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29
Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

E chegamos ao fim destas valiosas aulas *.* Mas não se preocupem: Carolina Bernardes escreve mensalmente para a Revista Benfazeja. É só continuarem a seguir por lá. Espero que tenham gostado. O meu muito obrigada à Carolina por permitir emprestar à nossa Biblioteca tão ricas dicas.

 

 

"Razões da Literatura: por que escreve o escritor?

 


Para Mário Quintana, escrever é uma maneira de ser. Para o escritor grego Nikos Kazantzakis, é a libertação de sua escuridão interior. Para Cecília Meireles, a escrita “aproxima as distâncias, se compreendem as criaturas, e os povos se comunicam as suas dores e alegrias sempre semelhantes”.

É evidente que as possibilidades de definição se mostram amplas e intermináveis. Cada autor, em seu tempo e em sua subjetividade, manifesta a sua relação mais do que pessoal com o veículo de sua expressão, pois seu conceito de escrita se vincula à força que o move à prática de escavação e revelação (do outro e de si). Nós, que igualmente escrevemos, da maneira que somos, em nosso tempo e lugar, podemos dialogar com as referidas visões do fazer literário. Podemos nos identificar com uma ou outra, com parte desta ou daquela e, assim, arriscar a formulação de nossa própria maneira de ser escritor. Esse nosso jeito de escrever pode ser tão igual ou tão diferente dos outros. Pode ser único ou uma repetição de padrões antigos. Pode não ser uma cópia de ninguém, e mesmo assim igual, porque as idéias circulam em todos os cantos redondos do mundo. Posso sentir o mesmo que o outro e encontrar uma maneira diferente de expressar. Não é isso que faz do não-literário tornar-se literário? Uma forma diferente de dizer o mesmo? Se assim não fosse, o amor seria um tema ultrapassado...

Neste artigo, convido o leitor/autor a refletir sobre a sua relação com o texto, com a criação, com o leitor e com a sua auto-imagem de autor. Apresento algumas avaliações teóricas que têm sido feitas da literatura.

Na filosofia platônica, a literatura é entendida como imitação ou cópia imperfeita da realidade. Mas se Platão condena a Poesia como modo inadequado de alcançar a verdade (diferentemente da filosofia, que seria superior à poesia), Aristóteles considera-a instrumento válido de conhecimento, pois “o poeta cria um mundo coerente em que os acontecimentos são representados na sua universalidade (...). O conhecimento assim proposto pela obra literária atua depois no real”. (AGUIAR E SILVA, p.107)

Com o Romantismo, a Literatura como conhecimento retoma seu significado e o poeta passa a ser o vidente que alcança e interpreta o desconhecido. Para entender melhor o ideal do poeta como vidente, é interessante ler os franceses Rimbaud e Lautréamont e o inglês Coleridge. Nesses poetas, o poema é a “revelação das profundezas vertiginosas do eu e dos segredos da supra-realidade, como instrumento de perquisição psicológica e cósmica.” (Idem, p.108) A escrita automática, que será resgatada pelos surrealistas no século XX, é a mensagem que traduz o mistério cósmico. (psicografia?)

Para além do conhecimento sobrenatural, a literatura pode ser entendida como o conhecimento deste mundo terreno, um instrumento de análise do homem e de suas relações com o mundo. Sófocles, Shakespeare, Cervantes, Dostoievski, Kafka e Machado de Assis são representantes dessa tendência de apreensão do homem e do mundo pelo literário.

Há quem queira, porém, escapar para o mundo imaginário, tão distante do real, tão mais próximo de seus sonhos. Variadas são as razões que levam o autor a encontrar na literatura o seu instrumento de evasão: conflito com a sociedade; conflitos íntimos; recusa da finitude e imperfeição do mundo real. Fugindo para o mundo imaginado, o autor se esquece da realidade e faz da arte a sua religião.

