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23
Mai 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Hipótese 1:

 

José levantou-se, agoniado por uma falta de ar que lhe apertava os pulmões. Precisas de uma boa refeição, pensou. Foi até à cozinha abriu um pão, barrou manteiga e, como numa obra de arte, alternou queijo, tomate, paio, alface, salsicha, queijo, tomate, paio, alface, salsicha. Por fim, uma boa colher de maionese. Deu três dentadas e sentiu uma dormência no braço esquerdo. Empurrou a comida com a coca-cola e arrotou. O ataque cardíaco jogou-o para o chão. Não teve tempo nem de gritar. Morreu instantaneamente.

 

Hipótese 2:  

    

José levantou-se com dificuldade e arrastou o corpo pela corredora ladeada de fotos antigas. Entrou na casa de banho e encarou o gordo que o olhava. Descalçou a meia encardida do pé esquerdo mas sentiu o corpo reclamar. Sentou-se, vermelho de cansaço, na borda da banheira e descalçou a outra. Puxou a camisola pela cabeça, sentindo o tecido descolar das pregas da carne e, depois, pôs-se em pé, chateado com tanto esforço logo de manhã. Todo nu, colocou-se de tronco erecto e baixou a cabeça. Tentou ver os pés mas a barriga em forma de barril só deixava entrever a cabeça do dedo maior. Estás, de facto, gordo. Entrou na banheira e lavou-se. Primeiro em pé; após dois minutos, sentado que o peso era muito e os pés ameaçavam escorregar e, imagine-se, aquela bola cair: era capaz de partir, não uma perna, mas os azulejos e a banheira. Era uma despesa desnecessária, pensou. Quando a água ficou fria, saiu e secou-se na velha toalha. Vestiu um fato de treino e, lentamente, foi até à cozinha. Abriu o frigorífico, olhou para os ovos, para o bacon embrulhado em papel vegetal, para a maionese, para o refrigerante. Rodou a cabeça e cumprimentou o pão, do tamanho de uma bola de praia - sem exageros - se bem que mais achatado. Suspirou. Uma sandocha com bacon e ovos mexidos, um copo de refresco e, por cima, aquela fatia de bolo de chocolate que a mãe fizera, era coisa para deixá-lo animado. Coçou a cabeça. Passou a mão pela barriga e suspirou novamente. O frigorífico foi fechado com uma certa raiva. José pegou em duas laranjas, partiu-as ao meio e espremeu. Bebeu o sumo de um trago só e saiu de casa. Ia andar a pé e iniciar uma dieta rigorosa. Viveu mais 50 anos.

 

- Então, José, o que prefere? - pergunta o médico.

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