Como é o vosso Paraíso? O meu tem forma de Biblioteca.
OS MEUS LIVROS: |Distúrbio| |Antologias|

19
Dez 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

- Marcela. Em que lhe posso ser útil?

O coração subiu pela traqueia e estacionou na boca, impedindo a língua de responder. Três gotas de suor derraparam pelo escorrega do pescoço e empaparam a camisa branca. Desligou a chamada e sentou-se, fazendo exercícios de respiração que nunca acalmavam e só relembravam a sua nulidade enquanto homem. Limpou o copo, encheu-o de cerveja, remoeu um punhado de amendoins, passou pelos canais de televisão duas vezes, apagou a luz e escolheu um canto escuro da sala. Varreu-o e sentou-se, cruzando as pernas e marcando o número. Fechou os olhos e esperou.

- Marcela. Em que lhe posso ser útil?

Concentrou-se na voz: feminina, irrequieta, borbulhante - uma voz que, se pudesse beber, seria champanhe e faria cócegas na sua garganta. Desenhou o seu rosto numa só pincelada imaginativa. Tinha cabelo castanho claro, olhos amendoados num tom escuro, pele branca. Vestia o 40 de calças, um L de blusa, e os seios redondos tinham dificuldade em encontrar um soutien decente. Gostava de roupa interior sem grandes folhos ou dificuldades, tomava banho todos os dias, e andava sempre cheirosa. Roía as unhas, tinha uns dentes brancos e ainda não dera com o jeito de encontrar a forma perfeita das suas sobrancelhas. Sim, fazia a depilação em casa.

- Marcela, depilas-te toda?

Um silêncio do outro lado recebeu-o sem meiguice. Ouviu-se um estalo com a língua, ou talvez a bola de uma chiclete que rebentava e, por fim, ela respondeu.

- Sim, querido.

Ele abriu os olhos, limpou o copo, bebeu um pouco da cerveja, comeu um amendoim. Desligou a chamada. Na sua cara: a desilusão. Acendeu as luzes, espreitou a varanda, suspirou, acendeu a televisão, passou três vezes pelos canais. Depois, foi até ao quarto, esticou-se na cama, fechou os olhos, marcou um número e esperou.

- Sandrinha ao seu dispor.

Mel. Uma voz de mel. Daquelas que escorre, que emporcalha, que deixa nódoa. Cabelos pretos, pele chocolate, boca de morango, uns olhos profundos, cheiro a caramelo. Magra, pouco alta, rabo empinado, seios pequenos. Provavelmente um piercing no umbigo, três sinais na coxa e uma tatuagem ao fundo das costas. Uma cicatriz no braço, uma pulseira no pé esquerdo, um colar com um coração ao pescoço. Orelhas mal lavadas, dentes tortos e uma barriga bem definida.

- Sandrinha, depilas-te toda?

- Não, querido.

As pálpebras mantiveram-se fechadas e um sorriso aflorou-se na sua boca. Suspirou como quem bebe o ar pela última vez. Viu Sandrinha na sua cama - nua e fêmea - pernas abertas, olhar guloso, suja por outros homens, mastigada pela vida: puta. E ele, animal, manchando-se nela, borrando a sua pele imaculada na saliva dela, lambendo as suas bactérias, o azedo da sua boca, o avinagrado da sua gruta, o esgoto da sua alma. No lânguido gozo da sua imaginação, veio o orgasmo, em segundos, quente e espasmódico.

- Quer companhia, querido?

Beeeeeeeeeeeeep. Fim da chamada.

O homem lavou-se, escovou os dentes, vestiu o pijama escrupulosamente dobrado, esticou os lençóis, ajeitou as almofadas, expulsou poeiras transparentes da cama, desinfectou as mãos e deitou-se. Deixou a luz acesa, inspeccionou o tecto à procura de rastejantes, sossegou o corpo e adormeceu.

 

Publicado, originalmente, na Revista Benfazeja.

tags:

12
Dez 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

- Deita-te aí mesmo e não digas mais nada - pediu, com a voz cravada de carinho.

- Temos cinco minutos - disse, olhando para o relógio de parede que marcava as 17h55.

- Amo-te em cinco minutos... - respondeu, baixando as calças e as cuecas, expondo a sua virilidade.

