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28
Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

"Autor: o artesão do engano.

 

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor,
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)

 

Aparentemente, soa senso-comum iniciar este artigo com o famoso poema de Fernando Pessoa, recitado e repetido em todos os círculos literários, saraus e análises críticas, ao ponto de tornar-se quase hino, epitáfio ou mantra de poetas, como o velho verso “O amor é fogo que arde sem se ver” do mestre Camões. É evidente, porém, que não tenho a intenção, no presente artigo, de apresentar o poema de Pessoa, como se poucos leitores o conhecessem. Que todos o conhecem é ponto pacífico. Interessa-me pensar o uso que se pode fazer do verso “O poeta é um fingidor”.

Uma tendência que se repete entre diversos escritores contemporâneos é a que torna a literatura um meio de expressão da interioridade. Isso significa que os poemas e as narrativas são escritos como relatos ou confissões de experiências pessoais, como maneira de dar vazão aos sentimentos e pensamentos mais íntimos. Essa tendência tem parentesco com o Romantismo, movimento artístico que buscava a expressão autêntica, a escrita espontânea, liberta dos artifícios da razão. Os poetas românticos acreditavam que somente pela livre expressão do Eu, o poema alcançaria a profundidade, a elevação, a espiritualidade e o conhecimento de realidades supra-sensoriais. É o que reconhecemos como poeta inspirado ou gênio poético, aquele que escreve guiado por uma força maior e que o (re)liga ao Absoluto.

Inseparáveis do tom confessional e, sob o pressuposto da inspiração, da tendência ao espontaneísmo, que sobredeterminaram a lírica na fase romântica, tais funções pedagógica, terapêutica, mágica, divinatória, encantatória, que o poeta, misto de cantor e de vate, assume, na medida em que exprime a originalidade de sua vida interior, acompanham o fenômeno de universalização e de autonomização da poesia que o Romantismo desencadeou. (NUNES, 1993, p. 62)


Chamo a atenção para a função terapêutica mencionada no fragmento de Benedito Nunes. Centrar o poema/narrativa na revelação da intimidade é o mesmo que atribuir à Literatura o fim utilitário da terapia psicanalítica. Muitos indivíduos se servem da palavra para libertar-se de neuroses, medos, fracassos; para conquistar a pessoa amada (não é a toa que pelos bares de cidades grandes são vendidos cartões com versos impressos); para escancarar ao mundo a “sua verdade”; para firmar uma identidade perdida. A Literatura seria, assim, um divã de psicanalista?

Toda arte que se mantém no pólo da emoção tende a manifestar a visão subjetiva e, portanto, parcial que o indivíduo tem sobre a vida, o mundo e os homens. Esta é a arte que denega a repressão e ergue a bandeira da liberdade como bem maior. No entanto, esta liberdade que os autores defendem se firma muito mais por uma atitude egoísta do que pelo relacionamento afetivo com os outros. Por esta vertente, quem escreve é sempre um Eu confessional e o tema de suas escritas gira sempre em torno de suas emoções, reações, experiências, vivências, avaliações. Excessiva vaidade?

É preciso entender que o (des)conhecimento de si não se encontra na exploração da própria interioridade, mas leva ao OUTRO desconhecido. É com o olhar do estrangeiro, do viajante que atravessa fronteiras, perscrutando o diferente, o distante, o que já não é o mesmo, que o autor poderá traduzir as dúvidas que motivaram a sua busca. É pelo OUTRO que nos conhecemos verdadeiramente, pois a vida é pautada em relações.

Muitos foram os avanços do movimento literário e os estudos sobre ele depois do Romantismo. Hoje sabemos que não é possível apreender o mundo por uma única corrente filosófica, histórica, artística, religiosa, política... A modernidade trouxe a descoberta de que a sociedade se baseia em contrastes, na proliferação de ideias e de conceitos, que não podem ser confinados na unidade do Eu romântico. Ao contrário, esses novos princípios necessitam viver em profusão.

O homem moderno e o contemporâneo se veem rodeados de possibilidades estéticas e de caminhos para organizar e dar sentido à vida. Os inúmeros e fragmentários caminhos da modernidade impulsionaram novas formas de expressão e de compreensão do mundo.

Mas como compreender e representar este mundo em incessante transformação, repleto de conflitos e antagonismos? É evidente que o Eu romântico, centrado em suas confissões, não poderia abarcar tamanha multiplicidade. Para representar este mundo, é necessário abrir-se para a sua amplitude múltipla, diversa, diferente; ou seja, a arte se encontra na alteridade.

Alcançamos, enfim, o legado de Fernando Pessoa. Assumindo a heteronímia, Pessoa foi um poeta de seu tempo e de nosso tempo, pois sabia que era preciso perder-se, desencontrar-se, despersonalizar-se para conquistar uma imagem do universo e resgatá-lo do caos da relatividade (pois tudo é relativo e não absoluto). Ocultando-se, perdendo sua identidade, Pessoa revelava-se. Não só a emoção, pois, é capaz de revelar o mundo sensível; o pensamento, que induz à dispersão, leva o indivíduo à multiplicação, ao Outro, e o conecta com a realidade variegada. Escrever apenas interessado em si mesmo é como ignorar o movimento externo e isolar-se em uma ilha distante e atemporal. Não só este indivíduo se aparta de seu mundo, mas a sua escrita não será apreciada como obra literária. Será simplesmente um diário adolescente.

