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01
Nov 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Carolina dispensa apresentações. Já aqui falamos sobre as suas dicas literárias. Por isso, eu faço um/a pedido/pergunta à autora. Para quando aulas on-line de escrita criativa? :)

 

 

P.B: Escrever dói?

C.B: Sentir dor é natural da vida humana: dor física, dor espiritual. Normalmente, a dor é o aviso do corpo/alma de que algo não vai bem. Mas escrever é um ato voluntário, um apelo da alma. Por que, então, provoca tanta dor? Sim, escrever é um dos processos mais dolorosos, por vários motivos: ora é a palavra que se esconde e somente a encontramos muitos dias depois; ora é o acúmulo de força criativa, vinda sabe-se lá de onde, fazendo da mente uma caixa de Pandora; o contentamento descontente de ver o texto fluir como o mais belo e o mais temerário; o fim da escrita, quando o caos foi organizado e já não somos mais nada. Da obra pronta fica eternamente o medo dolorido de que jamais ouçam a nossa voz.

 

P.B:  Enquanto coordenadora de oficinas literárias acha que qualquer pessoa pode escrever bem? Ou a receita para um escritor que agrade o público precisa de mais ingredientes para além de uma boa construção narrativa?

C.B: Existe uma vertente da crítica literária que concebe o escritor como um gênio inspirado, aquele que nasce com um dom divino e que escreve pelo impulso criativo. No entanto, há outra visão sobre a autoria: escrever é um trabalho árduo, que exige estudo, persistência e vontade. Acredito que seja possível a existência dos dois tipos de autoria. Não dá para desconsiderar algumas genialidades, que parecem trazer na alma uma bagagem de outrora. Porém, os bons escritores sabem o quanto sofrem com o trabalho da linguagem, da reescrita, o quanto persistem para alcançar um poema/narrativa maduro (a). Escrever bem não é para qualquer um; é para quem se coloca o desafio da persistência, da humildade, e sabe que somente abrindo os olhos para a percepção do mundo, poderá captar essa inspiração digna dos génios.

 

P.B: Publicou dois livros ("O centauro amarelo" e "A claridéia de Percival") de forma artesanal. Pode explicar como foi esse processo?

C.B: Publicar sempre foi difícil para autores estreantes. Quando comecei a escrever, tentei muitas editoras e recebi inúmeras recusas. Entendi, então, que não conseguiria publicar pelas vias normais. Nessa época (2002), trabalhava com cadernos artesanais, para ganhar algum dinheiro; perceber que a técnica poderia ser usada para a edição de livros foi uma conseqüência natural. Pelo período de um mês escrevi os contos de O Centauro Amarelo e produzi com minhas próprias mãos todas as etapas do processo de edição. Foram 180 livros, vendidos em noites de autógrafos, para os amigos e novos leitores. Já em 2008, escrevi A Clarideia de Percival. Cheguei a tentar algumas editoras, novamente sem sucesso. O recurso da publicação artesanal e caseira foi, mais uma vez, a saída. Neste projeto, porém, o processo foi mais complicado, pois o livro é todo ilustrado, o que encarecia bastante a impressão. Produzi 68 livros, hoje esgotados, e não pretendo fazer novos exemplares. Publicar em casa tem seu lado positivo, que é a liberdade de ação, de escolhas e a não-dependência da aprovação de um editor. E, obviamente, tem seu lado menos belo: o trabalho árduo de cuidar de cada exemplar, a condição marginal de não estar em livrarias e de depender de seu próprio esforço para chegar ao leitor. Meu terceiro livro – Flauis – também nasceu artesanal, mas seu caminho foi mais feliz. Vencedor de um prêmio literário, Flauis ganhou publicação gráfica.

 

P.B: Quais os próximos projetos?

C.B: Acabo de escrever um novo livro e aguardo a análise dos originais que foram enviados para uma editora (grande expectativa!). Continuo a publicar a coluna de Escrita Criativa e pretendo reunir os artigos em livro. Outro projeto em maturação é a possibilidade de oferecer o curso de formação de escritores online, o que alcançaria muitos escritores espalhados pelo mundo. E como a mente criativa jamais cessa, começo a rascunhar o projeto de um romance.

 

 

 

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CAROLINA Dônega BERNARDES é natural de Ribeirão Preto. Graduou-se em LETRAS no Centro Universitário Barão de Mauá. É especialista em “Leitura Crítica da Literatura” (UNESP). MESTRE em Estudos Literários (UNESP – Araraquara) e DOUTORA em Teoria da Literatura (UNESP – São José do Rio Preto). Lançou em 2002 o livro de contos para adultos O CENTAURO AMARELO. Em 2003, deu-se início a relação de Carolina Bernardes com a Literatura Infantil. Inspirada em suas filhas, Bianca e Rebeca, a autora redigiu a obra FLAUIS de maneira original. Em 2008, a autora deu continuidade ao trabalho com crianças (a partir de 11 anos) e escreveu A CLARIDEIA DE PERCIVAL. Em 2009, foi lançado o projeto “Grandes Empresas na Literatura”,promovido pelo Instituto do Livro e Secretaria Municipal da Cultura, com patrocínio de empresas da cidade. A segunda fase do projeto foi destinada a premiar um livro na categoria Literatura Infantil. A autora inscreveu-se no concurso e o livro FLAUIS finalmente recebeu a oportunidade de vir a público. Carolina tem se dedicado ao blog RETALHOS E EPOPEIAS, no qual publica suas criações atuais e oferece dicas e orientações a escritores em formação. O trabalho como professora de Escrita Criativa no SESC (em 2009) e em espaços culturais rendeu à Carolina uma coluna quinzenal no site literário BENFAZEJA, o convite para ministrar o curso em feiras literárias e a abertura do curso de formação de escritores em sua cidade (acontecendo). Carolina também participa de feiras literárias como autora.

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