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06
Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

A seguinte entrevista é da total responsabilidade do autor Mário de Carvalho e foi retirada do seguinte endereço: http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=3283

 

 

P. O Homem do Turbante Verde é, de novo, um livro de contos. Trata de quê?

R. Eis a típica pergunta da preguiça. Apetece sempre responder: «do que está lá dentro». Mas dada a consideração que tenho pelo perguntador, sempre direi que é um livro de contos de certa duração que se divide, não por acaso, em quatro partes. Na primeira percorrem-se mundos imaginários de guerra no deserto e aventuras na savana. Na segunda, faz-se a crónica duma juventude que honrou este país, com candura e generosidade, duma forma que mereceria maior reconhecimento (até mesmo pelos próprios, já crescidos). Na terceira, transtorna-se um quotidiano de rotina pela irrupção da estranheza e do fantástico. Na quarta, atravessa-se um mundo ameaçador de crueldade, delírio e paranóia;


P. Este título, O Homem do Turbante Verde não tem nenhuma aspiração a originalidade, pois não?

R. Não senhor. É um expediente pura e declaradamente literário. Um tributo à ficção. Ocorrem-nos logo O Homem que Via Passar os Comboios de Simenon, A Rapariga dos Fósforos de Cardoso Pires», A Mulher de Branco de Wilkie Collins, As raparigas de Sanfrediano, de Pratolini e, no cinema, O Homem do Fato Claro, O Homem do Fato Cinzento, A Rapariga da Mala, e um nunca mais acabar de homens, mulheres, raparigas e rapazes de que me lembrarei amanhã…
Como não é raro (e acontece, por exemplo, em A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho), um dos contos dá o nome ao livro.
O todo (pode ser impressão minha, o leitor dirá) articula-se num conjunto multifacetado que ele próprio faz sentido.


P. Há quem diga que os vertiginosos tempos de hoje não permitem leituras prolongadas. Foi por isso que escreveste um livro de contos?

R. Essa afirmação, salvo o devido respeito, é um tremendíssimo despautério. Uma das incomodidades que tem este mester é ver fervilhar em volta as tretas, muitas vezes ditas por profissionais da área. Tenho prometido a mim mesmo escrever um dia, se tiver paciência, um Grande Livro das Lérias e das Tretas para que não faltará material. Quem se dedica à Física Nuclear, ao Direito, ou à Arquitectura está seguramente mais defendido dos dislates. Mas, ao que parece, todo o bicho careta se sente à vontade para proferir opiniões literárias.
Os textos do Harry Potter ou de O Senhor dos Anéis (para mencionar sucessos recentes) são túrgidos como bíblias. Alguns desses autores kitsch que vejo por aí a querer vender desmesuradamente são autênticos empilhadores de páginas.
Escrevi contos porque é um dos meus trilhos, porque sempre escrevi contos, porque me apeteceu, porque chegou a altura, e porque sim, quia leo nominor. Não para condescender com a suposta vertigem-dos-tempos em que ouço falar desde miúdo.
Aliás, um dos efeitos estranhos desta deliberada ablação da memória a que o capitalismo tem procedido ultimamente é que nos são sistematicamente apresentadas como novidades coisas que já eram decrépitas antes de nascermos.



P. Mas, afinal, Quem é que lê contos hoje em dia?
R. Toda a gente. Algumas das grandes obras da literatura mundial são contos. Um dos maiores autores do século XX que nos deixou a todos encantados quando alguns dos seus textos foram conhecidos, entre nós, nos anos sessenta, Jorge Luís Borges, nunca escreveu romances. E Checov? E Flannery O´Connor? Queres que comece a enumerar outros casos? Dropping names?


P. Isto de turbantes verdes e aridezes e armas automáticas não terá que ver com acontecimentos em marcha, nestes dias de hoje.

R: Sim e ão. Se no conto O Homem do Turbante Verde aparece um drone é óbvio que remete para a tecnologia actual. O turbante verde também tem um carácter simbólico que é hoje reconhecível. Bem como certo tipo de tropa… Mas, por outro lado, eu cresci entre milhentos livros de aventuras e de viagens por distantes areais em que figuravam ferozes «rebeldes», não se sabia bem contra quem, nem em nome de quê.


