Como é o vosso Paraíso? O meu tem forma de Biblioteca.
OS MEUS LIVROS: |Distúrbio| |Antologias|

26
Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

A fumaça do meu cigarro dança pelo ar e sai pela janela, voando até aos fumos que as chaminés altas das fábricas cospem. Na mesa-de-cabeceira, dois incensos queimam, tornando o ar pesado e mergulhado num cheiro detestável que lembra as concentrações doentias de gente com peste. Os meus olhos ardem devido ao cansaço e ao excesso de uso das lentes de contacto. Um vapor malcheiroso sai da minha boca e cola-se ao vidro. Faz frio lá fora; aqui dentro está tudo demasiado quente, demasiado húmido. E isso coze os cheiros, as comichões, o suor que se derrete pela minha pele e faz de mim um homem asqueroso. Do outro lado da rua, um lago verde abre-se para o céu, mostrando todas as suas intimidades. Provavelmente lá também cheira a podre. Adoro ver a névoa esmeraldina que se evola nos remoinhos das pequenas ondas que o vento invernoso provoca. Encaro o próprio lago que se enlaça no chão do meu quarto formado pelo meu sémen, por vísceras descoalhadas, por um fio de corrimento vaginal, por gangrenas e pedaços que fazem lembrar os fígados das galinhas. Todas essas porcarias da morte nadam numa bonita poça de sangue. E o fedor que dali é parido? - um miasma que se cola aos pêlos das minhas narinas provocando-me uma vontade descontrolada em vomitar. Um líquido amarelo e viscoso rompe da minha boca. Por um segundo, o cheiro avinagrado do vómito diluí toda esta atmosfera encardida de podridão. Encaro a cama e o corpo que nela está depositado. A mulher olha-me, embora sem olhos. Eles estão algures no mar de sangue da alcatifa. O cadáver apodrece de uma forma sensual. Só de mirá-lo sinto o desejo em saciar os meus prazeres. Uma aura purulenta sobe pelo corpo, parida pelos órgãos que se expõem do corpo aberto. Toda ela é um pedaço de carne retalhado. Toda ela deixou de ser feia, de ser apenas mulher, de ser apenas humana. Agora está tão linda, tão perfeita. Agora ela é tudo, para além da vida. As lágrimas correm-me ao apreciar a beleza insuportável da morte.

- Querida Maria, agora podes ser feliz.

Aproximo-me dela e beijo-lhe os lábios pálidos. Um bafo de verme atinge-me na cara. A minha masculinidade entesa-se diante daquele espectáculo de cores e vapores. Porém, antes de sequer despir-me, a imagem de um homem mancha a visão perfeita a que os meus olhos se habituaram.

- Levante-se. Está na hora da medicação.

Encaro o homem. Filho da puta. Entra sempre na altura da glorificação, no provar das texturas, no beber dos líquidos mornos daquele corpo.

- Levante-se! - repete ele.

E, de repente, volto à estaca zero: o quarto é novamente branco e, em cima da cama, apenas morre uma velha almofada.

 

 

Publicado, originalmente, na Infektion Magazine.

tags:

Contacto: paraisobiblioteca@sapo.pt | Twitter: @ValentinaSFerr
Adquire o teu exemplar do Distúrbio
E tu? Já és fã? ;)
A Menina da Biblioteca também escreve aqui:
"Estórias do Arco-da-Velha"