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Dez 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

- Marcela. Em que lhe posso ser útil?

O coração subiu pela traqueia e estacionou na boca, impedindo a língua de responder. Três gotas de suor derraparam pelo escorrega do pescoço e empaparam a camisa branca. Desligou a chamada e sentou-se, fazendo exercícios de respiração que nunca acalmavam e só relembravam a sua nulidade enquanto homem. Limpou o copo, encheu-o de cerveja, remoeu um punhado de amendoins, passou pelos canais de televisão duas vezes, apagou a luz e escolheu um canto escuro da sala. Varreu-o e sentou-se, cruzando as pernas e marcando o número. Fechou os olhos e esperou.

- Marcela. Em que lhe posso ser útil?

Concentrou-se na voz: feminina, irrequieta, borbulhante - uma voz que, se pudesse beber, seria champanhe e faria cócegas na sua garganta. Desenhou o seu rosto numa só pincelada imaginativa. Tinha cabelo castanho claro, olhos amendoados num tom escuro, pele branca. Vestia o 40 de calças, um L de blusa, e os seios redondos tinham dificuldade em encontrar um soutien decente. Gostava de roupa interior sem grandes folhos ou dificuldades, tomava banho todos os dias, e andava sempre cheirosa. Roía as unhas, tinha uns dentes brancos e ainda não dera com o jeito de encontrar a forma perfeita das suas sobrancelhas. Sim, fazia a depilação em casa.

- Marcela, depilas-te toda?

Um silêncio do outro lado recebeu-o sem meiguice. Ouviu-se um estalo com a língua, ou talvez a bola de uma chiclete que rebentava e, por fim, ela respondeu.

- Sim, querido.

Ele abriu os olhos, limpou o copo, bebeu um pouco da cerveja, comeu um amendoim. Desligou a chamada. Na sua cara: a desilusão. Acendeu as luzes, espreitou a varanda, suspirou, acendeu a televisão, passou três vezes pelos canais. Depois, foi até ao quarto, esticou-se na cama, fechou os olhos, marcou um número e esperou.

- Sandrinha ao seu dispor.

Mel. Uma voz de mel. Daquelas que escorre, que emporcalha, que deixa nódoa. Cabelos pretos, pele chocolate, boca de morango, uns olhos profundos, cheiro a caramelo. Magra, pouco alta, rabo empinado, seios pequenos. Provavelmente um piercing no umbigo, três sinais na coxa e uma tatuagem ao fundo das costas. Uma cicatriz no braço, uma pulseira no pé esquerdo, um colar com um coração ao pescoço. Orelhas mal lavadas, dentes tortos e uma barriga bem definida.

- Sandrinha, depilas-te toda?

- Não, querido.

As pálpebras mantiveram-se fechadas e um sorriso aflorou-se na sua boca. Suspirou como quem bebe o ar pela última vez. Viu Sandrinha na sua cama - nua e fêmea - pernas abertas, olhar guloso, suja por outros homens, mastigada pela vida: puta. E ele, animal, manchando-se nela, borrando a sua pele imaculada na saliva dela, lambendo as suas bactérias, o azedo da sua boca, o avinagrado da sua gruta, o esgoto da sua alma. No lânguido gozo da sua imaginação, veio o orgasmo, em segundos, quente e espasmódico.

- Quer companhia, querido?

Beeeeeeeeeeeeep. Fim da chamada.

O homem lavou-se, escovou os dentes, vestiu o pijama escrupulosamente dobrado, esticou os lençóis, ajeitou as almofadas, expulsou poeiras transparentes da cama, desinfectou as mãos e deitou-se. Deixou a luz acesa, inspeccionou o tecto à procura de rastejantes, sossegou o corpo e adormeceu.

 

Publicado, originalmente, na Revista Benfazeja.

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