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05
Dez 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Estamos em contagem decrescente para o lançamento do meu Distúrbio. Portanto, esta semana será toda dedicada a ele. Prestem atenção a tudo o que aqui for dito porque sexta-feira temos sorteio :D

 

Então, para começar, deixo-vos a degustação dos primeiros três capítulos que a Editora Estronho deixou disponível no site.

 

 

 

Tenho 12 anos e sou a filha mais velha de uma família de quatro irmãos. Sou exageradamente bonita. Nasci num seio muito rico e moro numa deslumbrante casa de três andares, pintada de branco casca de ovo. A minha mãe tem bom gosto; foi ela quem delineou todas as características da nossa casa, desde o bibelô ao grande jardim. O jardim! É o meu local favorito.

Chamo-me Rossana e sou uma criança infeliz.

 

 

O disfarce

 

– Rossana, estás pronta?

– Já vou, mamã.

– Despacha-te! As tuas irmãs estão à tua espera.

Rossana desceu as escadas tentando não tropeçar pelo caminho.

– Deixa-me ver como estás.

A menina apareceu no hall de entrada vestindo uma minissaia e um top exageradamente decotado. Os saltos altos demasiado senhoriais davam-lhe um ar desajeitado e o rosto maquiado tornava-a mais velha.

– Oh, bravo, bravo! – disse a mãe em gritinhos histéricos. – Estás muito bonita!

Rossana agradeceu o elogio da mãe com um sorriso tímido e seus olhos deixaram passar um brilho triste, um pedido de socorro, como se outra pessoa estivesse presa dentro daquele corpo. Ao olhar para as irmãs que brincavam no jardim, sua mágoa cresceu. A mãe pouco se importava se elas sujavam a roupa e Rossana desejou mais uma vez não ter nascido tão bonita. Queria ser normal e brincar lá fora.

– Vá, vá, rápido! Ainda chegam atrasadas à escola.

A voz aguda da mãe afastou seus pensamentos e, pegando nas chaves de casa, fechou a porta e foi para a escola.

A escola de S. Tiago era um edifício imponente e os professores eram, na sua maioria, pessoas acessíveis. Rossana gostava de lá estar; era o único local onde era ela mesma. Não a mulher fatal em que a mãe a transformava, mas a outra – aquela que estava presa dentro do corpo, a que sentia uma ânsia de ser criança. Mal chegava, trancava-se na velha casa de banho e abria sua sacola, tirando um par de jeans, uma camisola e umas sapatilhas. A velocidade feroz com que se despia contrastava com a calma feliz em que vestia a roupa de criança. Guardava a roupa ridícula e saía do cubículo. Agora sim podia olhar-se ao espelho. E sorria, sorria tanto que quem visse era capaz de jurar que a miúda era doida. Abria a torneira e esfregava freneticamente a cara até o último vestígio de pintura desaparecer com a água. Finalmente, a sua máscara insuportável desaparecia.

Ninguém entendia o porquê da rapariga chegar à escola envergando uma toilette pouco própria para sua idade e muito menos se atreviam a perguntar a razão pela qual resolvia mudar de vestuário. Nas aulas, Rossana era uma menina vivaz, sempre pronta a participar nos temas e era muito acarinhada pelos colegas e professores. Suas excelentes notas e seu comportamento exemplar eram razão suficiente para que achassem que não havia necessidade de questionar sobre aquela estranha atitude. Provavelmente tinha um namorado mais velho que visitava antes de ir para a escola e vestia-se assim com o intuito de surpreendê-lo.

 

O Colégio de S. Tiago

 

Rossana frequentava aquele local de ensino há dois anos e ali ficaria outros seis para completar seu ensino secundário. Era a melhor escola da cidade e o fato de ser um colégio privado abrilhantava essa condição. As mensalidades altas de cada aluno serviam perfeitamente para cobrir os luxos que o diretor achasse necessários para o estabelecimento. O diretor Norberto Velosa era esbanjador, mas só o era em virtude dos seus alunos. Queria que cada um deles tivesse o melhor que lhes pudesse proporcionar. Era um bom sujeito, apesar de ter um aspecto de cientista louco e as crianças adoravam-no. Uma coisa era certa, quem frequentasse aquela escola, saía dali com uma hipótese redobrada de entrar nas melhores faculdades do país. Um aluno de S. Tiago era visto como um Menino Jesus nascido em berço de ouro. E era isso mesmo que aquela escola representava – um ninho de crianças ricas, inteligentes e com grandes oportunidades de um futuro surpreendente.

