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Mai 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

O convidado de hoje dispensa apresentações. Senhoras e Senhores, a Paraíso Biblioteca teve a honra de entrevistar Pedro Chagas Freitas.

 

 

P.B: O site escritacriativa tem promovido o aparecimento de novos talentos?

 

P.C.F: Sem dúvida que sim. É, hoje em dia, um dos trabalhos que mais prazer me dá: fazer com que os outros possam desenvolver, ao máximo, a sua escrita – através de uma metodologia, a Engética do Discurso, que eu mesmo criei e que tenho todo o orgulho em dizer que é única no mundo (tenho tido alunos de todos os pontos do globo). Trata-se de uma metodologia que ensina, realmente, coisas às pessoas – e não apenas aquelas sessões de escrita criativa que toda a gente tende a fazer: uma simples apresentação de desafios e criação textual dos participantes, com debate posterior entre eles. Tenho todo o respeito por esses cursos – mas, na verdade, nos meus cursos há, de facto, uma aprendizagem real e técnica, nas 5 vertentes fundamentais da construção discursiva: sintaxe, léxico, semântica, narratividade e criatividade. E, felizmente, têm sido já muitos os que, depois dos cursos (e durante, nas oficinas de romance, de novela e de conto), lançam os seus livros e começam uma carreira que, para muitos deles, estou certo, vai dar muito que falar. Penso que, numa análise por alto, talvez mais de 30 ou 40% dos alunos que passam pelos meus cursos acabam por publicar as suas obras. É um privilégio poder assistir a isso. Fico verdadeiramente embevecido – até já chorei como uma criança mimalha ao ler algumas das coisas que alguns deles escreveram. Sou um mariquinhas de todo o tamanho, essa é que é a verdade.


P.B: Escrever bem é para qualquer um?

 

P.C.F: Escrever bem é para qualquer um, sim. Não tenho qualquer dúvida disso. É algo que eu atiro à cara dos meus alunos desde o primeiro minuto: garanto que saem do curso a escrever irrepreensivelmente e de uma forma tecnicamente perfeita. Isso é aquilo que se chama escrever bem: ter técnica, dominar a estrutura, ser capaz de construir discurso. Por isso digo e redigo e torno a dizer: escrever bem é para qualquer um - o que não é, de modo algum, o mesmo que dizer que qualquer um é capaz de escrever obras de arte. Esse é outro plano. A arte é o casamento perfeito entre alma e técnica. Eu doto os meus alunos de técnica – mas a alma, essa, está dentro de cada um. E isso não se ensina. A parte técnica, de domínio das ferramentas, eu asseguro. Como um pintor um dia explicou: “é certo que pinto a minha alma – mas também é certo que sem técnica a minha alma não passaria de tinta esborratada.” Na escrita é exactamente o mesmo: só com técnica, com domínio absoluto das ferramentas, é possível construir arte. Mas ter esse domínio não é sinónimo de ser capaz de construir arte. Há o tal algo indizível. Esse está sempre presente. Não acredito na inspiração, não acredito no dom. Mas acredito na vida. E, nela (na vida), todos somos diferentes. Porque é que na escrita (na capacidade de, com ela, marcar os outros) haveria de ser diferente?


P.B: É um dos escritores de maior sucesso da nova geração de autores. O que sente quando ouve essa afirmação?

 

P.C.F: Sou, todos os dias, um escritor de sucesso. Porque consigo, todos os dias, deixar marcas na vida de quem me lê. Esse é que é, para mim o verdadeiro medidor de sucesso. O resto são números: números de vendas, de apresentações, de tretas que para mim nada interessam. Pesco os meus leitores à linha e não à rede. E respeito cada um deles como respeito cada um dos meus amigos. São parte da minha vida e se encontram, no que eu construo, factores de identificação com os seus eus, é uma bênção poder retribuir-lhes, a cada palavra, essa dedicação: esse privilégio. Não sou de falsas modéstias nem de me esconder atrás do que quer que seja. Sei que ninguém escreve como eu, sei que inovo a cada texto, sei que sou (apesar de ser um gajo que não alinha em sistemas e que foge do mainstream como o dinheiro foge dos bolsos) inspiração para muitos e muitas escreverem. Recebo, diariamente, provas disso mesmo. Mas sei também que tudo o que faço é por egoísmo: escrevo, em primeira instância, para o meu umbigo. Depois, se alguém se identificar com isso que eu criei, perfeito. É esse o meu trabalho: encher o meu umbigo de prazer. E essa é, talvez, a maior bênção que a vida me oferece. Luto – trabalhando como um cão – por merecê-la em pleno.


P.B: Quais os próximos projectos?

 

Os próximos projectos são os de sempre: escrever como um cão. E ensinar a escrever como um cão. E eu adoro cães, realce-se. A minha vida é isso mesmo: escrever e ensinar a escrever. De forma obsessiva: escrevivendo. Sou feliz assim: sou abençoado assim. Penso que nem Deus tem o privilégio que eu tenho: fazer exactamente aquilo que quero. E só aquilo que quero. E é continuar a viver assim o meu único projecto de vida. So help me God.

 

 

 

 

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