegava.

- Olá. Pode dizer-me onde estou? - perguntou com esperança de que aquela senhora gorda e feia se transformasse na sua salvação.

- Mas porquê raios perguntam todos a mesma coisa? - gritou perto da cara de Amélia. O seu hálito era horrível. Uma mistura de tabaco com alho. - Eu sou a cozinheira desta espelunca. Não tenho que responder a ninguém sobre nada! - fechou a porta com força, trancando-a logo em seguida.

Amélia puxou a cadeira novamente e subiu. Felizmente as gorduras da mulher impediam-na de andar rápido.

- Pode, ao menos, pedir a alguém responsável que venha falar comigo? Isto é engano. Eu não pertenço aqui...nesta prisão...isto é um estabelecimento prisional? Eu não cometi nenhum crime. Por favor, ajude-me! - o seu pedido de socorro era cada vez menos perceptível.

A gorda voltou-se, limpando o suor da cara com a manga da bata.

- É melhor calares a boca se não quiseres voltar a dormir. Não te dou respostas mas posso dar-te três conselhos. Não faças perguntas, não grites e não deixes de obedecer ao que te pedem. Só assim poderás sair algum dia - virou-se de novo e dobrou a esquina do corredor. - Isto se saíres.

Amélia agachou-se na cadeira com uma vontade enorme de chorar. Não conseguia entender o porquê de estar num sítio tão horrível. Logo ela que não fazia mal a uma mosca. Tinha 23 anos e estava no último ano de Economia e Gestão, em Coimbra. Sempre fora uma boa aluna e, apesar de ter chumbado a algumas cadeiras, estava na idade perfeita para começar um novo ciclo da sua vida. Iria fazer o estágio num banco, daria o melhor de si e, quem sabe, ficaria por lá. Dividia o apartamento com a sua amiga Teresa, estudante de Sociologia. Namorava com Rodrigo, também do seu curso. Os pais estavam divorciados e, aos fins-de-semana, ia até Aveiro, local de residência da mãe. Encontrava-se poucas vezes com o pai, que vivia no Algarve, mas davam-se bem. Não tinha irmãos, nem primos e orgulhava-se de não ser uma menina mimada por esse facto. Não se metia com ninguém, era pacata e atenciosa e, até nas praxes, tinha medo de impor-se perante os caloiros. Nunca cometera nenhum crime, nem sequer alguma vez levara uma multa de trânsito.

- 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres - os seus pensamentos foram interrompidos por essa cantoria. Endireitou-se na cadeira.

- Eh. Psiu. Estás a ouvir-me? - a voz calou-se. - Hey, fala comigo. Sou nova aqui.

- Não te vejo. Quem és? Mais uma mulher? 1,2,3,4 homens e 5 mulheres. 1,2,3,4 homens e 5 mulheres - continuou ele.

- Não. Estou aqui. No outro quarto. Não há nenhuma cadeira por aí?

Silêncio.

- Estás a ouvir-me?

- Sim, estou sentado nela.

- Então encosta-a à porta e olha pela janela - pediu.

Ouviu um arrastar desnecessário, como se o homem não tivesse qualquer força para pegar no banco. De repente, viu-o e o que imaginara dele não se aproximava, sequer, da realidade. Esquelético, pálido ao ponto de poder ver-se os vasos sanguíneos por debaixo da pele, as pupilas exageradamente dilatadas, círculos azuis-escuros por debaixo dos olhos e o cabelo ralo, tão ralo, que lhe faltavam madeixas pela cabeça.

- Olá - sorriu. - Como te chamas? - achou a pergunta demasiado estúpida para a ocasião.

- Não sei - respondeu, meio taciturno.

- Hum...está bem...eu sou a Amélia. Há quanto tempo estás cá?

- Não sei.

- E porquê vieste aqui parar?

- Por causa dos homens e das mulheres - respondeu, finalmente.

- Que homens e mulheres?

- Aqueles que aparecem às vezes.

- Onde?

- Aqui - disse apontando para a cabeça.

- Onde estamos? Sabes? - perguntou a medo.