O colégio tinha, sensivelmente, 50 anos, mas continuava em ótimo estado de conservação. Passara por um frágil momento na década de 70, devido à má organização de um político que resolvera comprar a escola. Durante alguns anos, o tipo viu-se no direito de transferir as propinas para uma conta pessoal na Suíça, fugindo quando viu os seus cofres recheados. A bonita escola, nesse período de tempo, viu-se completamente abandonada. Os professores queixavam-se de salários em atraso e os alunos da falta de compromisso destes em dar a matéria necessária para a realização dos exames nacionais. Como seria de esperar, o sujeito nunca fora apanhado. Provavelmente, a Polícia Municipal recebera uns trocados por trás para abster-se do assunto e, incrivelmente, o caso nunca fora levado ao Ministério Público, apesar dos enormes pedidos dos pais que viram seus dinheiros desviados e seus filhos muito mal preparados. Entretanto, o Dr. Norberto Velosa, licenciado em Gestão, tomou o comando da instituição, conseguindo torná-la numa respeitável escola.

Perpétua vivera esse conturbado período, contava. Lembrava várias vezes aos filhos que assistira às maiores greves estudantis, tendo participado em grande parte delas. Em três anos, raramente teve aulas. Foi a chamada Época das Férias Eternas. No início, todos os alunos acharam piada, mas depois se viram confrontados com a falta de preparação escolar e assustaram-se. Perpétua gabava-se de ter estudado sozinha, sem qualquer ajuda de professores, para os testes e, portanto, considerava-se superior a todos. Fazia questão de jogar à cara de Rossana que ela era uma felizarda em ter tão boas condições e que, no lugar dela, chegaria à casa com melhores notas. Mal sabia ela que a filha era a melhor aluna do colégio. Rossana, pelo contrário, achava que a falta de ética e bom senso da mãe devia-se mesmo a isso. A falta de aulas tirou-lhe a educação, transformando-a num bichinho. Um bichinho bonito e apresentável, é certo, mas verdadeiramente arrogante. É claro que Rossana guardava estes pensamentos para si.

 

 

A história de Perpétua e Carlos

 

O nome de Perpétua adequava-se perfeitamente àquela mulher de traços vulgares. Seus olhos eram mortiços com um esgar de maldade e o nariz um tanto ou quanto grande para seu rosto. O cabelo não tinha uma cor específica tantas foram as vezes que pintara e, apesar de não ser bonita, era elegante e, no conjunto, uma mulher atrativa. Em jovem quis ser modelo e lutou pelo seu sonho com todas as forças, nunca obtendo sucesso. Seus pais, ambos professores de música, eram sujeitos amáveis que fizeram de tudo para educar a filha malcriada. Mas não havia jeito, Perpétua nascera com um feijãozinho de maldade dentro de si. Era assim que Joaquim, seu pai, tentava desculpar-se perante os pais das meninas a quem Perpétua roubava as bonecas e, maldosamente, cortava os cabelos. Celeste, a mãe, chorava de quando em quando pelo seu comportamento. Como qualquer moça, sonhara com uma filha obediente e carinhosa, mas, ao invés, tivera aquela peste. O casal tentou, com muito esforço, tirar aquela ideia de ser modelo da cabeça da filha, mas parecia que quanto mais o faziam mais vontade ela tinha de o ser. Talvez não fosse um sonho, aquilo se tornara uma obsessão. Era o jogo do “quanto mais dizes para não fazer, eu faço”, e via-se nos olhos da rapariga que havia um verdadeiro prazer em seguir caminhos diferentes aos propostos pelos pais. Atirava-lhes à cara que se eles eram músicos, ela também poderia seguir uma carreira artística. Era incapaz de compreender que os pais tinham um talento natural para a música enquanto ela não transmitia qualquer graciosidade, apenas veneno e intriga. Às vezes, na brincadeira, as suas (poucas) amigas incentivavam-na a concorrer a pequenos papéis de vilãs, mas nem aí ela conseguia. Quando vinha de um casting mal sucedido, agredia verbalmente a mãe, culpando-a por todos os seus fracassos.

