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26
Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

A fumaça do meu cigarro dança pelo ar e sai pela janela, voando até aos fumos que as chaminés altas das fábricas cospem. Na mesa-de-cabeceira, dois incensos queimam, tornando o ar pesado e mergulhado num cheiro detestável que lembra as concentrações doentias de gente com peste. Os meus olhos ardem devido ao cansaço e ao excesso de uso das lentes de contacto. Um vapor malcheiroso sai da minha boca e cola-se ao vidro. Faz frio lá fora; aqui dentro está tudo demasiado quente, demasiado húmido. E isso coze os cheiros, as comichões, o suor que se derrete pela minha pele e faz de mim um homem asqueroso. Do outro lado da rua, um lago verde abre-se para o céu, mostrando todas as suas intimidades. Provavelmente lá também cheira a podre. Adoro ver a névoa esmeraldina que se evola nos remoinhos das pequenas ondas que o vento invernoso provoca. Encaro o próprio lago que se enlaça no chão do meu quarto formado pelo meu sémen, por vísceras descoalhadas, por um fio de corrimento vaginal, por gangrenas e pedaços que fazem lembrar os fígados das galinhas. Todas essas porcarias da morte nadam numa bonita poça de sangue. E o fedor que dali é parido? - um miasma que se cola aos pêlos das minhas narinas provocando-me uma vontade descontrolada em vomitar. Um líquido amarelo e viscoso rompe da minha boca. Por um segundo, o cheiro avinagrado do vómito diluí toda esta atmosfera encardida de podridão. Encaro a cama e o corpo que nela está depositado. A mulher olha-me, embora sem olhos. Eles estão algures no mar de sangue da alcatifa. O cadáver apodrece de uma forma sensual. Só de mirá-lo sinto o desejo em saciar os meus prazeres. Uma aura purulenta sobe pelo corpo, parida pelos órgãos que se expõem do corpo aberto. Toda ela é um pedaço de carne retalhado. Toda ela deixou de ser feia, de ser apenas mulher, de ser apenas humana. Agora está tão linda, tão perfeita. Agora ela é tudo, para além da vida. As lágrimas correm-me ao apreciar a beleza insuportável da morte.

- Querida Maria, agora podes ser feliz.

Aproximo-me dela e beijo-lhe os lábios pálidos. Um bafo de verme atinge-me na cara. A minha masculinidade entesa-se diante daquele espectáculo de cores e vapores. Porém, antes de sequer despir-me, a imagem de um homem mancha a visão perfeita a que os meus olhos se habituaram.

- Levante-se. Está na hora da medicação.

Encaro o homem. Filho da puta. Entra sempre na altura da glorificação, no provar das texturas, no beber dos líquidos mornos daquele corpo.

- Levante-se! - repete ele.

E, de repente, volto à estaca zero: o quarto é novamente branco e, em cima da cama, apenas morre uma velha almofada.

 

 

Publicado, originalmente, na Infektion Magazine.

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12
Set 11
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Mas quem escreve numa caixa de fósforos?, questiona-se. Quem tem algo a esconder, estúpida, responde imediatamente para si própria. Desde de manhã que andava naquela agonia venenosa, fingindo que trabalhava, abanando a cabeça às conversas que se desenrolavam em volta e mastigando um chiclete de menta para não cair na tentação do cigarro. Vanessa, Vanessa, Vanessa, Vanessa. O nome dançava no cérebro com a fluidez de um papel que voa ao vento. Vanessa, 238759372. Um nome e um número. O nome e o número: da amante. Por isso é que ele anda tão estranho, pensa. Mas porquê?, porquê não acabar? Ele sabia que ela odiava deslealdades. Era uma mulher suficientemente forte para aguentar com um pedido de divórcio. Mas uma traição?, uma traição é que não. Era demasiada humilhação. Ainda por cima não havia filhos para prender, nem bens para dividir, nem, sequer, um cão para disputar. E, para além disso, eram amigos e davam-se bem na vida e respeitavam o espaço um do outro. E ainda ontem fizemos um amor tão louco, recorda. O telefone toca e ela olha para o visor: era o inimigo - o marido. Com dificuldade engole a saliva pesada e atende a chamada com um áspero Estou. Querida?, pergunta uma voz carinhosa. Diz. Querida, encontraste alguma coisa nas minhas calças? Ela desespera com a falta de vergonha: não bastava a traição, ele ainda fazia questão de lamber a desfeita na sua cara, com desaforo. Sim, diz demasiado nervosa. Uma caixa de fósforos? Sim, responde quase desfalecendo de acanhamento. Querida, preciso que me digas o número e o nome que lá estão. O nome?, pensa ela, Tem amante e nem sabe o nome? Vanessa, 238759372, sussurra enquanto sente o tempo parar e as imagens da frustração desenrolam-se na caixa aberta que é a janela do seu escritório: os ramos das árvores que espetam a barriga do céu; uma rixa de cães; um acidente de carro que dilacera uma família; uma velha que tem um ataque cardíaco; um assaltante que silencia a vítima; o sol que queima as flores; o marido que a trai. Obrigada, querida, sussurra a voz que a acorda da morbidez das cenas; Acho que ganhámos uma estadia num hotel durante um fim-de-semana. Uma estadia?, pergunta a mulher, dividida entre um pesadelo real e uma dor de cabeça absurda. Sim, querida; fizeram um sorteio na empresa e tenho quase a certeza de que foi esse o número e o nome que saíram, mas preciso confirmar. Ela encosta-se à cadeira e uma sensação de liberdade desmaia sobre si. És tão parva, mulher!, pensa, enquanto tira um cigarro da carteira e ouve os detalhes do prémio. 

 

Publicado originalmente na Rubrica Estórias do Arco-da-Velha da Revista JA da Associação Académica da Universidade da Madeira.

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05
Set 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Os olhos, entorpecidos pelo mergulho ao inconsciente, abriram lentamente, tentando não sucumbir ao ardor que aquela luz provocava. Não sabia onde estava nem porquê lhe doía a cabeça de uma forma tão desesperante. A última vez que estivera acordada, lembra-se perfeitamente, estava em casa a regar os pequenos vasos de plantas aromáticas que a mãe lhe dera nessa semana. Sim, lembra-se de terem tocado à porta e de a ter aberto. Mas a partir daí uma névoa nebulosa preenchia a sua memória. Tacteou ao seu redor na esperança de encontrar um objecto familiar. Nada. Jazia numa cama metálica, sem colchão, coberta apenas por um cobertor que enjoava a urina. A luz que a incomodava era, de facto, uma lâmpada cor de vinho verde que, de vez em quando, apagava por milésimos de segundos. O quarto era minúsculo, sem janelas que dessem para o exterior e nos cantos das paredes bolorentas, insectos escorregadios deslizavam com uma demora irritante.

