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16
Mai 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Se você não pode se livrar do esqueleto no armário,

o melhor que tem a fazer é ensiná-lo a dançar.

(George Bernard Shaw)

 

            Limpando o closet para receber os compradores da casa, Marta encontrou uma caixa repleta de ossos.

            Marta era jovem, de rosto avermelhado e braços robustos. Sobrevivera a várias guerras, além de uma viagem clandestina, e estava disposta a tudo em nome de um futuro melhor para a família. Contemplando a caixa aberta, na qual os ossos longos se misturavam a vértebras e artelhos, vieram-lhe à mente as palavras do agenciador: os americanos são muito exigentes, portanto ela devia espanar até o último grão de pó, arrumar com precisão milimétrica o que estivesse em desordem. Isso dizia respeito a tudo na casa, móveis, louças e roupas – e sendo assim, por que excluir qualquer dos objetos do closet? Não havia nenhuma razão.

            A primeira parte do trabalho foi relativamente simples. Tirando os ossos da caixa, ela borrifou um por um com o spray fornecido pela agência, polindo-os depois com uma flanela até que se tornassem reluzentes. Então veio o desafio de montar as peças, de reconstituir aquela estrutura desprovida do seu invólucro de músculos e carne. No início parecia fácil, mas logo os ossinhos das mãos começaram a confundi-la. Marta precisou parar e observar suas próprias mãos, mudando os ossos de lugar várias vezes até que o arranjo a satisfizesse. O processo se repetiu com os pés, descalçados os sapatos de lona, e por fim com a espinha, embora ali fosse preciso recorrer ao tato e a incômodas torções diante do espelho. Levou mais tempo do que gostaria, e algumas vértebras talvez tenham ficado fora de lugar, mas por fim seu senso estético lhe permitiu dar o trabalho por terminado. Eram, então, quatro da tarde. Marta fez uma pausa para fumar um cigarro e comer o sanduíche que trouxera de almoço.

            Às quatro e dez o esqueleto estava estendido no chão do quarto, e Marta refletia sobre a melhor forma de manter em ordem todos aqueles ossos. A primeira coisa em que pensou foi cola, mas não havia nenhuma disponível. Além disso – pensou, sentindo orgulho de si mesma pelo raciocínio – os esqueletos não são rígidos e sim articulados, como Barbie e Ken. Era preciso achar uma alternativa que os mantivesse assim, e, depois de pensar um pouco, Marta se decidiu por corda. Havia bastante na casa, inclusive pedaços cortados que tinham servido para amarrar caixotes. Foi fácil prender com ele os ossos maiores. O método funcionou também com as costelas, mas para o resto foi necessário um barbante mais fino, além de habilidade para dar as laçadas e nós. Por fim, o crânio e as mandíbulas foram presos com arame torcido, retirado de cabides que deviam ser jogados fora, mas que acabaram se mostrando valiosos no desafio final: deixar o esqueleto em condições de ser pendurado no closet.

            Marta acabava de dar os últimos retoques quando ouviu a porta se abrir no andar de baixo. Era o corretor, que a recebera mais cedo, quando o carro da agência de limpeza veio trazê-la, e que acabava de voltar na companhia dos americanos.

Suas vozes aumentaram de volume à medida que subiam os degraus. Vozes alegres, excitadas pela chegada à casa dos sonhos, que até então não tinham visitado pessoalmente. Vozes de um homem, uma mulher e três crianças de grandes olhos azuis, que se abriram ainda mais, numa espécie de choque, ao ver o que Marta segurava na mão.

Ela sorriu, antecipando o prazer de ouvir o que diriam, embora ainda não entendesse inglês. Elogios são elogios, reconhecíveis em qualquer língua, e, no caso dos americanos, até por suas expressões. Estavam imóveis, os sorrisos de belos dentes congelados – maravilhados, pensou Marta, congratulando-se diante daquela reação. Foi justamente para obtê-la que ela deixou o esqueleto à vista dos patrões.

E em meio a tanto enlevo era fácil adivinhar que se perguntavam como, por sete dólares a hora, tinham tido a sorte de contratar alguém tão eficiente.

 

 

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Ana Lúcia Merege nasceu no Rio de Janeiro em 1969. Formada em Biblioteconomia, residiu em Lisboa entre 1992 e 1995 e trabalhou na Universidade Católica Portuguesa. De volta ao Brasil, passou a trabalhar com manuscritos na Biblioteca Nacional, ao mesmo tempo que se dedicava a sua maior paixão: escrever, principalmente Literatura Fantástica voltada para o público mais jovem. Até agora são quatro livros publicados: "O Jogo do Equilíbrio" (Fábrica do Livro, 2005), "O Caçador" (Franco, 2009), o ensaio "Os Contos de Fadas: origens, história e permanência no mundo moderno" (Claridade, 2010) e "O Castelo das Águias" (Draco, 2011), um romance que se passa numa Escola de Artes Mágicas bem diferente de Hogwarts. Além desses livros, Ana é também autora de artigos nas áreas de História, Literatura e Biblioteconomia e de contos publicados em antologias e em sites. Mantém dois blogs: A Estante Mágica de Ana (http://www.estantemagica.blogspot.com) onde publica artigos, dicas literárias e fala da vida de escritora e o blog de divulgação de seu último romance (http://www.castelodasaguias.blogspot.com), onde fala sobre os personagens e apresenta contos passados no mesmo universo. Contacto com a autora: anamerege@gmail.com

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