– Se eu não passei é por tua causa. És feia e gorda. Oxalá o pai tivesse casado com uma mulher bonita. Mas não, aquele tolo foi casar contigo. Agora, tenho a minha vida arruinada. Maldita hora que fui herdar essa tua cara de girafa – e metia-se no quarto durante horas a exercitar o corpo ao som das mais pesadas baladas de rock.

Celeste, ferida pelas palavras da filha, deixara de amá-la muito cedo. Via nela um fardo em sua existência e em seu casamento. Muitas vezes, Joaquim açoitara a filha na esperança de que a maldade saísse toda em suas lágrimas de dor. Mas enganava-se sempre. A rapariga tinha mesmo sangue de barata: nada a fazia derrubar. Apresentava sempre uma arrogância surpreendente e nem quando estava deitada nos joelhos do pai, com o rabo descoberto e mais vermelho que um pimento, a sua boca abria-se num grito ou seus olhos deitavam uma única gota. Joaquim sofria mais ao batê-la do que ela própria. Por fim, acabou por desistir. O feijãozinho tornara-se numa verdadeira bola de futebol e era impossível chutá-la dali para fora.

Aos 23 anos conheceu Carlos, um sujeito sinistro muito mais velho que ela. Com 45 anos, era um empresário rico que outrora tornara raparigas comuns em grandes estrelas. Porém, seu mau humor afastou-lhe a clientela, retirando-o da ribalta. Era dono de uma grande empresa de marketing e, como tal, a esposa não precisava trabalhar. Isso, para Perpétua, era o sonho de uma vida. Tinha um marido bem-sucedido que, apesar de não ser bonito, conseguia atrair o mais variado tipo de mulher. Carlos tinha aquele je ne sais quoi, talvez aquele ar de mau rapaz que fascinava o sexo oposto.

Conheceram-se num clube de dança, uma espécie de discoteca com mulheres em roupa interior a desfilar pela zona, falando e entretendo os convivas. Perpétua soubera da existência desse local no jornal diário e quis tentar sua sorte. Não se importava em andar seminua por um lugar cheio de homens maliciosos. Ela queria que a admirassem e se fosse preciso trabalhar naquele lugar fazia-o com muito agrado. Nessa manhã, ao pequeno-almoço, leu o anúncio em voz alta.

“Clube de alta categoria procura raparigas de classe, bonitas e inteligentes para Relações Públicas. Apareça na Rua das Margens, nº 12 e traga sua melhor roupa interior”.

Celeste, que bebia um chá preto, engasgou-se com o líquido e Joaquim olhou para a filha com uma profunda tristeza. Ela deu uma gargalhada ao ver a expressão de horror dos pais. Era sempre assim. Fazia tudo aquilo que lhes provocasse tristeza, dor e asco. Nunca na vida lhes dera uma alegria. Joaquim sabia o que aconteceria a seguir. Ela iria para o quarto vestir sua melhor (ou será mais ordinária?) roupa e sairia em busca desse emprego. E assim o foi. Celeste manteve-se muda o resto do dia, engolindo a vergonha dentro de si. À noite, quando a filha voltou, viu em sua cara que tinha conseguido e, com o marido, subiu para o quarto. Nessa noite, o que ainda pudesse restar de carinho no coração daqueles pais enevoou-se; o amor de pai, esse que dizem que nunca acaba, ficaria congelado para sempre.

No dia de abertura, para não variar, brigara com os pais. Com 23 anos, já deveria estar a terminar a faculdade, mas como seria de esperar, nunca se importou com isso. Esbanjava o dinheiro dos pais em roupa e maquiagem na esperança de encontrar um milionário que a tornasse famosa e agora, para piorar, era Relações Públicas daquele lugar. A dita discoteca chamava-se “Canto das Coelhinhas”. O nome, por si só, embaraçava os pais.

– Onde trabalha sua filha? – perguntava um amigo qualquer.

E com a voz tremida e os olhos baixos respondiam.

– No Canto das Coelhinhas.

