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Nov 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Batia as natas e elas obedeciam pelo facto de não estar menstruada nesse dia. O branco formava uma espiral na fúria dos socos e, depois, deslizava pelas paredes da taça, formando um lago leitoso de onde nasciam pequenas bolhas de ar rescendidas.

- Saudades. Porquê saudades?

Olhou para a televisão pequena da cozinha, para a imagem mergulhada num arroz claro, tremido e, de vez em quando, por uns solavancos sonoros que cortavam as frases interessantes. Falavam sobre qualquer coisa relacionada com a guerra: uma vitória, parecia. Um ânimo acomodou-se no peito, inchando-o de mais saudades ainda.

- Mas porquê saudades se nem te tive?

Às natas juntou o queijo em pedaços, um molho de ervas aromáticas, quatro pedras de sal, dois lisos alhos finamente laminados e umas poeiras de pimenta. Bateu novamente. Expulsou o ar do peito, jogando aquela saudade desoladora nas paredes da casa, obrigando a que as figuras dos quadros chorassem, a que as fotos de familiares falecidos suspirassem, a que as flores nos vasos murchassem. Após frenética expurgação de sentimentos na nata e com o medo sincero de que azedassem, meteu o dedo no branco e provou. Não estava mau. Mas aquela saudade ficara ali, mergulhada, embrulhada em proteínas, gordura e vitaminas. Por fim, três toques húmidos fizeram estremecer a porta e o seu próprio corpo. Limpou as mãos ao avental e abriu-a.

- Maria do Céu, bons olhos a vejam, que eu julguei nunca mais pôr-lhe a vista em cima e, tantas noites, sonhei que morria a meio de balas e aviões e bombas e invasões, e nunca mais veria essa dengosa figura de carnes macias, e sedosos cabelos e cozinheiras mãos.

O rosto da rapariga ruborizou-se e a respiração saiu como o canto de um passarinho recém-nascido a quem as alturas pesam nas asas frágeis e medricas.

- Maria do Céu, voltei mas regresso. E isso é um fado que carrego: saiba que morrerei. Porque na guerra ninguém escapa. E mesmo que sobreviva, voltarei com menos uma perna, ou um braço, ou apenas tronco, ou sem juízo. E, Maria do Céu, se sou homem agora é agora que a quero ter.

Para dentro de casa, quase que atropelando a asmática mulher, entrou o rapaz com os olhos famintos e o coração na boca. Com a porta fechada e as cortinas cerradas, o corpo de Maria do Céu encostou-se ao seu e ele, calculando áreas e perímetros e altitudes, colocou a sua boca na dela, untando a sua língua com o mel sensual que era a sua saliva.

- Maria do Céu, que bem sabes, mulher.

Ela perdeu as forças e entregou-se, fêmea e assustada, àquele homem que ardia. No chão da cozinha repousaram as roupas dele e dela. Na mesa, por entre taças, talheres e ingredientes, o corpo de Maria esticou-se. O esfomeado mordeu as duas ameixas que se erguiam, vermelhas e brilhantes, abaixo do pescoço delicado e branco. Depois, com lábios pesquisadores, ele desceu, deu a volta, fez marcha atrás, subiu, desceu, sugou, lambeu e, por fim, estacionou a boca no abismo macio do triângulo que as suas pernas formavam.

- Ai, Maria do Céu, que me desonras o discernimento.

E lá mergulhou, guloso, no pêssego de pele peludinha, fazendo com que Maria chegasse ao céu - finalmente, Maria do Céu! - e soltasse um grito, um suspiro de glória, de melodia, de traqueia inflamada, de voz comida, de corpo febril.

- Maria do Céu, que eu morra agora aqui, na explosão da tua felicidade.

 

 

Publicado, originalmente, na Revista Benfazeja.

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