Certamente, a literatura como fuga para um mundo idealizado é verdadeira fonte de prazer para o autor que se dói da condição humana. Esse efeito de prazer é outra maneira de entender a literatura. Sem se afastar do mundo real, o autor cria uma obra que provoca emoções de toda ordem no leitor, do terror à compaixão. Ao se identificar com o destino dos personagens, o leitor expurga suas próprias emoções, vivenciando o que se chama o efeito catártico. “Desta higiene homeopática da alma resulta um prazer superior e benfazejo”. (Idem, p.113) Experimentamos a catarse quando nos debulhamos em lágrimas ao assistir um filme, quando torcemos para o time predileto no campo, em final de campeonato, no show musical daquela banda que ouvimos no quarto um milhão de vezes. Lavamos a alma: a expressão mais correta para o efeito que esses acontecimentos geram em nós.

Mas se a literatura é uma imitação (mimese) imperfeita, uma fuga para a torre de marfim, ou o conhecimento dos homens e do mundo, seria uma arte inócua e inútil? Chegamos, enfim, ao autor que usa a literatura como meio de transformação do real. A literatura engajada ou compromissada tem seus fundamentos na filosofia existencialista, com Heidegger e Jean-Paul Sartre. Para o primeiro, o homem não é pura passividade, recolhendo dados do mundo, mas um “estar-no-mundo”, presença ativa, fundadora do mundo. Dessa maneira, o autor teria o compromisso de escrever para agir no mundo, postura literária que se encontra bem definida em O que é a literatura? de Sartre.

Seja como representação da realidade, criação de outro mundo, prazer estético, desvendamento, purificação, expressão da interioridade, o processo de escrita criativa é uma maneira de ser. O autor é o seu próprio texto, assim como é o mundo em que vive. O convite lançado no começo do artigo permanece. Sabendo que somos uma parte de uma rede de significações muito maior, e que a nossa criação é uma contribuição para a ordenação do mundo em que vivemos, gostaria de conhecer a sua maneira de escrever. Como você leitor/autor confere ordem ao manancial de idéias captadas no ar?



Bibliografia consultada
AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1976. 1ª ed. Brasileira."

 

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Natural de Ribeirão Preto (SP), em 24 de março de 1976, graduou-se em Letras pelo Centro Universitário Barão de Mauá (1999). É Especialista em “Fundamentos da Leitura crítica da Literatura” (2001) pela UNESP, com monografia sobre a obra Zorba, o grego de Nikos Kazantzakis. Mestre em Estudos Literários (2004) pela UNESP (Araraquara), com dissertação intitulada Multidiscursividade em Ascese Os Salvadores de Deus de Nikos Kazantzakis. Doutora em Letras (Teoria da Literatura), pela UNESP (São José do Rio Preto), defendeu a tese (2010) A Odisséia de Nikos Kazantzakis: epopéia moderna do heroísmo trágico, que está em processo de publicação no Brasil e no Chile.
Publicou artigos em revistas acadêmicas de literatura e participou de diversos congressos no Brasil. Esteve no Chile (Universidad de Chile) em 2007 e em 2010, como conferencista, e, em 2009, como professora convidada para ministrar seminário sobre a obra de Nikos Kazantzakis. Também como conferencista convidada, esteve em Buenos Aires em 2010.
Atua como professora universitária de Literatura em cursos de Letras e coordena oficinas de Escrita Criativa e de formação de escritores. Publicou, em 2003, o livro de contos O Centauro Amarelo, como produção artesanal (feita em casa e pelas mãos da autora). Em 2008, a técnica da edição artesanal é, mais uma vez, utilizada em A Claridéia de Percival, romance infanto-juvenil, com ilustrações de Bianca Bloom (filha da autora). O livro infantil Flauis foi premiado em 2009, no concurso literário “Grandes Empresas na Literatura”, realizado pela Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto e pela Fundação Instituto do Livro. O prêmio outorgado foi a publicação gráfica da obra, em 2010.
No momento, dedica-se ao blog Retalhos e Epopeias e à escrita de seu primeiro romance.
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