Amélia levantou-se com dificuldade e observou todo o seu corpo, apreensiva.  Os braços doíam-lhe e estavam cobertos de nódoas negras. O ombro esquerdo, despido pelo top decotado, tinha um rasgão que, em breve, acabaria por sarar. Os abdominais estavam doridos e as ancas custavam a mexer. As pernas eram, até então, as únicas sobreviventes. Levou a mão à boca e foi aí que sentiu o gosto doce a sangue. Começava, pouco a pouco, a regressar a si como se um analgésico deixasse de fazer efeito, e as dores que, até ali, eram suportáveis, tornavam-se cruéis.

- Está aí alguém? - gritou, desesperada, dirigindo-se à única porta. - Socorro! Está aí alguém?

A porta era cinzenta e alta, com manchas de ferrugem. Em cima, uma pequena janelinha com grades deixava entrar o único oxigénio. Amélia tentou espreitar mas a altura era considerável. Olhou outra vez em redor, em busca de qualquer coisa que a fizesse chegar lá. Na extremidade oposta, uma cadeira velha olhava para ela como que a desafiando. Amélia correu afectadamente até lá e pegou nela. Dava na perfeição para chegar ao buraco. A rapariga subiu a medo, não fosse a cadeira partir-se em dois, aproximou-se da abertura e tentou decifrar o que via. Um corredor estreito, húmido e nauseabundo, ladeado por tantas outras portas iguais àquela. Alguns dos quartos iluminados, outros não. Todos num silêncio cortante, excepto um. A três portas do quarto de Amélia, alguém dizia num tom louco e apressado:

- 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres...

A reza era cada vez mais maníaca e depressiva e Amélia era capaz de decifrar o rosto do dono daqueles sussurros

- 1,2,3,4 homens e mulheres. 1, 2,3,4 homens e mulheres - por fim, com uma pancada forte, as palavras sumiram por entre o silêncio perturbador.

Amélia desceu a cadeira e voltou para a cama. O seu coração parecia um fugitivo e a bílis ameaçava querer sair cá para fora.

 

Amélia abriu os olhos e aquela luz invadiu-a de novo até ao tutano. Uma terrível sensação de Dejá Vú percorreu o seu corpo. Que horas seriam? O seu estômago roncava de fome e tinha, novamente, aquela dor de cabeça aguda. Precisava de um banho, de um prato de comida, de uma aspirina e de explicações.

- Pequeno-almoço - a voz vinha de lá de fora, ainda que longe. - Pequeno-almoço.

Amélia moveu-se até à porta e subiu a cadeira. Uma velha, com aspecto de dona de um talho, empurrava um carrinho com dificuldade. Tinha o cabelo cinzento todo puxado em cima da cabeça e preso por uma rede antiga. Na cara gordurosa tinha uns óculos de vista e os três dentes podres davam-lhe um ar assustador. Vestia uma bata branca, encardida e manchada por pingas vermelhas. A ideia de ser cortadora de carnes encaixou-lhe ainda melhor. Era gordíssima e os olhos amarelados acusavam-na de colesterol.

- Pequeno-almoço - a ladainha estava cada vez mais perto e Amélia voltou para o chão, puxando o banco para um canto.

Uma chave entrou na fechadura, girando num som estridente.

- Pequeno-almoço - a velha entrou, sem olhar para a rapariga e depositou uma pequena bandeja no chão. Amélia olhou, de relance, para ela. Um papo-seco de aspecto duro barrado com uma substância castanho-clara e uma xícara de café que nem fumegava.

- Olá. Pode dizer-me onde estou? - perguntou com esperança de que aquela senhora gorda e feia se transformasse na sua salvação.

- Mas porquê raios perguntam todos a mesma coisa? - gritou perto da cara de Amélia. O seu hálito era horrível. Uma mistura de tabaco com alho. - Eu sou a cozinheira desta espelunca. Não tenho que responder a ninguém sobre nada! - fechou a porta com força, trancando-a logo em seguida.

Amélia puxou a cadeira novamente e subiu. Felizmente as gorduras da mulher impediam-na de andar rápido.

- Pode, ao menos, pedir a alguém responsável que venha falar comigo? Isto é engano. Eu não pertenço aqui...nesta prisão...isto é um estabelecimento prisional? Eu não cometi nenhum crime. Por favor, ajude-me! - o seu pedido de socorro era cada vez menos perceptível.

A gorda voltou-se, limpando o suor da cara com a manga da bata.

- É melhor calares a boca se não quiseres voltar a dormir. Não te dou respostas mas posso dar-te três conselhos. Não faças perguntas, não grites e não deixes de obedecer ao que te pedem. Só assim poderás sair algum dia - virou-se de novo e dobrou a esquina do corredor. - Isto se saíres.

Amélia agachou-se na cadeira com uma vontade enorme de chorar. Não conseguia entender o porquê de estar num sítio tão horrível. Logo ela que não fazia mal a uma mosca. Tinha 23 anos e estava no último ano de Economia e Gestão, em Coimbra. Sempre fora uma boa aluna e, apesar de ter chumbado a algumas cadeiras, estava na idade perfeita para começar um novo ciclo da sua vida. Iria fazer o estágio num banco, daria o melhor de si e, quem sabe, ficaria por lá. Dividia o apartamento com a sua amiga Teresa, estudante de Sociologia. Namorava com Rodrigo, também do seu curso. Os pais estavam divorciados e, aos fins-de-semana, ia até Aveiro, local de residência da mãe. Encontrava-se poucas vezes com o pai, que vivia no Algarve, mas davam-se bem. Não tinha irmãos, nem primos e orgulhava-se de não ser uma menina mimada por esse facto. Não se metia com ninguém, era pacata e atenciosa e, até nas praxes, tinha medo de impor-se perante os caloiros. Nunca cometera nenhum crime, nem sequer alguma vez levara uma multa de trânsito.

- 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres - os seus pensamentos foram interrompidos por essa cantoria. Endireitou-se na cadeira.

- Eh. Psiu. Estás a ouvir-me? - a voz calou-se. - Hey, fala comigo. Sou nova aqui.

- Não te vejo. Quem és? Mais uma mulher? 1,2,3,4 homens e 5 mulheres. 1,2,3,4 homens e 5 mulheres - continuou ele.