O dono era um velho sebento, divorciado pela quarta vez e sem filhos (graças a Deus). Esteve, desde sempre, ligado ao negócio do sexo, tendo sido produtor de filmes eróticos e, mais recentemente, dono de um bar de strip-tease. O Sr. Pedrão, como gostava de ser tratado, fez parte do júri de seleção de suas empregadas e sua opinião era a que contava mais. Engraçou-se logo por Perpétua. Seu ar arrogante e altivo, com certeza, atrairia muitos homens: aqueles que gostavam de mulheres difíceis.

Nessa noite, ele era a figura mais importante. Todas as atenções estavam viradas sobre si e, em smoking, pavoneava-se por entre a multidão com duas de suas favoritas – Perpétua e Tita, uma ruiva de seios cheios. A discoteca estava repleta de amigos e conhecidos seus. Pessoas importantes, ligadas ao cinema e à música davam glamour ao local. Uns quantos empresários tentavam comprar pequenas ações da discoteca, parecendo autênticos lambe botas.

Em certo momento, Pedrão viu Carlos, antigo colega de faculdade de seu irmão mais novo. Ladeado pelas raparigas, foi ao seu encontro. Ali, sim, estava um propício comprador de ações.

– Boa noite, amigo. Como vai? Vejo que recebeu meu convite – cumprimentou com uma mãozada forte.

Carlos olhou de imediato para Perpétua. Era relativamente mais nova, como gostava e tinha umas belas pernas, sua parte favorita no corpo de uma mulher.

– Como vai? Bela festa. Recebi e claro que não poderia faltar – retribuiu o cumprimento.

– Sei que está a ter imenso sucesso com sua empresa. Não sei se sabe, mas procuro acionistas para esta discoteca. Como vê… – apontou em redor ­– este será um lugar de sucesso. Prevejo aqui grandes acontecimentos. Não quer passar pelo meu escritório amanhã para conversarmos melhor?

– Com certeza – deu seu melhor sorriso. – Lá estarei amanhã.

– Ótimo. Entretanto divirta-se. Não quer escolher umas de minhas belas raparigas? Temos vinte a rodopiar por aí – olhou em volta como que à procura da adequada para seu futuro sócio.

– Por acaso acho que encontrei a companhia perfeita – olhou para Perpétua que fez ar de menina ofendida. Carlos excitou-se. Adorava mulheres difíceis.

Pedrão percebeu e entregou a mão de Perpétua a Carlos.

– Agrada o meu grande amigo, Petty – disse, afastando-se com a bela ruiva que parecia ter os seios cada vez maiores.

Perpétua entregou-se como uma verdadeira profissional. Não gostava realmente dele, mas sentia que exercia uma espécie de poder hipnotizante sobre o homem e isso lhe agradava. Foram para cama nessa mesma noite e, pouco a pouco, apaixonaram-se. Não era uma paixão bonita, daquelas por que suspiramos em filmes românticos. Era uma paixão de interesses, uma paixão de sexo ocasional e de jantares caros. Mas ainda assim era uma paixão e quem somos nós para condenar isso? Uma paixão será sempre uma paixão independentemente das razões que a conduzem.

Casaram poucos meses depois, com toda a pompa e circunstância. O evento foi marcado pela presença dos mais ilustres convidados e Perpétua, no seu ato final de misericórdia, não convidou os pais, dando uma entrevista ao Jornal da terra, dizendo que eles pouco se importavam com ela e que recusaram o convite. Era mentira, pois claro. Perpétua não os convidara e, cansados, Celeste e Joaquim reuniram todas as poupanças e partiram para Inglaterra, tentando reconstruir suas vidas.

Os primeiros tempos de casados foram, como em qualquer casal apaixonado, uma eterna lua de mel. Irremediavelmente, todas as noites, faziam amor nos lençóis com cheiro à naftalina. Nessa altura, já se haviam mudado para a enorme casa que Carlos construíra pouco a pouco. Perpétua, com uns jovens 24 anos e a rebeldia no sangue, não tinha ainda classe suficiente para decorar com gosto uma casa. Isso ela foi adquirindo ao longo dos tempos, enquanto frequentava salas de chá e salões de beleza. Mas mesmo assim, por aquela altura, já se poderia considerar uma casa bonita e agradável de viver. Tinha três quartos de dormir, um escritório e quatro casas de banho (uma em cada quarto) no segundo andar. O quarto do casal, o maior de todos, era arejado e as cores claras davam a sensação de estar sempre de dia ali. Os quartos desocupados, os que seriam mais tarde para os filhos, eram igualmente bem arquitetados. No primeiro andar, estava a sala (e que sala!) decorada por um jovem e promissor decorador. Variava entre tons quentes, apresentando peças de mobiliário caras e confortáveis. Em todas as paredes, quadros de begônias amarelas preenchiam de forma harmoniosa o local. Dizia Pierre, o decorador, que uma casa feliz teria de ter sempre aquelas flores. Mais tarde, já com Rossana e as gêmeas nascidas, e num súbito ataque de arte, Perpétua decidiu remodelar a sala, tirando todas aquelas pinturas.

