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Out 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

 

 

Muita gente, quando conhece o meu primeiro livro, pergunta-me o porquê do tema. Uns julgam que sofri abusos sexuais em criança, outros olham para mim como se eu fosse um ser muito estranho por escrever sobre isso.

A pedofilia foi um assunto que, não obstante causar um certo desconforto, sempre me despertou o interesse. Talvez por isso, aos 17 anos, tenha decidido entrar em Direito. Eu, revolucionária, otimista e, vá, ingénua, julguei que poderia salvar todas as crianças ao longo da minha futura carreira profissional. Não se preocupem, essa ideia foi enterrada por um rol de motivos. Em Direito aprendi que pouco se fala sobre o abuso sexual de menores a não ser, claro, que se faça uma especialização, um mestrado ou um doutoramento sobre o tema. Em Direito aprendi que somos máquinas do sistema e, como máquinas que somos, trabalhamos com vista a um fim, sem sentimentos, sem remorsos, sem sonhos de paz e amor no mundo. Em Direito aprendi que não vivo nas séries americanas e que não vou salvar um menino e ele irá correr para mim de lágrimas nos olhos e dar-me um abraço. Sim, eu queria isso. Chamem-me o que quiserem mas eu queria. Vi, portanto, que se quisesse falar sobre o assunto, teria que me virar para outro sítio. Foi aí, nesse dia que eu chamo de glorioso, que encontrei na Literatura a resolução para esse meu problema existencial. Na minha escrita eu poderia fazer o que quisesse. E fiz. Primeiro pensei em criar uma história cheia de detalhes jurídicos, de leis, de julgamentos, de sentenças. Caí em mim e refleti. Para quê, Valentina? Para quê tentar fazer uma coisa para a qual não tens traquejo profissional, ainda? Para quê encher as pessoas de coisas que não lhes interessa, que lhes causa bocejos? Para quê falar sobre justiça se essa palavra afugenta qualquer um? Fiquei-me, então, pela ficção. Abordei a pedofilia - e não só - da forma mais crua que consegui. É pesado? É. É cruel? Podem ter a certeza que sim. Causará desconforto? Absolutamente. Poderei ter menos leitores e muitas críticas em relação ao tema? Creio que sim. Mas e daí? Sinto-me extremamente contente por abordar um assunto que assusta, que é encoberto, sobre o qual falam baixinho ou nada falam. Fi-lo à minha maneira, é certo. Mas penso que ali, no meu livro, está um grito de revolta, um apelo à mudança e um valente soco a todos aqueles cometem esse crime, seja de forma direta ou escondendo aquilo que sabem sobre o vizinho do lado.

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