- Não. Estou aqui. No outro quarto. Não há nenhuma cadeira por aí?

Silêncio.

- Estás a ouvir-me?

- Sim, estou sentado nela.

- Então encosta-a à porta e olha pela janela - pediu.

Ouviu um arrastar desnecessário, como se o homem não tivesse qualquer força para pegar no banco. De repente, viu-o e o que imaginara dele não se aproximava, sequer, da realidade. Esquelético, pálido ao ponto de poder ver-se os vasos sanguíneos por debaixo da pele, as pupilas exageradamente dilatadas, círculos azuis-escuros por debaixo dos olhos e o cabelo ralo, tão ralo, que lhe faltavam madeixas pela cabeça.

- Olá - sorriu. - Como te chamas? - achou a pergunta demasiado estúpida para a ocasião.

- Não sei - respondeu, meio taciturno.

- Hum...está bem...eu sou a Amélia. Há quanto tempo estás cá?

- Não sei.

- E porquê vieste aqui parar?

- Por causa dos homens e das mulheres - respondeu, finalmente.

- Que homens e mulheres?

- Aqueles que aparecem às vezes.

- Onde?

- Aqui - disse apontando para a cabeça.

- Onde estamos? Sabes? - perguntou a medo.

- Na nossa salvação. Se não estivesse aqui, os homens e as mulheres já me tinham comido.

Amélia assustou-se com aquela resposta.

- E tu, porquê estás aqui? Também vês homens e mulheres?

- Não. Acho que não. Não sei - disse, confusa.

- Pensas que não vês mas vês. Toda a gente vê. TODA A GENTE! - gritou e desapareceu no quarto, recomeçando a sua agoniante lengalenga.

Amélia desceu novamente do banco. Sentou-se ao lado do tabuleiro e começou a mastigar, ignorando o sabor dos alimentos. Apenas precisava de algo que reconfortasse o seu estômago. Pensou nas palavras do louco.

- Louco? - a palavra surgira-lhe no pensamento. - Sim, louco. Se ele é louco, isto deve ser uma espécie de manicómio. E eu estou aqui por engano - disse como se estivesse alguém a ouvi-la. Continuou a comer, imaginando-se na cozinha do seu apartamento, a ouvir as histórias excitantes de Teresa. - Por falar em Teresa, era ela quem devia estar aqui. É ela a ninfomaníaca - calou-se e levou a chávena de café frio à boca.

Acabou a pequena refeição em pouco tempo. Deixou a bandeja no mesmo lugar e levantou-se com vontade de explorar o cubículo onde se encontrava. Uma cama, uma cadeira, um vestuário e um espelho. Não se lembra de tantos móveis, mas também reconhece que estivera em choque até há bem pouco tempo. Caminhou até ao armário e abriu-o de par em par. Cheirava a naftalina e uma aranha habitava-o. Amélia pegou no bichinho e colocou-o no chão. A mãe sempre lhe dissera que matar aranhas era mau presságio, pois elas traziam fortuna para o lar. Riu-se da ideia de ter pensado em associar aquele lugar mofento e deprimente ao conceito de lar. O móvel tinha cinco cabides a meio. Do lado esquerdo, pequenas prateleiras serviam lindamente para colocar perfumes, maquilhagem e caixinhas de jóias. Do outro lado, havia gavetas, quatro no total. Amélia abriu-as na expectativa de encontrar qualquer coisa que denunciasse onde estava. Abriu a primeira. Vazia. A segunda. Idem aspas. A terceira. O mesmo. Finalmente, na quarta estava um módico cartão, bem lá no fundo, como que colocado propositadamente para alguém muito curioso achar. Estava amarelado e ruído pelas traças e a letra era, um tanto ou quanto, antiquada. Pegou nele e leu “Clínica Pascoal – Reabilitação e Reintegração Social”. Não tinha qualquer morada ou contacto.

- Que falta de sorte – disse.

Sentia-se mais alarmada. Não era viciada em qualquer tipo de droga. Aliás, só bebia em convívios académicos, nas Latadas e Queimas das Fitas. Não fumava. Não tinha qualquer vício. Os amigos, inclusive, chamavam-na de beata, na brincadeira. E, ainda assim, encontrava-se ali. Teresa devia estar preocupada, para não falar do namorado que, com certeza, já telefonara para a mãe. Mas isso era bom. Daí a nada, alguém estaria à sua procura e aquele grave mal-entendido teria um final feliz.

Fechou o armário e viu, bem encostado a ele, uma mala preta e enorme. Amélia franziu o sobrolho. Mais uma coisa que não se lembrava de ter visto. Arrastou a mala até à cama e jogou-a lá para cima, abrindo-a logo em seguida. As suas roupas, as predilectas ainda por cima, estavam todas lá dentro. Arrumadas, cheirosas e passadas a ferro. Pegou na primeira, um vestido branco com as bainhas em croché. Rodrigo oferecera-lhe no dia do seu aniversário, em Agosto do ano passado. Abandonou os pensamentos e concentrou-se na mala. Mas era difícil. A sua cabeça buscava, sempre, qualquer coisa em que pensar. Não tinha sido raptada então. Quem poderia fazer a mala, com as suas roupas favoritas, senão alguém que a conhecesse muito bem? Sentiu um aperto no coração. Não queria pensar nessa possibilidade. Não, era uma ideia tola. As pessoas adoravam-na. Tinha sido raptada por um louco estranho. Essa era a verdade.

Tirou todo o vestuário de dentro da mala e guardou-o no roupeiro. Não pretendia ficar ali durante muito tempo mas, ao menos, distraía-se e não pensava em absurdos. Guardou tudo por peça e cor. Era muito organizada, demais até, segundo a sua mãe. Na casa de Coimbra, tudo estava arrumado, no lugar certo, etiquetado e nada, naquele espaço, assemelhava-se a uma casa de estudantes. Acabou em pouco tempo, perdida nos seus pensamentos. Queria falar com alguém, resolver a sua situação ali, entender aquele equívoco e ir embora. Tinha saudades de Rodrigo, de Teresa, da mãe e de Papuska.

 

- Bom dia. Passe-me ao Dr. Pascoal, por favor – a voz era dura.

- Com certeza. Aguarde um momento – responde outra, eficiente e bem-disposta, alheia à dor daqueles que telefonavam para saber notícias.

O telefone tocou duas vezes e uma música brasileira desconhecida acompanhava.

- Pronto – atende um homem.