A cozinha, cinzenta e branca, toda ela em inox, era atraente e sofisticada. Dava gosto cozinhar ali, usando e abusando da mais variada gama de eletrodomésticos. No terceiro andar, ficava o sótão, raramente utilizado a não ser para guardar quinquilharias e, futuramente, habitado por uma família de ratos pequenos e inofensivos. 

Aos 25 anos, Perpétua deu à luz uma bebê alegre cujo sorriso delicioso fazia as maravilhas dos vizinhos. A mãe levava-a para todo lado, exibindo-a como um troféu e o pai ignorava-a, passando a maior parte do tempo em viagens de negócios. Por essa altura, a paixão já não aproximava os dois corpos. Tinha sido realmente uma paixão interesseira, momentânea e aquela menina não tinha sido feita com amor. Era uma criança desejada apenas para satisfazer o capricho que Perpétua tinha em ser mãe. Afinal de contas, era a elegante mulher do conhecido empresário e um filho só traria um colorido mais alegre ao quadro familiar que ambos queriam transpor para fora. Os nove meses de gravidez foram passados com tranquilidade. Até nisso, Rossana fora exemplar. Não causara nenhum enjoo à mãe e muitas vezes esta esquecia que carregava um filho no ventre. Queria uma menina bonita que pudesse embonecar, mas, sobretudo, queria uma filha que tivesse sua ambição e seu espírito de luta e (por favor Meu Deus, pedia ela) que quisesse ser modelo. Estava no ginásio quando as águas rebentaram. Fazia pequenos alongamentos que sua médica considerava propícios para um parto quase indolor. E na verdade, assim o foi. Rossana escorregou para o mundo como uma verdadeira estrela. Saiu cá para fora e a parteira era capaz de jurar que a menina sorrira de alívio. Chorou a plenos pulmões e só se acalmou depois de limpa e de se instalar confortavelmente no peito da mãe. Perpétua não queria amamentar durante muito tempo. Tinha medo que seus peitos ficassem flácidos e, portanto, decidiu dar biberão desde muito cedo. Durante cinco anos, Perpétua foi uma boa mãe. Não, não era carinhosa, mas amava a filha à sua maneira, cuidando-a e provendo-lhe todos os cuidados necessários para uma vida saudável e feliz. Carlos, pelo contrário, pouco estava com a filha. Via nela um ser humano indefeso e tinha medo de pegá-la desajeitadamente, fazendo-a chorar. Raras as vezes foram as que brincou com ela, mas, por incrível que pareça, a menina tinha uma adoração pelo pai. Sentia naquele homem, sempre de fato e gravata, uma proteção e, mesmo não tendo carinhos da sua parte, seus olhinhos brilhavam sempre que o via. Rossana era, sem dúvida, o exemplo de que as meninas preferem sempre o pai.

Tinha Rossana cinco anos quando nasceram Petra e Lara. As gêmeas, apesar de terem aquele ar engraçado que todos os bebês carregam, não transmitiam o mesmo brilho que a irmã mais velha. Esta era deslumbrante, como que se cada traço seu fosse desenhado à mão. Sua boca carnuda e rosada dava a sensação de que Rossana estava sempre a fazer beicinho e contrastava com a pele branca, cor de porcelana. Tinha um cabelo liso quase que escorrido, negro, tão negro que brilhava e seus grandes olhos verde-esmeralda davam-lhe um ar exótico.

Cinco anos depois, nasceu Leonardo, um bebê rechonchudo e carismático, o preferido de Rossana apesar dela amar todos eles de forma especial.

Era uma família invejada por todos. Os filhos educados e o casamento inabalável eram o símbolo de um seio perfeito e harmonioso.

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