- Na nossa salvação. Se não estivesse aqui, os homens e as mulheres já me tinham comido.

Amélia assustou-se com aquela resposta.

- E tu, porquê estás aqui? Também vês homens e mulheres?

- Não. Acho que não. Não sei - disse, confusa.

- Pensas que não vês mas vês. Toda a gente vê. TODA A GENTE! - gritou e desapareceu no quarto, recomeçando a sua agoniante lengalenga.

Amélia desceu novamente do banco. Sentou-se ao lado do tabuleiro e começou a mastigar, ignorando o sabor dos alimentos. Apenas precisava de algo que reconfortasse o seu estômago. Pensou nas palavras do louco.

- Louco? - a palavra surgira-lhe no pensamento. - Sim, louco. Se ele é louco, isto deve ser uma espécie de manicómio. E eu estou aqui por engano - disse como se estivesse alguém a ouvi-la. Continuou a comer, imaginando-se na cozinha do seu apartamento, a ouvir as histórias excitantes de Teresa. - Por falar em Teresa, era ela quem devia estar aqui. É ela a ninfomaníaca - calou-se e levou a chávena de café frio à boca.

Acabou a pequena refeição em pouco tempo. Deixou a bandeja no mesmo lugar e levantou-se com vontade de explorar o cubículo onde se encontrava. Uma cama, uma cadeira, um vestuário e um espelho. Não se lembra de tantos móveis, mas também reconhece que estivera em choque até há bem pouco tempo. Caminhou até ao armário e abriu-o de par em par. Cheirava a naftalina e uma aranha habitava-o. Amélia pegou no bichinho e colocou-o no chão. A mãe sempre lhe dissera que matar aranhas era mau presságio, pois elas traziam fortuna para o lar. Riu-se da ideia de ter pensado em associar aquele lugar mofento e deprimente ao conceito de lar. O móvel tinha cinco cabides a meio. Do lado esquerdo, pequenas prateleiras serviam lindamente para colocar perfumes, maquilhagem e caixinhas de jóias. Do outro lado, havia gavetas, quatro no total. Amélia abriu-as na expectativa de encontrar qualquer coisa que denunciasse onde estava. Abriu a primeira. Vazia. A segunda. Idem aspas. A terceira. O mesmo. Finalmente, na quarta estava um módico cartão, bem lá no fundo, como que colocado propositadamente para alguém muito curioso achar. Estava amarelado e ruído pelas traças e a letra era, um tanto ou quanto, antiquada. Pegou nele e leu “Clínica Pascoal – Reabilitação e Reintegração Social”. Não tinha qualquer morada ou contacto.

- Que falta de sorte – disse.

Sentia-se mais alarmada. Não era viciada em qualquer tipo de droga. Aliás, só bebia em convívios académicos, nas Latadas e Queimas das Fitas. Não fumava. Não tinha qualquer vício. Os amigos, inclusive, chamavam-na de beata, na brincadeira. E, ainda assim, encontrava-se ali. Teresa devia estar preocupada, para não falar do namorado que, com certeza, já telefonara para a mãe. Mas isso era bom. Daí a nada, alguém estaria à sua procura e aquele grave mal-entendido teria um final feliz.

Fechou o armário e viu, bem encostado a ele, uma mala preta e enorme. Amélia franziu o sobrolho. Mais uma coisa que não se lembrava de ter visto. Arrastou a mala até à cama e jogou-a lá para cima, abrindo-a logo em seguida. As suas roupas, as predilectas ainda por cima, estavam todas lá dentro. Arrumadas, cheirosas e passadas a ferro. Pegou na primeira, um vestido branco com as bainhas em croché. Rodrigo oferecera-lhe no dia do seu aniversário, em Agosto do ano passado. Abandonou os pensamentos e concentrou-se na mala. Mas era difícil. A sua cabeça buscava, sempre, qualquer coisa em que pensar. Não tinha sido raptada então. Quem poderia fazer a mala, com as suas roupas favoritas, senão alguém que a conhecesse muito bem? Sentiu um aperto no coração. Não queria pensar nessa possibilidade. Não, era uma ideia tola. As pessoas adoravam-na. Tinha sido raptada por um louco estranho. Essa era a verdade.