- Sr. Dr., como está? É a Olga. Olga Martins – a voz continuava desconsolada com um certo tom de preocupação.

- D. Olga, como vai? – pergunta.

- Como sempre. Gostava de saber novidades sobre a Andreia – pronunciou o nome com uma certa dificuldade.

- D. Olga, receio que não seja um assunto a ser tratado por telefone – advertiu.

- Gostava apenas de saber se a minha filha já reage de alguma maneira ao internamento, se há alguma melhoria e se posso visitá-la esta semana.

- A Andreia é um caso complicado. Já a temos cá há muito tempo e ainda não conseguimos com que ela mantivesse uma conversa lúcida por muito tempo. Há vezes em que acorda e fala correctamente. Arrisco-me até a dizer que vocaliza frases pouco próprias para a sua idade e maturidade. Porém, nessas mesmas vezes, parece-me que se faz passar por outra pessoa. Não sei, alguém mais culto, mais inteligente e com uma grande capacidade de comunicação. Noutras alturas, até, balbucia palavras imperceptíveis. Raramente comunica com os outros pacientes e reage mal quando tem que tomar a medicação. Tem ataques de pânico e tenta agredir-se. O seu esposo esteve cá há poucas semanas…

- Ex-marido – corrigiu Olga.

- Sim, desculpe. Como dizia, ele esteve cá há pouco tempo e a Andreia nem sentiu a sua presença. Ele tentou falar-lhe, transmitir algum carinho mas a Andreia simplesmente ignorou que alguém estivesse ali.

Olga fungou baixinho. Sentia um nó que apertava demasiado na garganta. – Então não há melhorias desde a última vez. Às vezes questiono-me se não será melhor trazê-la para casa. Quem sabe se junto de mim, dos avós e das coisas que lhe são familiares, ela tivesse qualquer tipo de recuperação.

- D. Olga, já tivemos esta conversa antes. Tirar a Andreia daqui, agora, seria um enorme recuo. É certo que a rapariga não fala nem interage mas acho que ambos estamos de acordo que é melhor ela estar assim do que da maneira que estava quando vivia convosco. Não acha?

- Sim, Sr. Dr. Mas custa tanto… - as lágrimas teimosas já corriam pela face.

- Eu sei, D. Olga, eu sei. Custa a todos. O que mais desejo é que todos os pacientes deste hospital, ultrapassem os seus problemas e voltem para as suas famílias – a afirmação saíra-lhe realmente sincera.

- Passo esta semana por aí. Boa tarde, Dr. Pascoal. Com licença – desligou o telefone ainda antes do médico poder despedir-se. Pousou o auscultador e fechou os olhos, rendida pelo silêncio exaustivo. Há muito tempo que vivia assim. Num profundo e deprimente silêncio. Sentia a falta da voz doce de Andreia, a contar as aventuras do dia, das gargalhadas que intercalava entre os episódios pitorescos. Queria, por demais, a sua cria debaixo da sua asa.

 

Deveria ser perto da hora do almoço. Sentia o estômago roncar e o tédio começava a apoderar-se de si. Sabia que daí a nada, alguém levar-lhe-ia um prato de comida e essa seria a sua oportunidade para resolver aquela infeliz confusão.

Ouviu passos no corredor. Eram pesarosos e lentos. Era aquela mulher outra vez. A carniceira. Endireitou os fios de cabelo que estavam desalinhados e olhou rapidamente para a roupa que vestia. Precisava de um banho urgentemente.

- Toca a levantar. O almoço está pronto – disse a velha.

A porta abriu e Amélia viu a mesma figura sebenta que vira de manhã. Não trazia qualquer tabuleiro e vinha sozinha, carregando apenas o molho de chaves com que abria as portas.

- Vamos. O almoço está a ser servido na cantina – ordena.

Amélia apressa-se a sair e a colocar-se, em fila, por detrás das outras pessoas. Não queria dar nas vistas mas somente comer e encontrar o responsável por aquela instituição. O corredor que os levava para a sala de refeições era longo e frio. Em algumas partes, caíam pingos de água que, ao tocarem nos canos, ecoavam num som terrorífico. Cheirava a ratos e a ferro enferrujado. À sua frente seguiam cinco pessoas. Quatro homens e uma rapariga. O louco do “um, dois, três, quatro” ia praticamente dobrado sobre si, abanando a cabeça em várias direcções. Um outro, mais velho, andava completamente direito com os olhos fixos no oculto. Mais à frente ia um jovem com ar de delinquente ameaçador, seguido por outro que gaguejava, para si próprio, cantilenas desconexas e imperceptíveis. Formavam, os quatro, um grupo interessante e, ao mesmo tempo, perturbador. Cada um encaixava no outro na perfeição. Se se retirasse um deles, aquela pintura perderia o interesse. Era como se, naquele corredor, ladeado por quartos, fosse imprescindível a presença daqueles quatro homens tão diferentes mas igualmente doidos. A rapariga era a única que estava a mais no cenário louco que Amélia via diante de si. A rapariga e ela própria, claro. Deveria ter mais ou menos a sua idade. Usava o cabelo pelos ombros, cortados a direito e a cor assemelhava-se à cor da casca de um kiwi. Era baixa, com seios pequenos, cintura e ancas largas. O rabo parecia-lhe um tanto ou quanto grande e as coxas grossas. Tinha olhos castanhos e pouco expressivos. Era uma rapariga bonita mas não possuía aquele brilho capaz de virar cabeças nas ruas. Andava normalmente, se bem que parecia um pouco alheia à realidade. Parecia, por vezes, que não sentia o chão que pisava, dando a sensação que flutuava. Não olhava para ninguém, ignorando toda a gente e, no entanto, não se encaixava naquele lugar.

Chegaram à cantina e foram encaminhados para uma larga mesa que tinha cadeiras para todos eles. As restantes já estavam ocupadas por outras pessoas que aguardavam a chegada dos tabuleiros com alguma ansiedade. Homens e mulheres, todos eles com o mesmo uniforme azul claro, os cabelos despenteados e no rosto aquela expressão de monstro lunático. Amélia sentiu-se ainda mais deslocada e procurou sentar-se perto da outra rapariga, a única que desbotava daquele quadro alucinado.

- Olá. Importas-te que me sente aqui? – perguntou.

Os olhos da rapariga invadiram os de Amélia de uma forma realmente constrangedora e não houve qualquer resposta. Deixou-se, então, ficar ali. Tinha a esperança que durante o almoço conseguisse estabelecer um diálogo.

