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27
Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Leitores da Biblioteca, hoje o assunto é muito sério. Ou melhor, hoje, amanhã e depois. Carolina Bernardes é colunista da Revista Benfazeja e doutorada em letras. Os textos que serão publicados estes três dias são, portanto, da sua autoria e retirados, após autorização da escritora, do site da revista. Eu, que vivo e respiro literatura, leio-os com fome de tão bons que são. Aproveitem!

 

 

 

 

"Escrita Criativa: inspiração e transpiração

 

Escrever é, assim, dialogar permanentemente com o discurso formador do indivíduo/coletivo...

 

Gostaria de inaugurar a seção de Escrita Criativa afirmando que talento não é o bastante para se escrever um grande livro e conquistar o apreço da crítica. Mais do que se fiar no dom ou vocação, é essencial aceitar que não se aprende tudo sozinho e por magia. Não quero com isso desmerecer a qualidade literária daqueles textos que parecem brotar de um lampejo único e inadiável, nem tampouco o conhecimento do autor. Também não é meu propósito defender a necessidade de formação em Letras, pós-graduação e pós-doutorado (todos os pós que existirem) nos diversos Estudos Literários para se produzir um texto respeitável. Muitos dos grandes autores não precisaram de escola alguma. O que afirmo é o seguinte: talento é imprescindível, mas sem trabalho árduo não se produz nada.

Assim como tocar qualquer instrumento musical, desenhar, dançar ou até mesmo dirigir um filme, escrever necessita de certo aprendizado e de ajuda. Aprendemos a escrever com a prática, com a repetição de tentativas e erros, com o sucesso e o deslize; em uma palavra: com a persistência. Mas esta prática que, no imaginário popular, isola o autor em seu escritório com vista para uma paisagem idílica, não é tão solitária. Obviamente exige seu momento de concentração e introspecção (como qualquer labor criativo), mas é intrinsecamente uma ação coletiva. De que maneira?

Nenhuma escrita nasce do vazio. As idéias surgem da relação que todos mantemos com o mundo exterior, das trocas incessantes entre o eu e o outro. Ainda que a intenção do autor seja escrever sobre uma experiência íntima, sobre um aspecto de seus sentimentos e sensações, certamente essa experiência terá sido constituída em relação ao mundo de fora. Ninguém sente sozinho, ninguém forma uma opinião sobre sua própria subjetividade sem o outro como parâmetro. As idéias surgem também do que fica em nós das coisas que apanhamos no dia-a-dia: uma frase dita por alguém, um rosto visto na rua, um filme, a leitura de livro. Todos esses exemplos têm em comum a existência de um outro. Portanto, a escrita literária se caracteriza pela interrelação contínua.

É ingenuidade não levar em consideração que vivemos em um mundo formado pela linguagem e pela cultura; nascemos em um mundo pronto e organizado – padrões, língua, significação das palavras, cultura, hábitos sociais, discursos sedimentados que formam a nossa visão de mundo. Esses elementos formadores do sujeito nada têm de individuais, porque são a formação do coletivo. Muitas vezes, o texto se escreve sozinho. Você já deve ter vivido a experiência de escrever um texto (ou partes dele) e ser surpreendido pela sensação de que não foi escrito por você, ou de não reconhecer sua identidade literária (estilo) naquela reunião de frases. Fica a pergunta: “Será que escrevi mesmo este texto?” Nesses momentos, em que o texto se torna irreconhecível, a escrita, a linguagem e a formação cultural ultrapassam as intenções do autor. As forças do inconsciente, do coletivo, atuam no processo de escrita; pois o sujeito não é apenas o que escolhe ser (e, portanto, escrever), mas principalmente o que o mundo fez dele. A escritura se organiza pela composição das escolhas do autor – os procedimentos intencionais – e das linhas de força inconscientes que ele carrega como bagagem.

Escrever é, assim, dialogar permanentemente com o discurso formador do indivíduo/coletivo, em movimento dialético: da leitura para a escrita e da escrita para a leitura. Se a leitura de autores preferidos pode constituir e formar o horizonte de expectativas e a bagagem do indivíduo, levando-o a compor seu próprio estilo como autor, o texto produzido por esse mesmo autor estabelece um diálogo com as leituras precedentes e inaugura nova comunicação com o leitor futuro (que também faz parte do discurso coletivo). Portanto, nenhum escritor é autosuficiente, independente e original; ele simplesmente está inserido na cadeia interdependente de todos os seres, que perpetua o jogo de retomadas, repetições, revisões e reavaliações de significados.

