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Out 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

 

 

"Sempre detestei ratos. Não só pelo seu aspecto repugnante, mas sobretudo pelo seu modo de agir. Lembro-me, quando era criança, de três ratos que nas noites de verão escalavam a macieira do quintal da vizinha à procura do melhor fruto. Era quase matemático. Mal o silêncio noturno se abatia sobre o jardim, os impunes roedores surgiam e, sem hesitações, galgavam impiedosamente o indefeso arbusto para saciar o seu apetite voraz, bem como o seu natural instinto de destruição. Espreitava-os da janela do meu quarto num misto de impotência e de horror. Contava-os um a um. Sabia-os lá e, apesar de toda a minha aversão, não resistia a assistir àquele repetido saque na calada da noite. Era a minha forma de me solidarizar com a triste árvore que, sem hipótese de escolha, nascera para pasto da rataria. Eles, os ratos, eram simplesmente asquerosos. As caudas compridas, o pelo baço, o focinho sôfrego, o passo curto e acelerado transformavam-nos em verdadeiros demónios que eu, desde a inocência dos meus 10 anos, aprendi a abominar. Odiava-os e ponto final. Eram grotescos, imundos e, sobretudo, parasitas cobardes que, sem tréguas, enchiam a pança até à exaustão. O hospedeiro que se lixasse como, aliás, aconteceu. A vizinha, cuja passividade face às pilhagens me fazia crer num pacto silencioso com as ratazanas, decidiu à última da hora ceifar a macieira por entender que "só servia para criar ratos". Assisti ao corte da árvore da mesma maneira que assistira outras vezes às suas belíssimas florações de março e às insaciáveis depredações de setembro. Assisti a tudo, dizia eu, da janela do meu quarto, donde, insisto, aprendi a odiar os ratos e, por arrastamento, tudo o que evoque comportamento de rato. É talvez por isso que tenho andado azeda desde que vieram a público as primeiras notícias sobre o famigerado buraco nas contas públicas da Região. O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Para mim, tudo. Sinto-me, de novo, na janela do meu quarto a testemunhar nova invasão de ratos ou, melhor, nova deserção de ratos - esqueci-me de referir que, aviada a macieira, os três ratos partiram para outra pois nunca mais os vi no quintal da vizinha - desta feita, prossigo, uma deserção em massa e sob os mais diversos pretextos. E o pior, diga-se em defesa da verdade, é que nem sequer consigo perceber quem é a macieira no meio desta confusão. A Madeira? Não me parece, pois há mais de 30 anos que, de forma inequívoca e democrata, sustenta o Poder instituído. O Governo Central? Nem pensar, porque, independentemente da sua orientação política, nunca ousou enfrentar, com seriedade e rigor, a governação insular, evitando, dentro de uma lógica de estratégia política, confrontos de maior. A Europa? Também não acho, já que, perante a crise internacional e a hipotética dissolução do sonho europeu, a Madeira nem existe. É, de facto, difícil encontrar a macieira neste pomar de silêncios constrangedores e de falsos inocentes, onde, mais uma vez, se confirma essa particularidade do ser português que é a incapacidade para assumir, com dignidade, os erros. É por isso que há mais de uma semana que só se veem ratos por aí. Alguns a arranjar visto de residência no Brasil, outros a gozar férias prolongadas com regresso incerto, outros a decidir mudar de vida na ternura dos 60, outros ainda - os mais modestos - a fingirem grande assombro e indignação face à escalada de acontecimentos dos últimos dias. Todos, sem exceção, membros de uma casta que soube tirar rendimentos da bem-aventurança que por aqui passou e que, agora, em tempo de prestar contas, prepara saídas, caso a coisa descambe ainda mais.

No meio deste descalabro vergonhoso, não consigo deixar de sentir alguma pena daqueles que ficam e têm de dar a cara, tornando-se, como é óbvio, num alvo fácil. Esses rodearam-se de ratos, esquecendo que, em hora de naufrágio, as ratazanas são as primeiras a abandonar o barco. Isto, claro está, se houver naufrágio."

 

In Diário de Notícias da Madeira.

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