Os tabuleiros chegaram, distribuídos por senhoras de meia-idade cobertas de pó de arroz e os cabelos presos numa rede muito fininha. Não espalhavam sorrisos mas não eram desagradáveis. Cumpriam o trabalho com facilidade e com um certo ar de pressa, desejosas de sair dali e encontrar o marido ou o amante em casa. A sopa rala e insonsa caiu bem a Amélia mas o segundo prato, um macarrão demasiado cozido com pedaços de carne quase cruas, reviraram o seu estômago. Preferiu avançar para a sobremesa, uma laranja perfumada. Olhou de relance para a companheira de mesa e, novamente, os olhares penetraram um no outro. Desta vez sentiu algo diferente. Já não teve aquela sensação de estar despida diante dela, pelo contrário, era como se a conhecesse melhor que ninguém. Era como se partilhassem as mesmas memórias e os mesmos receios.

- Como é o teu nome? – perguntou, instintivamente.

A outra não respondeu mas via-se nos seus lábios que as palavras estavam ali, desejosas de escorregar cá para fora.

- Não tenhas medo, eu não sou como eles – pediu, olhando em direcção aos restantes. – Eu também estou aqui por engano.

- Andreia – disse como que cuspindo.

- Olá Andreia, eu sou a Amélia – levantou a mão para que Andreia a apertasse mas esta baixou os olhos e continuou bebericando a sopa. – Então, estás há muito tempo aqui?

Andreia acenou que sim, sempre cabisbaixa.

- Tens família? – insistiu.

Repete-se a mesma cena.

- E porquê estás aqui? Sabes? – perguntou encostando a sua mão à de Andreia como que a protegendo contra a sua própria resposta.

Andreia estremeceu com o toque. Não estava habituada a esse tipo de intimidade. Sentia-se sequiosa de contacto, de alguém que a abraçasse e aquela mão macia era tudo o que precisava naquele momento. Deixou-se ficar assim, amparada por uma mão que não conhecia mas que lhe sabia tão bem. Não disse nada. Desejou apenas ficar de mãos dadas para sempre.

- É-te difícil falar sobre isto, não é? – interrompeu Amélia, retirando a mão que pousara sobre a de Andreia.

Andreia sentiu-se perder no vácuo novamente. O apoio tinha-lhe sido tirado sem avisos mais uma vez e aqueles tremores que a assombravam de quando em quando pareciam crescer dentro de si. Empurrou o tabuleiro para Amélia que saltou da cadeira com os braços em riste e uma expressão de admiração. Andreia correu, tropeçando nas pessoas que entravam em pânico. Em segundos, aquele lugar onde só se ouviam burburinhos desconexos e talheres a bater em loiça foi substituído por uma algazarra perturbante. Andreia foi, finalmente agarrada por dois enfermeiros que a arrastavam pelo corredor enquanto gritava e esperneava até, finalmente, desaparecer. Os restantes enfermeiros tentavam acalmar quem por ali gritava e, por fim, foram levados novamente para os seus quartos.

Amélia teve uma vontade espontânea de dormir como se estivesse acordada há muito tempo, ou até, como se nunca o tivesse feito em toda a sua vida.

Andreia queria correr, libertar toda a sua fúria. Sentia um desespero crescente dentro de si, um rugido escondido que aos poucos se soltava para a posterioridade.

Amélia deitou o corpo entorpecido na cama fria e aconchegou a cabeça na almofada que não se lembrava de existir. Respirou suavemente, fechou os olhos numa calma quase irreal e deixou-se levar pela fada dos sonhos.

Andreia andava de um lado para o outro no interior do seu quarto. Respirava pela boca. Um ar que lhe sabia a vidro, que cortava a sua garganta, que a encrespava os pêlos do corpo. Queria sair dali e perder-se nas suas coisas. Aquela falta era um tormento na sua alma. Não conseguiria aguentar por muito mais tempo. A cabeça doía-lhe, o corpo retesava-se pelo frio, pela culpa de não se curar, pelo sentimento de fracasso. E, por fim, gritou. Gritou até a voz sumir-lhe no pensamento. Ou até uma agulha penetra-lhe na veia do braço esquerdo. Não sentiu dor. Já conhecia aquela sensação há mais tempo do que queria. Deixou-se cair no chão, amparada por uns braços que a seguravam quase todos os dias. Adormeceu.

No outro quarto, em outro corredor, Amélia acordava. Dormira pouco mas sentia-se reestruturada, pronta para enfrentar os seus inimigos. Encostou a cadeira à porta e chamou por quem a ouvisse.

 

Continua...

Para ler o final do conto acesse ao blog Café de Ontem e leia a revista 1000 Universos.

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29
Ago 11
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Conto originalmente publicado na rubrica Estórias que matam da Infektion Magazine, a 19 de Junho de 2011.

 

A pequena insurgia-se no canto vazio da sala, apertando os braços gorduchos e revendo uma série de consultas médicas que só lhe traumatizavam os sonhos: o dos dentes, o dos olhos, o da garganta, o do pé partido. Este, dissera-lhe a mãe, era de tudo e esse tudo afigurava-se um tanto monstruoso; o tudo incluía partes do corpo que ela não queria que investigassem, embora ela soubesse, muito bem, que estavam doentes. O médico chamou-a e ela cobriu as orelhas com as mãos, tentando, inutilmente, abafar os sons das vozes e os burburinhos próprios de um consultório. Lá dentro cheirava mal: como o chão velho da cozinha da avó Celeste - um cheiro a madeira podre e a uma mistura nauseante de molhos de assados e espinhas roídas do carapau que, sem querer, saltavam dos pratos e espetavam-se nas farpas levantadas e, ainda, aos sucos doentes dos escarros do avô que não tinha educação para cuspir para um guardanapo, ou a goivo proveniente de um festim de larvas agrupadas aos molhes, nos armários húmidos. Ou, mais secretamente, uma fragrância mórbida que só ela conhecia: as amálgamas de líquidos transparentes, esbranquiçados e rosados que sobravam nos lençóis, depois… depois... depois de coisas que não queria trazer à tona da sua memória. Era; aquela sala tinha o mesmo cheiro. E isso incomodava-a porque sabia, mesmo sendo inocente, que era um odor errado, que ali só se deveria sentir bálsamos medicinais. Encolheu-se ainda mais, escondendo o rosto nos caracóis miúdos. Vem cá, vem cá, não dói nada. Odiava essa expressão que só servia para recordar que podia doer, mesmo que minimamente. Não obedeceu ao médico e encarou os olhos chateados do pai. Se ao menos viesse com a mãe, se ao menos pudesse socorrer-se com o olhar plácido da sua querida mãe. Inês, não ouves o Sr. Dr.?, vem já! Sentiu um ódio peganhento que se colava ao céu-da-boca, impelindo a língua a movimentos estranhos, quiçá a deitá-la para fora e, assim, exibir uma figura de rapariguinha mimada. Conteve-se e escondeu a boca no braço, lambendo-o como um gato, sentindo a língua tropeçar nos pêlos fininhos que o adornavam. Inês, não repito! O pai parecia um bicho enjaulado, de narinas inchadas e a camisa bastante aberta, expondo um peito escuro e marcado por cicatrizes de uma adolescência rebelde. A menina levantou-se e andou até ele, colocando os braços em volta da sua cintura. O pai elevou-a no ar e ela beijou-o, no rosto, amordaçando-lhe as fúrias. Deixou-se deitar na marquesa e apertou os olhos com tanta força que se sentiu invadida por uma cegueira branca. Relaxa, disse-lhe o médico. Mas ela não relaxou. O corpo retesou-se. Relaxa, dizia-lhe o pai. Mas ela não relaxava. Sentiu um objecto estranho invadir as bordas da sua carne magoada. Como sentira, tantas vezes, na cama, um objecto duro invadir a rosa que tinha entre as pernas. Comeu a dor como tantas vezes suportara dores semelhantes. Sentiu o corpo adormecer, levado por uma maré de movimentos leves que sussurravam, baixinho, melodias de dormir. Deixou-se estar daquele jeito, quieta, entre o limbo da dor e da letargia. Então, Dr.?, perguntou o pai. O aborto está feito; para a próxima tenha mais cuidado. E a menina vomitou, horrorizada pela ideia de haver uma próxima vez.