P. Porquê tanta crueldade num conto como A Longa Marcha?

R. Não conheces o meu lado sinistro? Lê o Conde Jano.


P. Esses jovens que fazem a sua aprendizagem da vida militando na resistência existiram mesmo?

R. Eu não escrevo memórias, escrevo ficção, mas nem sempre esqueço as normas aristotélicas da verosimilhança e causalidade. Estes jovens foram imaginados, mas podiam ter existido. O quadro em que se movem, esse sim, existiu e é tratado numa aproximação realista. Eu sei as implicações que o uso de vocábulos como «ficção» e «realista» têm, mas prefiro ser directo e deixar as congeminações para outro dia.
Devo dizer que graças à generosidade desses jovens de então que, muitas vezes aprenderam sua custa o que era «o povo», nós não vivemos hoje no país sombrio, agachadinho, aviltado que era o do fascismo do meu tempo, com as paredes à escuta e porrada na polícia.
A gente acomodada e oportunista dessa altura era muito parecida com esta e está agora nos partidos do poder, o «arco da tranquibérnia» que vampirizou o país e o levou ao desastre? Sem dúvida, em certos casos até se tratava das mesmas famílias. Mas foram-lhes indisponibilizadas (até mais ver) algumas armas de sujeição: a polícia política, o partido único, a censura, a ordem corporativa, a legislação regressiva, a fraude sistemática, a cooptação no poder, o analfabetismo generalizado, a hierarquia da igreja cúmplice e a guarda republicana por conta.
Mesmo em situação desesperada, é doutro país que se trata, graças também ao efeito repercussivo da acção corajosa de uns poucos milhares de jovens. Derrotado, abatido, defraudado, mas ainda no primeiro mundo.


P. Porque é que és tão assertivo? Por exemplo, há bocado usaste uma fábula de Fedro, que é uma óbvia reminiscência do latim do liceu. Acontece que não falas latim, a maior parte das pessoas não fala latim, o latim está reservado a meia dúzia de heroínas e heróis, que transportam o lume santo na cova das feras. Não parece arrogante, ou peneiroso?

R. Ainda bem que me fazes essa pergunta. Gosto de lembrar que não nascemos ontem. Se escrevo Setúbal, é porque arribaram cá uns fenícios que adoravam um deus a que chamavam Bal. Se escrevo livro é porque uns romanos me entregaram esse vocábulo. Se escrevo guerra, é porque por aqui andaram uns povos germânicos que deixaram a palavra. Se escrevo azeite, é porque estiveram por cá uns mouros… O recurso ao latim/latão mais do que ostentar uma erudição que nem tenho é um apelo à cumplicidade do leitor, lembrando-nos em conjunto de que há alguma espessura nesta civilização.
Quanto a ser «assertivo», não ligues. Também é um fingimento.


P. Estamos a terminar e reparo que ainda não ironizaste a respeito da técnica da auto-entrevista. É um ponto de honra para todos os perpetrantes, não é?

R. Quando aceitamos um jogo, respeitamos as regras. Outro dia, uma estagiária de um tablóide fez-me perguntas absolutamente inacreditáveis a que eu não pude responder por uma questão de decoro.
Assim, ao menos sei com quem estou a falar e qual o grau de instrução do meu interlocutor.
As auto-entrevistas fazem parte daquelas ideias cíclicas que vão ressurgindo, como os folhetins, as mesas-redondas, os cadáveres esquisitos, e os relatos sobre o naufrágio do Titanic. Em si, não têm nada de mal. O grande risco é o entrevistado cair na tentação de se armar em engraçado, seguindo um pouco o espírito do tempo, em que os destinatários destas coisas se arrogam o direito de ser entretidos. Devo dizer que li de esguelha as auto-entrevistas publicadas no JL aqui há uns anos. O autor escreve-se sob a fórmula de diálogo. Podia-se optar por uma conversação entre Filorodos e Anatropos, que dava na mesma.


P. Alguma coisa de que eu me tenha esquecido e que quisesses ainda dizer?


R. São três e tal da manhã. Depois falamos.

Mário de Carvalho


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