Tirou todo o vestuário de dentro da mala e guardou-o no roupeiro. Não pretendia ficar ali durante muito tempo mas, ao menos, distraía-se e não pensava em absurdos. Guardou tudo por peça e cor. Era muito organizada, demais até, segundo a sua mãe. Na casa de Coimbra, tudo estava arrumado, no lugar certo, etiquetado e nada, naquele espaço, assemelhava-se a uma casa de estudantes. Acabou em pouco tempo, perdida nos seus pensamentos. Queria falar com alguém, resolver a sua situação ali, entender aquele equívoco e ir embora. Tinha saudades de Rodrigo, de Teresa, da mãe e de Papuska.

 

- Bom dia. Passe-me ao Dr. Pascoal, por favor – a voz era dura.

- Com certeza. Aguarde um momento – responde outra, eficiente e bem-disposta, alheia à dor daqueles que telefonavam para saber notícias.

O telefone tocou duas vezes e uma música brasileira desconhecida acompanhava.

- Pronto – atende um homem.

- Sr. Dr., como está? É a Olga. Olga Martins – a voz continuava desconsolada com um certo tom de preocupação.

- D. Olga, como vai? – pergunta.

- Como sempre. Gostava de saber novidades sobre a Andreia – pronunciou o nome com uma certa dificuldade.

- D. Olga, receio que não seja um assunto a ser tratado por telefone – advertiu.

- Gostava apenas de saber se a minha filha já reage de alguma maneira ao internamento, se há alguma melhoria e se posso visitá-la esta semana.

- A Andreia é um caso complicado. Já a temos cá há muito tempo e ainda não conseguimos com que ela mantivesse uma conversa lúcida por muito tempo. Há vezes em que acorda e fala correctamente. Arrisco-me até a dizer que vocaliza frases pouco próprias para a sua idade e maturidade. Porém, nessas mesmas vezes, parece-me que se faz passar por outra pessoa. Não sei, alguém mais culto, mais inteligente e com uma grande capacidade de comunicação. Noutras alturas, até, balbucia palavras imperceptíveis. Raramente comunica com os outros pacientes e reage mal quando tem que tomar a medicação. Tem ataques de pânico e tenta agredir-se. O seu esposo esteve cá há poucas semanas…

- Ex-marido – corrigiu Olga.

- Sim, desculpe. Como dizia, ele esteve cá há pouco tempo e a Andreia nem sentiu a sua presença. Ele tentou falar-lhe, transmitir algum carinho mas a Andreia simplesmente ignorou que alguém estivesse ali.

Olga fungou baixinho. Sentia um nó que apertava demasiado na garganta. – Então não há melhorias desde a última vez. Às vezes questiono-me se não será melhor trazê-la para casa. Quem sabe se junto de mim, dos avós e das coisas que lhe são familiares, ela tivesse qualquer tipo de recuperação.

- D. Olga, já tivemos esta conversa antes. Tirar a Andreia daqui, agora, seria um enorme recuo. É certo que a rapariga não fala nem interage mas acho que ambos estamos de acordo que é melhor ela estar assim do que da maneira que estava quando vivia convosco. Não acha?

- Sim, Sr. Dr. Mas custa tanto… - as lágrimas teimosas já corriam pela face.

- Eu sei, D. Olga, eu sei. Custa a todos. O que mais desejo é que todos os pacientes deste hospital, ultrapassem os seus problemas e voltem para as suas famílias – a afirmação saíra-lhe realmente sincera.

- Passo esta semana por aí. Boa tarde, Dr. Pascoal. Com licença – desligou o telefone ainda antes do médico poder despedir-se. Pousou o auscultador e fechou os olhos, rendida pelo silêncio exaustivo. Há muito tempo que vivia assim. Num profundo e deprimente silêncio. Sentia a falta da voz doce de Andreia, a contar as aventuras do dia, das gargalhadas que intercalava entre os episódios pitorescos. Queria, por demais, a sua cria debaixo da sua asa.