22
Ago 11
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- Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais bonito do que eu? - pergunta Manuel diante do antigo espelho. Era o único objecto naquela sala - uma sala com oito metros quadrados e seis janelas cobertas por cortinas poeirentas.

- Duvido que te responda… Para além disso eu sou mais bonito - responde Luís, com um piscar de olhos.

- Vou explorar o resto da casa. Vens?

- Já vou…

Manuel sai e Luís coloca-se diante do espelho, lembrando as palavras do amigo. Poderia não ser o homem mais bonito do mundo mas era, de facto, o mais interessante daquela zona. Agora que o tio solteiro morrera e lhe deixara aquela mansão, sentia-se realizado. Trabalhava numa empresa conceituada, tinha as mulheres que queria, conduzia o último modelo da BMW, viajava, usava roupa de marca. E agora aquela casa incrível. Só lhe faltava uma coisa. Deixar de visitar o Dr. Teles, de tomar aquela medicação, de ter aqueles momentos ruins.

É isso que queres?, pergunta o seu reflexo.

Sim, é, responde Luís.

No entanto, o reflexo não se mexera. Luís cede, dando um passo atrás. Luís, o reflexo, continua no mesmo sítio, de sorriso nos lábios e uma mão encaixada na algibeira das calças.

Mas como…?, pergunta Luís, o verdadeiro.

Decide antecipar a pergunta e caminha quatro passos para trás. Luís, o reflexo, baixa a cabeça e dá uma gargalhada de troça.

Quem és tu?

Eu sou tu.

Mas porquê não te mexes como eu?

Luís, Luís, Luís…já te esqueceste porquê que vais uma vez por semana ao Dr. Teles? 

Não, não esqueci.

Silêncio, total e absoluto.

Então diz-me.

O que?

Diz-me a razão que te leva ao Dr. Teles.

Novamente o silêncio, intercalado por uma respiração de medo.

Porque sofro de dupla personalidade.

Luís olha para o reflexo e, como um clique que se instala no cérebro, entende a pergunta.

Tu és eu, o meu outro eu?

Sim. Destrói-me, destrói-me e a tua vida será perfeita.

Sem pensar duas vezes, Luís atira-se ao espelho que se desfaz em pedaços, como um castelo de cartas que cai numa sala com correntes de ar; como um puzzle que não quer ser montado.

Manuel aparece:

- Luís?! Que te deu na cabeça em partir o espelho?! Mas tu és louco? No testamento dizia que se, por um acaso, o espelho partisse, tu perdias a casa…Oh Luís, que foste tu fazer?

Silêncio, pesado silêncio.

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15
Ago 11
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I


São quase duas da manhã. Ouvem-se uns risos abafados da sala do café. Duas colegas dela fumam e contam peripécias da sua vida doméstica. Sónia não tem filhos, nem cão, nem tem de fazer sopa para toda a semana. Nem pensa dar uma lipoaspiração como prenda de Natal a ela própria. Senta-se numa cadeira rotativa atrás de um balcão. Daqueles balcões que existem em todos os serviços públicos. De madeira meio riscada e muitas canetas e papéis espalhados. Levanta-se e estica o corpo para espreitar o corredor. Está vazio. De vez em quando ouvem-se os passos de um doente ou outro que fica sem sono e lá vai até à sala de televisão, dar uma volta ao bilhar grande.
Quatro da manhã. Os quartos estão todos escuros. Alguns doentes respiram alto e largam ais. Agarram-se às grades da cama e viram-se de lado. E quando sentem as enfermeiras chegar em seu redor, perguntam que horas são, se a noite ainda demora muito a passar.
A Sónia vai para casa e sonha com corpos, com massas de sangue ocluíndo orifícios. Olha para as pessoas como quem olha para um braço ou uma perna, com veias obesas ou temperatura fria quase necrótica. Decifra na televisão da sala traçados cardíacos arrítmicos e alarmes luminosos que piscam e piscam e que a fazem mudar de canal. E será isto uma doença? Um estado mórbido com o qual terá de viver, com o qual escolheu partilhar o seu próprio corpo? Chega à rua e fica contente por ainda respirar ar frio e ver o Sol e a Lua. Sentir o prazer de conduzir de janela aberta e vento áspero na cara. E anda nesta giga-joga de medos e quereres, sente o corpo diferente e pensa que pode ser hóspede de uma pseudomona ou de um estafilococos que ainda não deu o seu ar de graça e permanece escondido nas suas secreções.
Quatro e trinta. A enfermeira Sónia dá uma volta pelos quartos, os soros correm, os traçados sinusais, as bocas soltam roncos de descanso. Um dos seus doentes é político, lê até horas tardias e tem sempre a mesa-de-cabeceira desarrumada. Mas de resto é igual a todos nós, dorme de olhos fechados e encolhe-se como os animais quando sente dor. Sónia lembra-se das explicações da avó (sentada ao seu lado, no sofá de napa verde), enquanto ela dava um olho pelo relatório do seu ecocardiograma. Que o nosso corpo era como um carro, de vez em quando precisava de mudar de peças. E se ela tivesse uma válvula a mais era a avó que a dava.
Quatro e quarenta e cinco. Um barulho de água a pingar no chão, um doente que urina à porta do quarto. E Sónia pensa que está a sonhar, que tudo não passa de um sonho estranho. Como daquela vez que sonhou que em querendo voava. E quando acordou queria, mas não conseguia. Nem sempre o mundo faz sentido.

