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03
Out 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

E se a mordo? Arrisco-me a perder a quentura da sua pele que me embebeda diabolicamente. Se a mordo: não mais terei um corpo que estremeça de cada vez que o toco por trás. Se a mordo: a boca deixará de saber a vida, os olhos perderão o brilho mordaz de quem sente na alma a dor e o amor, a volúpia e o medo. Como eu a quero. Assim, do jeito que ela está - nua, branca: humana em toda a sua essência; frágil. Mas eu sei, eu tenho a certeza, que no momento em que a farei render-se a mim, o seu pescoço chamar-me-á e eu, faminto por aquela delicadeza clemente, ferrarei os dentes. E é aí que ela deixará de fazer qualquer sentido para mim. Vieste, diz-me ao ver-me entrar pela janela do quarto. Vim, respondo, Quero-te agora. Ela sorri daquela maneira que só as mulheres de carne e osso e sangue conseguem fazer e eu avanço até ela. A sua língua quente choca com o mármore frio que eu sou. Ela entrega-se e oferece-se. Eu cedo, marcando os limites, impondo um auto-controle praticamente impossível. Mas quanto mais tento, mais ela se implora a mim, como se me pedisse um resquício de vida eterna. As veias azuis, deliciosas, palpitam por detrás da pele que ferve. O meu amor transforma-se em monstro e o quente deixa de parecer tão sagrado. Desumanizo por completo o ser que se contorce de paixão diante de mim e sigo a minha natureza. Furo uma carne macia e encontro o sangue da minha insanidade; metálico, vulcânico, voluptuoso. Engulo, às golfadas, todo o interior daquela fêmea que, estúpida, quis ser minha. Deito-a no chão, sem me preocupar com o sofrimento que foge do seu corpo. Quero sangue, apenas sangue. E quanto mais bebo, mais preciso. Ela grita: sem dor, sem alma, ou rancor. Grita porque venceu o destino e conseguiu de mim o que sempre quis. Amo-te, diz-me ela, fraca, pálida, sem brilho, terrivelmente vampira. Mas, como eu suspeitara, a sua pele de gelo e os olhos metálicos do inferno deixam de ter em mim o fascínio de um louco pela sua demência. E eu sigo o curso natural da morte. Afundo a boca no seu pescoço e desfaço a sua existência de uma vez por todas. Amei-te, digo-lhe. E saio por onde entrei, sem olhar para trás.

 

Publicado, originalmente, na Infektion Magazine.

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"sem dor, sem alma, ou rancor. Grita porque venceu o destino e conseguiu de mim o que sempre quis. Amo-te, diz-me ela, fraca, pálida, sem brilho, terrivelmente vampira"
a poesia dessas palavras na esturtura do conto me deu certa alegria essa manhã
ediney santana a 4 de Outubro de 2011 às 15:14

Ainda bem que gostou :) Volte sempre.

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