 

Deveria ser perto da hora do almoço. Sentia o estômago roncar e o tédio começava a apoderar-se de si. Sabia que daí a nada, alguém levar-lhe-ia um prato de comida e essa seria a sua oportunidade para resolver aquela infeliz confusão.

Ouviu passos no corredor. Eram pesarosos e lentos. Era aquela mulher outra vez. A carniceira. Endireitou os fios de cabelo que estavam desalinhados e olhou rapidamente para a roupa que vestia. Precisava de um banho urgentemente.

- Toca a levantar. O almoço está pronto – disse a velha.

A porta abriu e Amélia viu a mesma figura sebenta que vira de manhã. Não trazia qualquer tabuleiro e vinha sozinha, carregando apenas o molho de chaves com que abria as portas.

- Vamos. O almoço está a ser servido na cantina – ordena.

Amélia apressa-se a sair e a colocar-se, em fila, por detrás das outras pessoas. Não queria dar nas vistas mas somente comer e encontrar o responsável por aquela instituição. O corredor que os levava para a sala de refeições era longo e frio. Em algumas partes, caíam pingos de água que, ao tocarem nos canos, ecoavam num som terrorífico. Cheirava a ratos e a ferro enferrujado. À sua frente seguiam cinco pessoas. Quatro homens e uma rapariga. O louco do “um, dois, três, quatro” ia praticamente dobrado sobre si, abanando a cabeça em várias direcções. Um outro, mais velho, andava completamente direito com os olhos fixos no oculto. Mais à frente ia um jovem com ar de delinquente ameaçador, seguido por outro que gaguejava, para si próprio, cantilenas desconexas e imperceptíveis. Formavam, os quatro, um grupo interessante e, ao mesmo tempo, perturbador. Cada um encaixava no outro na perfeição. Se se retirasse um deles, aquela pintura perderia o interesse. Era como se, naquele corredor, ladeado por quartos, fosse imprescindível a presença daqueles quatro homens tão diferentes mas igualmente doidos. A rapariga era a única que estava a mais no cenário louco que Amélia via diante de si. A rapariga e ela própria, claro. Deveria ter mais ou menos a sua idade. Usava o cabelo pelos ombros, cortados a direito e a cor assemelhava-se à cor da casca de um kiwi. Era baixa, com seios pequenos, cintura e ancas largas. O rabo parecia-lhe um tanto ou quanto grande e as coxas grossas. Tinha olhos castanhos e pouco expressivos. Era uma rapariga bonita mas não possuía aquele brilho capaz de virar cabeças nas ruas. Andava normalmente, se bem que parecia um pouco alheia à realidade. Parecia, por vezes, que não sentia o chão que pisava, dando a sensação que flutuava. Não olhava para ninguém, ignorando toda a gente e, no entanto, não se encaixava naquele lugar.

Chegaram à cantina e foram encaminhados para uma larga mesa que tinha cadeiras para todos eles. As restantes já estavam ocupadas por outras pessoas que aguardavam a chegada dos tabuleiros com alguma ansiedade. Homens e mulheres, todos eles com o mesmo uniforme azul claro, os cabelos despenteados e no rosto aquela expressão de monstro lunático. Amélia sentiu-se ainda mais deslocada e procurou sentar-se perto da outra rapariga, a única que desbotava daquele quadro alucinado.

- Olá. Importas-te que me sente aqui? – perguntou.

Os olhos da rapariga invadiram os de Amélia de uma forma realmente constrangedora e não houve qualquer resposta. Deixou-se, então, ficar ali. Tinha a esperança que durante o almoço conseguisse estabelecer um diálogo.

Os tabuleiros chegaram, distribuídos por senhoras de meia-idade cobertas de pó de arroz e os cabelos presos numa rede muito fininha. Não espalhavam sorrisos mas não eram desagradáveis. Cumpriam o trabalho com facilidade e com um certo ar de pressa, desejosas de sair dali e encontrar o marido ou o amante em casa. A sopa rala e insonsa caiu bem a Amélia mas o segundo prato, um macarrão demasiado cozido com pedaços de carne quase cruas, reviraram o seu estômago. Preferiu avançar para a sobremesa, uma laranja perfumada. Olhou de relance para a companheira de mesa e, novamente, os olhares penetraram um no outro. Desta vez sentiu algo diferente. Já não teve aquela sensação de estar despida diante dela, pelo contrário, era como se a conhecesse melhor que ninguém. Era como se partilhassem as mesmas memórias e os mesmos receios.