 

II

 

Hoje o António sai  tarde. Passou toda a manhã na cama, é verdade, almoçou com tempo e tomou um banho calmo, quente e vagaroso, pegou no carro e chegou ao trabalho faltavam ainda dez minutos para as seis da tarde. Bebeu um café e fardou-se, picou pontualmente o cartão às 18:15 e procurou o chefe de turno, que numa voz rouca de velho lhe indicou o bloco, dois andares de escada a cima, onde iria passar a noite.
António trabalha numa prisão. Tem trinta e poucos anos, acho que não importa. Vive sozinho num apartamento que ainda hoje paga, 50 contos é quanto lhe custa a  independência, o seu reduto de solidão, o chão almofadado e quente da sua cela solitária. Tem amigos, claro que tem. Convidam-no sem o visitar, telefonam-lhe alguns quando faz anos, perguntam-lhe como vai a Rita, para quando os miúdos, para quando o encontro de casais na praia de Ílhavo, para quando o tempo que afirma sempre não ter. António ri-se baixinho daquilo, das coisas sem nexo, diz sempre que agora não pode ser, tudo muito complicado.
Não que não hajam miúdos ou Rita, ambos existem mas sem serem do António, há talvez um rasgo da história que prefere ainda hoje não contar, uma história que esconde como o seu corpo de toda a gente, com medo que o atraiçoe com um suor na cara, um tremer de mãos, um engolir em seco de angústia, que os olhos digam o contrário da boca, que o corpo o traia como ela o traiu e não haja então confiança em nada e fugimos cada um para seu lado como partículas que se repelem e por isso António tem medo, como faria então para fugir da traição do seu corpo?
Quando o turno acabar já será outro dia e calmamente chegará a casa, largará ao acaso os sapatos e, no silêncio da sala, António espoja-se no chão, procura uma bebida numa garrafa que talvez já nem exista, irá rastejar novamente sobre cardos que o queimam por dentro, escorregando no seu próprio choro, na sua própria imbecilidade que o cega de medo, e amanhã de manhã vai passar a manhã na cama, almoçar com tempo e tomar um banho calmo, quente e vagaroso, que o há-de de levar ao fim dos seus dias.



III


Na próxima semana a folha de turnos indica que António entra ao serviço de manhã, na portaria da prisão. De tudo o que por ali se faz é o que gosta mais, poder ver todo o dia o sol, quem chega para as visitas e aquele conforto, aquele carinho enorme por ver alguém de rosto assustado, de mala na mão a ser entregue ao mundo, para nele começar de novo nos braços de alguém que do outro lado da cerca o espera, de sorriso nos lábios e coração aberto, não acreditando que já é hoje este dia.

António estava quase a sair, faltava poucos minutos para as seis da tarde. Uma briga entre reclusos obrigou António a intervir. Eram muitos, os guardas prisionais, seus colegas estavam longe, e António ao tentar separar a briga fora esfaqueado. Não se lembra do depois. Lembra-se que acordou numa cama estranha, perante uns olhos verdes estranhos. A mulher, vestida de verde, perguntou-lhe: “sente-se bem?”. O António acenou com a cabeça.

A mulher de verde não lhe perguntou como vai a Rita, para quando os miúdos, para quando o encontro de casais na praia de Ílhavo. Apenas lhe disse. “Olá, o meu nome é Sónia”. O António pegou-lhe na mão e perguntou-lhe: “Às vezes também sonha que em querendo, pode voar?”. Os olhos de Sónia brilharam e ela disse: “Sim, porque o pergunta?”. O António pegou na mão da enfermeira com mais força e disse-lhe: “Encontrei-te num sonho meu e voámos os dois”.

A solidão de um foi preenchida pela solidão do outro. Agora, Sónia já tem filhos, um cão, e  tem de fazer sopa para toda a semana. Ao António, os amigos continuam a convidá-lo sem o visitar, telefonam-lhe alguns quando faz anos, perguntam-lhe como vai a Sónia, para quando mais miúdos, para quando o encontro de casais na praia de Ílhavo. E António continua a desculpar-se com o tempo e nem sempre o mundo faz sentido.

 

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Paulo Larssen cresceu nas margens do Tejo, à beira da cidade de Montijo, há 25 anos. Foi entre o cheiro do rio, os pescadores e a influência da mãe, de origem dinamarquesa, que também escrevia que começou a escrever as primeiras coisas. A escrita cresceu e amadureceu.

Formou-se em Comunicação e jornalismo e trabalha na área da produção de moda. Escreve com e por amor às coisas simples da vida.

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08
Ago 11
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Naquela manhã de Setembro, de chuva miudinha, as turmas apresentavam-se aos professores. A turma C do 10º ano preparava-se para a primeira aula de Educação Física. O professor tardava. Os rapazes gritavam as hormonas pelo campo de futebol. As raparigas travavam diálogos de conhecimento.

- Não jogas? - pergunta Luís a um outro rapaz.

Ele suspira e ajeita os óculos à cara. - Não sou adepto desse tipo de actividades. Aliás, eu e a Educação Física não somos bons companheiros - responde, suspirando novamente, como se a vida lhe pesasse na alma.

- Pois… eu também não.

Os rapazes olham-se e trocam um sorriso cúmplice.

- Gostas de fazer o quê, então?

Desta vez, um mirar ao alto. Os olhos tocam no céu, como se pedissem permissão a Deus para responder àquela pergunta. - Escrevo. Todos os dias, sempre que me apetece.

Luís abre a boca, sem dar por isso. Finalmente, alguém que compartilha o seu gosto pela escrita.

- Escrevi um livro e consegui uma editora que o publicasse - murmura baixinho.

- Uau! - exclama Luís. Queria ser escritor. Poder ver as suas obras expostas nas bancas de livrarias conhecidas era um sonho mais antigo que o seu próprio nascimento. No entanto, e apesar de escrever muitas vezes, ainda não tinha nenhum livro escrito. - É sobre o quê? - pergunta, fascinado com aquela presença quase divina, à sua frente.