Retomo agora a questão da escrita como trabalho árduo. Se o autor não aprende sozinho e por magia, e se a escrita se realiza pelo intercâmbio entre o conhecimento do indivíduo e a formação coletiva, não se produz um texto por inspiração, como se o autor fosse um ser especial, iluminado, eleito de Deus ou aquele que tem o dom de lançar a ponte entre o mundo natural e o sobrenatural. Sim, há a porção inconsciente que atua no processo, há as idéias que surgem como lampejo sem serem perseguidas, há o momento epifânico, a iluminação perfeita. É evidente que sim, mas e depois? Como escrever? Como se desencadeia o espírito criativo? Como usar os lampejos? Como tornar o mundo abstrato, situado na mente, em algo palpável, concreto e reconhecível pela linguagem? Não é o drama de todo autor? Seria, portanto, demérito necessitar de alguém que o auxilie nesse trânsito entre o amorfo e o texto organizado e coeso? Entre a idéia e o livro nas mãos do leitor?

A inspiração se configura pelo entusiasmo criador, pelo surgimento espontâneo da criatividade e da vontade de expressar. Mas, para tornar-se ato, para revelar o que é ainda (e apenas) o ímpeto em potencial, é necessário o veículo da manifestação, ou seja, transpirar. Trans- significa “através de”; é, portanto, o veículo da expressão, da revelação; é o deixar surgir, propagar, divulgar, manifestar. É preciso suar para fazer nascer a idéia especial, lavrada na mente. O movimento é análogo ao da respiração: inalar e exalar. O autor enche-se de hálito, de sopro, de ar criativo, fecundando uma nova idéia, e em seguida, lança o engendro de si, devolve-o à atmosfera da criação.

O trabalho é, evidentemente, árduo e duas ações o tornam possível: persistência e aceitação de que a escrita é também intercâmbio entre o que o deve ser ensinado e o que autor aprende por si mesmo. Inspiração e transpiração.
 

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Natural de Ribeirão Preto (SP), em 24 de março de 1976, graduou-se em Letras pelo Centro Universitário Barão de Mauá (1999). É Especialista em “Fundamentos da Leitura crítica da Literatura” (2001) pela UNESP, com monografia sobre a obra Zorba, o grego de Nikos Kazantzakis. Mestre em Estudos Literários (2004) pela UNESP (Araraquara), com dissertação intitulada Multidiscursividade em Ascese Os Salvadores de Deus de Nikos Kazantzakis. Doutora em Letras (Teoria da Literatura), pela UNESP (São José do Rio Preto), defendeu a tese (2010) A Odisséia de Nikos Kazantzakis: epopéia moderna do heroísmo trágico, que está em processo de publicação no Brasil e no Chile.
Publicou artigos em revistas acadêmicas de literatura e participou de diversos congressos no Brasil. Esteve no Chile (Universidad de Chile) em 2007 e em 2010, como conferencista, e, em 2009, como professora convidada para ministrar seminário sobre a obra de Nikos Kazantzakis. Também como conferencista convidada, esteve em Buenos Aires em 2010.
Atua como professora universitária de Literatura em cursos de Letras e coordena oficinas de Escrita Criativa e de formação de escritores. Publicou, em 2003, o livro de contos O Centauro Amarelo, como produção artesanal (feita em casa e pelas mãos da autora). Em 2008, a técnica da edição artesanal é, mais uma vez, utilizada em A Claridéia de Percival, romance infanto-juvenil, com ilustrações de Bianca Bloom (filha da autora). O livro infantil Flauis foi premiado em 2009, no concurso literário “Grandes Empresas na Literatura”, realizado pela Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto e pela Fundação Instituto do Livro. O prêmio outorgado foi a publicação gráfica da obra, em 2010.
No momento, dedica-se ao blog Retalhos e Epopeias e à escrita de seu primeiro romance.
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