No artigo anterior, publicado nesta coluna, afirmei que a escrita é um trabalho árduo e se institui pelo intercâmbio entre o que deve ser ensinado por outrem e o que o autor aprende por si mesmo, em um jogo entre inspiração e transpiração. Se, portanto, o autor deve abrir-se ao aprendizado, seja pela relação com o outro, seja pelas descobertas que faz sozinho, seria essencial que o autor em formação se predispusesse a exercícios de escrita. Dificilmente um escritor nasce pronto, com o talento lapidado; vamos sair do divã, vamos lembrar que a autenticidade da Literatura não deve se fixar na figura do autor, mas no jogo de forças do próprio texto, em seu campo de batalha, em que se embatem as oposições e contrastes naturais da vida e do homem. Afirma Harold Bloom (1994, p.14): “um texto poético não é a reunião de signos numa página, mas um campo de batalha psíquico em que lutam forças autênticas pela vitória que vale a pena alcançar, o triunfo divinatório sobre o esquecimento”.

Nenhum ator que se preze faz do personagem em cena uma cópia de si mesmo. Atuar é tornar-se outro, é estar no lugar do outro, é emprestar o corpo para dar a vida de outra alma. Teatro e cinema são ficções e, como a própria palavra já evoca, não são realidade. O ator é simplesmente um fingidor! E o que é o fingidor? É aquele que inventa, imagina, fantasia, que modela na argila, segundo a etimologia; é um produtor de miragens, profissional do engano (findo o espetáculo, o que parecia real perde sua existência). Isso não significa, porém, que o ator é um mentiroso, que trai sua própria essência, pois a mentira pressupõe a verdade e a ilusão se sustenta pela realidade. Não seria este o ofício do autor/poeta? “Servindo-se da ilusão, do engano, da mentira, do exagero, o poeta reconstrói a realidade à sua maneira e, ao reconstruí-la, torna-a inteligível”. (KUJAWSKI, 1979, p.67)

O que se propõe neste artigo é que o autor em formação desafie a si mesmo a realizar exercícios de despersonalização, como um laboratório de oficinas de teatro. Vamos sair desta interioridade a qual estamos acostumados há tanto tempo, vamos nos esvaziar do vocabulário que apenas caracteriza o personagem que somos, vamos abandonar a estrutura de texto confessional, vamos dar férias ao nosso eu e abrir-nos para a descoberta das múltiplas possibilidades de vida. É o momento de observar, de analisar, de entender como a vida se opera no vizinho, no amigo, no desconhecido. O outro observado, sem saber, nos dirá como escrever. E assim, no final do espetáculo e da leitura, quem viverá a catarse será o leitor, que terá suas emoções libertadas, expurgadas e aliviadas. Sem fingimento do autor, a leitura não tem sentido.

Bibliografia consultada
BLOOM, Harold. Poesia e Repressão. O revisionismo de Blake a Stevens. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
KUJAWSKI, Gilberto de M. Fernando Pessoa, o Outro. Petrópolis: Editora Vozes, 1979.
NUNES, Benedito. “A Visão Romântica”. In: GUINSBURG, J. (org.). O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 1993."

 

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Natural de Ribeirão Preto (SP), em 24 de março de 1976, graduou-se em Letras pelo Centro Universitário Barão de Mauá (1999). É Especialista em “Fundamentos da Leitura crítica da Literatura” (2001) pela UNESP, com monografia sobre a obra Zorba, o grego de Nikos Kazantzakis. Mestre em Estudos Literários (2004) pela UNESP (Araraquara), com dissertação intitulada Multidiscursividade em Ascese Os Salvadores de Deus de Nikos Kazantzakis. Doutora em Letras (Teoria da Literatura), pela UNESP (São José do Rio Preto), defendeu a tese (2010) A Odisséia de Nikos Kazantzakis: epopéia moderna do heroísmo trágico, que está em processo de publicação no Brasil e no Chile.
Publicou artigos em revistas acadêmicas de literatura e participou de diversos congressos no Brasil. Esteve no Chile (Universidad de Chile) em 2007 e em 2010, como conferencista, e, em 2009, como professora convidada para ministrar seminário sobre a obra de Nikos Kazantzakis. Também como conferencista convidada, esteve em Buenos Aires em 2010.
Atua como professora universitária de Literatura em cursos de Letras e coordena oficinas de Escrita Criativa e de formação de escritores. Publicou, em 2003, o livro de contos O Centauro Amarelo, como produção artesanal (feita em casa e pelas mãos da autora). Em 2008, a técnica da edição artesanal é, mais uma vez, utilizada em A Claridéia de Percival, romance infanto-juvenil, com ilustrações de Bianca Bloom (filha da autora). O livro infantil Flauis foi premiado em 2009, no concurso literário “Grandes Empresas na Literatura”, realizado pela Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto e pela Fundação Instituto do Livro. O prêmio outorgado foi a publicação gráfica da obra, em 2010.
No momento, dedica-se ao blog Retalhos e Epopeias e à escrita de seu primeiro romance.
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