- É sobre acreditarmos em nós próprios, nas nossas capacidades e atributos. É sobre acreditarmos que, aliada às nossas qualidades, está uma entidade que nos guia e protege e que, crendo piamente na sua existência, ela nos ajudará a alcançar tudo aquilo que pretendemos.

- É sobre religião, então?

- Se assim o quiseres chamar - responde, olhando para dentro dos olhos de Luís. - E tu? Também gostas de escrever?

- Adoro. Mas ainda não tenho nenhum livro. Ideias não me faltam mas não sei se valerá a pena perder tempo a escrevê-lo para depois ficar guardado numa gaveta.

- Escreve! Não penses nos ses. Acredita em ti, no que tens dentro de ti e escreve. Não destines o teu destino sem ele estar sequer, ainda, destinado. Nunca desistas!

E com estas palavras, o toque de saída soou. O professor não aparecera. Despediram-se e Luís foi para casa. Escreveu sem parar e foi feliz assim. O outro rapaz? Bem, esse nunca mais apareceu.

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01
Ago 11
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Uma mão cheia de contos para vocês, queridos leitores que merecem o melhor.

Cliquem e escolham. Prometo que não se arrependem.

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25
Jul 11
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Dia de calor. Um centro comercial. Dois homens num elevador.

- Podiam colocar outra musiquinha.

O outro encarou-o de alto a baixo. Era irónico que um louco vestido a super-homem pudesse dizer mal daquela música. - Que tem contra ela?

- Não tenho nada contra. Simplesmente não gosto.

- Mas não gosta porquê?

O homem da capa vermelha olhou directamente para o outro e uma manifestação de compreensão deslizou pelo seu rosto abaixo. - Espere lá. Você é o autor desta música, não é? Jorge…

- Palma. Sim, sou eu.

- Muito prazer. Sou o Super-Homem.

- Prazer… Ainda não me disse porquê não gosta da minha música.

- Bem, não gosto porque a sua voz não é bonita. Não me diga que se considera um Elton John! E depois esta letra, não sei, parece-me estranha. Para quê é que o senhor pede tanto que se encostem a si? Por acaso sofre de algum problema de auto-estima?

Jorge Palma encontrava-se muito corado e avançou em direcção à porta quando esta deu sinais de que iria abrir.

- Para onde vai? - perguntou o outro. - Quer fugir dos seus problemas? Sente-se aqui e vamos ter uma conversinha - pegou no cantor e sentou-o a um canto do elevador. - Diga-me o que lhe vai no coração.

- Mas...

- Mas nada. Eu tirei o curso de Psicologia e sei o que faço. Diga-me, sente-se pouco amado pela sua mulher?

- Bem…

- Então é isso, não é? - entretanto, já tirara um caderno da sua cueca exterior e começara a rabiscar. - Continue. Sente falta de quê?

- Eu…

- Os seus filhos, com certeza, não lhe ligam nenhuma.

- Eu…

- Pois, eu sabia. Os filhos são uns ingratos. Nunca os tive mas sei do que falo. Olhe, porquê não arranja uma amante?

- Mas…

- Ah, já tem uma. Seu safado. E mesmo assim ainda pede que se encostem a si? O senhor é um insatisfeito. Julga-se muito bom, não?

- Não…

- Ainda por cima não admite aquilo que é. O senhor é doente. Quantas vezes tem relações sexuais por semana?

- Hum…

- Já lhe perdeu a conta, não é? E que outros vícios tem? Cheira-me a álcool…

- Não…

- É alcoólico, portanto. E gosta de jogar um pokerzinho, não?

Jorge suspirou e afundou-se no canto. O dia iria ser muito longo.

 

*conto escrito no âmbito do Campeonato Naciona de Escrita Criativa, em que era para criar uma história onde entrasse Jorge Palma e o Super-Homem.

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18
Jul 11
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O som ecoou por toda a galeria. Estilhaços voaram como lanças à procura de um sítio onde repousar. O corpo do jogador de futebol cedeu aos golpes na carne e tombou. Houve gritos. A Guernica de Picasso encontrava-se totalmente exposta a mãos que quisessem agarrar e, pior, estava destruída quase por completo. Um bando de gente aproximou-se do local. Um dos seguranças afirmou a sua autoridade, questionando os presentes pelo sucedido.

- Eu vi tudo - aprontou-se a responder um sujeito. - Este louco… - disse, apontando para um rapaz que escondia uma ferida na mão. - Este louco partiu o vidro com intenção de matar o homem.

Os olhares percorreram o metro quadrado onde se encontrava toda a agitação e encontraram o possível criminoso. Ele tinha, de facto, aspecto de quem cometera uma loucura. Transpirava abundantemente e o lábio inferior tremia de quando em quando. Estava nervoso, isso é certo.

- É verdade o que diz este senhor? - inquiriu o segurança.

O rapaz não respondeu. Ajoelhou-se perante o olhar incrédulo de quem assistia e caiu num pranto de lágrimas grossas e palavras incompreensíveis. O ferido, no chão, gemeu de dor.

- Foi ele sim! - reafirmou o homem. - Eu nunca vi nada assim. Nem nos meus livros descrevi uma forma de matar tão estranha. E olhem que sou um escritor consagrado.

Um murmurinho crescente preencheu a sala. O segurança prontificou-se a chamar uma ambulância, enquanto o jogador de futebol lamentava as suas agonias com latidos de angústia. O outro, o tal que partiu o vidro, continuava a chorar, na posição de quem cumpre uma promessa a Deus. Os coleccionadores gritavam, furiosos, pelos danos irreversíveis no quadro. Os menos apreciadores de arte comentavam a situação. Alguém chamou a televisão. O escritor chamava as atenções para si e para os seus livros. Um forrobodó dos diabos.

- Corta! - vociferou um sujeito de boné e barba de quatro dias. - Mas que merda é esta?! Parece uma comédia barata. Tu aí no chão. Que gemidos são esses?! Soas a falso. E tu de joelhos. Choras que nem uma menina. Não esqueças que és um professor de educação física e não uma bicha. Pelo amor de Deus, anda aqui um homem a tentar fazer uma novela de sucesso e tem de levar com badamecos desta categoria. Haja paciência! - suspirou, expelindo um hálito a tabaco incrustado há anos.

 

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A Menina da Biblioteca também escreve aqui:
"Estórias do Arco-da-Velha"