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Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Mas quem escreve numa caixa de fósforos?, questiona-se. Quem tem algo a esconder, estúpida, responde imediatamente para si própria. Desde de manhã que andava naquela agonia venenosa, fingindo que trabalhava, abanando a cabeça às conversas que se desenrolavam em volta e mastigando um chiclete de menta para não cair na tentação do cigarro. Vanessa, Vanessa, Vanessa, Vanessa. O nome dançava no cérebro com a fluidez de um papel que voa ao vento. Vanessa, 238759372. Um nome e um número. O nome e o número: da amante. Por isso é que ele anda tão estranho, pensa. Mas porquê?, porquê não acabar? Ele sabia que ela odiava deslealdades. Era uma mulher suficientemente forte para aguentar com um pedido de divórcio. Mas uma traição?, uma traição é que não. Era demasiada humilhação. Ainda por cima não havia filhos para prender, nem bens para dividir, nem, sequer, um cão para disputar. E, para além disso, eram amigos e davam-se bem na vida e respeitavam o espaço um do outro. E ainda ontem fizemos um amor tão louco, recorda. O telefone toca e ela olha para o visor: era o inimigo - o marido. Com dificuldade engole a saliva pesada e atende a chamada com um áspero Estou. Querida?, pergunta uma voz carinhosa. Diz. Querida, encontraste alguma coisa nas minhas calças? Ela desespera com a falta de vergonha: não bastava a traição, ele ainda fazia questão de lamber a desfeita na sua cara, com desaforo. Sim, diz demasiado nervosa. Uma caixa de fósforos? Sim, responde quase desfalecendo de acanhamento. Querida, preciso que me digas o número e o nome que lá estão. O nome?, pensa ela, Tem amante e nem sabe o nome? Vanessa, 238759372, sussurra enquanto sente o tempo parar e as imagens da frustração desenrolam-se na caixa aberta que é a janela do seu escritório: os ramos das árvores que espetam a barriga do céu; uma rixa de cães; um acidente de carro que dilacera uma família; uma velha que tem um ataque cardíaco; um assaltante que silencia a vítima; o sol que queima as flores; o marido que a trai. Obrigada, querida, sussurra a voz que a acorda da morbidez das cenas; Acho que ganhámos uma estadia num hotel durante um fim-de-semana. Uma estadia?, pergunta a mulher, dividida entre um pesadelo real e uma dor de cabeça absurda. Sim, querida; fizeram um sorteio na empresa e tenho quase a certeza de que foi esse o número e o nome que saíram, mas preciso confirmar. Ela encosta-se à cadeira e uma sensação de liberdade desmaia sobre si. És tão parva, mulher!, pensa, enquanto tira um cigarro da carteira e ouve os detalhes do prémio. 

 

Publicado originalmente na Rubrica Estórias do Arco-da-Velha da Revista JA da Associação Académica da Universidade da Madeira.

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