- Como é o teu nome? – perguntou, instintivamente.

A outra não respondeu mas via-se nos seus lábios que as palavras estavam ali, desejosas de escorregar cá para fora.

- Não tenhas medo, eu não sou como eles – pediu, olhando em direcção aos restantes. – Eu também estou aqui por engano.

- Andreia – disse como que cuspindo.

- Olá Andreia, eu sou a Amélia – levantou a mão para que Andreia a apertasse mas esta baixou os olhos e continuou bebericando a sopa. – Então, estás há muito tempo aqui?

Andreia acenou que sim, sempre cabisbaixa.

- Tens família? – insistiu.

Repete-se a mesma cena.

- E porquê estás aqui? Sabes? – perguntou encostando a sua mão à de Andreia como que a protegendo contra a sua própria resposta.

Andreia estremeceu com o toque. Não estava habituada a esse tipo de intimidade. Sentia-se sequiosa de contacto, de alguém que a abraçasse e aquela mão macia era tudo o que precisava naquele momento. Deixou-se ficar assim, amparada por uma mão que não conhecia mas que lhe sabia tão bem. Não disse nada. Desejou apenas ficar de mãos dadas para sempre.

- É-te difícil falar sobre isto, não é? – interrompeu Amélia, retirando a mão que pousara sobre a de Andreia.

Andreia sentiu-se perder no vácuo novamente. O apoio tinha-lhe sido tirado sem avisos mais uma vez e aqueles tremores que a assombravam de quando em quando pareciam crescer dentro de si. Empurrou o tabuleiro para Amélia que saltou da cadeira com os braços em riste e uma expressão de admiração. Andreia correu, tropeçando nas pessoas que entravam em pânico. Em segundos, aquele lugar onde só se ouviam burburinhos desconexos e talheres a bater em loiça foi substituído por uma algazarra perturbante. Andreia foi, finalmente agarrada por dois enfermeiros que a arrastavam pelo corredor enquanto gritava e esperneava até, finalmente, desaparecer. Os restantes enfermeiros tentavam acalmar quem por ali gritava e, por fim, foram levados novamente para os seus quartos.

Amélia teve uma vontade espontânea de dormir como se estivesse acordada há muito tempo, ou até, como se nunca o tivesse feito em toda a sua vida.

Andreia queria correr, libertar toda a sua fúria. Sentia um desespero crescente dentro de si, um rugido escondido que aos poucos se soltava para a posterioridade.

Amélia deitou o corpo entorpecido na cama fria e aconchegou a cabeça na almofada que não se lembrava de existir. Respirou suavemente, fechou os olhos numa calma quase irreal e deixou-se levar pela fada dos sonhos.

Andreia andava de um lado para o outro no interior do seu quarto. Respirava pela boca. Um ar que lhe sabia a vidro, que cortava a sua garganta, que a encrespava os pêlos do corpo. Queria sair dali e perder-se nas suas coisas. Aquela falta era um tormento na sua alma. Não conseguiria aguentar por muito mais tempo. A cabeça doía-lhe, o corpo retesava-se pelo frio, pela culpa de não se curar, pelo sentimento de fracasso. E, por fim, gritou. Gritou até a voz sumir-lhe no pensamento. Ou até uma agulha penetra-lhe na veia do braço esquerdo. Não sentiu dor. Já conhecia aquela sensação há mais tempo do que queria. Deixou-se cair no chão, amparada por uns braços que a seguravam quase todos os dias. Adormeceu.

No outro quarto, em outro corredor, Amélia acordava. Dormira pouco mas sentia-se reestruturada, pronta para enfrentar os seus inimigos. Encostou a cadeira à porta e chamou por quem a ouvisse.

 

Continua...

Para ler o final do conto acesse ao blog Café de Ontem e leia a revista 1000 Universos.

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