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05
Mai 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

 

 

 

 

 Comprei “As parceiras” há relativamente pouco tempo. Por ser pequeno e tão envolvente li tudo no mesmo dia. Acho que nunca tido lido nada assim: é triste e doce; faz-nos reflectir sobre o nosso próprio percurso.

O livro retrata o medo, a tristeza, a loucura e o fracasso humano de uma forma tão simples mas, ao mesmo tempo, tão intensa que chega a ser doloroso para quem está a ler. A história passa-se em redor de Anelise que, através de retrospecções e indagações existenciais, revela a sua personalidade como consequência do conjunto de acontecimentos do passado e do próprio carácter de cada uma das mulheres que compõe a sua família. É o livro ideal para as mulheres porque aborda assuntos íntimos e reais. É o livro ideal para os homens porque lhes dá a conhecer uma outra face feminina: o matrimónio infeliz e as suas sequelas, a sexualidade, o isolamento e a solidão.

As recordações de Anelise começam na avó Catarina que, aos 14 anos, casou e desenvolveu um terror pelo sexo devido aos arrebatamentos sexuais do marido, procurando fugir à realidade através do isolamento no sótão da casa. Ainda assim, dessa relação resultaram quatro filhas. A mais velha, Beatriz, casou e perdeu o marido após algumas semanas. Isso fê-la esquecer a sua feminilidade e sexualidade, refugiando-se na religião. Dora, outra filha, casou quantas vezes lhe foi possível, não sendo feliz, no entanto, em nenhum dos casamentos. Como artista plástica expressava a sua tristeza nos inúmeros quadros que pintava. Norma, a mãe de Anelise, é retratada de uma forma tão ténue, tão passageira, que nos dá a sensação que a própria personagem principal não conheceu verdadeiramente a mãe. E, finalmente, Sibila, que foi o resultado de uma violação cometida pelo marido de Catarina quando esta estava submersa no seu mundo de loucura. A filha mais nova nasce anã e com trissomia 21.

Na casa em que viveu na sua infância, numa semana de férias, Anelise recorda todos os momentos cruciais do passado e esse distanciamento permite-lhe uma sabedoria maior, uma visão mais concreta dos acontecimentos; permite-lhe encaixar os flashbacks no presente, de uma forma perfeita e nada desproporcionada.

Não vou contar muito mais. Apenas acrescento que o final é apaziguador: Anelise resolve o seu caos interior - os problemas no casamento, a infertilidade - através da aceitação de que a sua própria vida é o reflexo da estrutura da sua família, percebendo que o laço que a une às outras mulheres é bem mais do que físico: é espiritual e profundo.

 

Pontuação: um doce 7.

 

 

 

Depois de ler este livro fui dar um beijo à minha mãe e pensei que, de facto, na minha maneira de ser estão aspectos que marcam a identidade das quatro mulheres que me criaram: as avós, a mãe e a tia. E isso só me deixa feliz. Feliz e orgulhosa.

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