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19
Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

- Olá Alberto. Sou eu. Sei que não queres falar comigo mas eu preciso dizer que o nosso casamento não pode acabar assim, não assim, sabes que assim não é a forma certa.

O homem desliza pelo sofá e leva o cálice de tinto à boca.

- Alberto, eu errei, eu sei que errei mas será que não me podes perdoar? Só te peço isto: que perdoes este primeiro e último deslize no nosso casamento.

Um choro fininho escorrega pelo atendedor de chamadas. O homem sorri como um garoto: parece feliz com a mensagem.

- Alberto, pensa na nossa filha, no quanto ela precisa de nós, juntos, não separados que separados não prestamos para nada, sabes bem disso, sabes desde o dia em que começamos a namorar e sabes hoje, agora, que estás a ouvir o que te estou a dizer. Eu sei que sabes e também sei que estás a sorrir e estás feliz e desejoso de esquecer o que eu fiz.

O vinho lambe o interior da garganta do homem e ele coça a barba. Sim, realmente sorria e estava feliz. Quem não estaria?

- Alberto… Alberto, eu amo-te. Bem sei que o digo poucas vezes mas é assim: eu amo-te. E sei que tu também me amas, do teu jeito, assim como eu te amo do meu jeito, mas é um jeito a que ambos estamos habituados e, então, porquê mudar?, porquê acabar?, porquê fingir que já não existe?, quando existe, ao nosso jeito, mas existe. Alberto, eu amo-te.

O homem seca a lágrima teimosa que floresce no canto do olho. Se lhe perguntassem, diria que uma poeira atrapalhara a sua visão. Se lhe perguntassem. Mas estava sozinho.

- Alberto, volta hoje para casa. Estou à tua espera; estamos à tua espera. A tua filha quer falar contigo.

- Papá, volta para casa. Tenho saudades tuas e a mamã está sempre a chorar. Papá, volta. Até logo.

A chamada cai e o homem fecha os olhos.

Que pena não ser esse tal de Alberto.

 

Publicado, originalmente, na Rubrica Estórias do Arco-da-Velha da Revista JA da Associação Académica da Universidade da Madeira.


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