- Espero que não seja assim todos os dias - e as mãos rapidamente desapareceram com as calças de andar por casa.

- Não. Mas hoje preciso amar-te em cinco minutos - respondeu, aproximando o corpo semi-nu ao dela, que já se encontrava preparado para recebê-lo.

- Quatro minutos - sorriu.

- Chiu… - e afirmou o silêncio com um inundar de doçuras pelas bocas.

Penetrou-a como um dono que chega à sua propriedade querida. Movimentou-se devagar, sorvendo com a língua a meiguice da boca que o recebia e sentindo, lá em baixo, varejos de uma vida perfeita em amor. Sessenta segundos neste vaivém de brandura bonita. O relógio avançou e o tempo apertou. Ela gemeu. O homem aumentou o ritmo, louco pela viagem desenfreada que enfrentava. Viu as nuvens transformadas em cetins. Um cheiro baunilhado. Um gosto a algodão doce. O chamar de sereias nuas. Sessenta segundos neste sonho tão real.

  - Rápido… - pediu a rapariga, num gemido.

O tempo roeu-se novamente. As bocas apertaram-se e as respirações tornaram-se vadias. Unhas foram cravadas na carne. Uma madeixa de cabelo apertada na mão pesada. Sessenta segundos explodidos em paixão. Dele, dela. Nele, nela.

- Veste-te rápido.

Taparam os corpos e limparam indícios. Beijaram-se com volúpia. A porta abriu.

- Papá, mamã. Meia-noite! É Natal, é Natal, é Natal – gritou, aos pulinhos.

A mulher sorriu, corada por um tesão antigo. O homem recebeu o pequeno nos braços e deu-lhe um enorme abraço.

- Pois é, meu querido. Vamos abrir os presentes?

Duas luzes brilhantes acenderam nos olhos do menino e a mãe pegou-o ao colo.

O tempo seguiu o caminho.

 

Publicado, originalmente, na revista Benfazeja.

tags:

28
Nov 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Batia as natas e elas obedeciam pelo facto de não estar menstruada nesse dia. O branco formava uma espiral na fúria dos socos e, depois, deslizava pelas paredes da taça, formando um lago leitoso de onde nasciam pequenas bolhas de ar rescendidas.

- Saudades. Porquê saudades?

Olhou para a televisão pequena da cozinha, para a imagem mergulhada num arroz claro, tremido e, de vez em quando, por uns solavancos sonoros que cortavam as frases interessantes. Falavam sobre qualquer coisa relacionada com a guerra: uma vitória, parecia. Um ânimo acomodou-se no peito, inchando-o de mais saudades ainda.

- Mas porquê saudades se nem te tive?

Às natas juntou o queijo em pedaços, um molho de ervas aromáticas, quatro pedras de sal, dois lisos alhos finamente laminados e umas poeiras de pimenta. Bateu novamente. Expulsou o ar do peito, jogando aquela saudade desoladora nas paredes da casa, obrigando a que as figuras dos quadros chorassem, a que as fotos de familiares falecidos suspirassem, a que as flores nos vasos murchassem. Após frenética expurgação de sentimentos na nata e com o medo sincero de que azedassem, meteu o dedo no branco e provou. Não estava mau. Mas aquela saudade ficara ali, mergulhada, embrulhada em proteínas, gordura e vitaminas. Por fim, três toques húmidos fizeram estremecer a porta e o seu próprio corpo. Limpou as mãos ao avental e abriu-a.

- Maria do Céu, bons olhos a vejam, que eu julguei nunca mais pôr-lhe a vista em cima e, tantas noites, sonhei que morria a meio de balas e aviões e bombas e invasões, e nunca mais veria essa dengosa figura de carnes macias, e sedosos cabelos e cozinheiras mãos.

O rosto da rapariga ruborizou-se e a respiração saiu como o canto de um passarinho recém-nascido a quem as alturas pesam nas asas frágeis e medricas.

- Maria do Céu, voltei mas regresso. E isso é um fado que carrego: saiba que morrerei. Porque na guerra ninguém escapa. E mesmo que sobreviva, voltarei com menos uma perna, ou um braço, ou apenas tronco, ou sem juízo. E, Maria do Céu, se sou homem agora é agora que a quero ter.

Para dentro de casa, quase que atropelando a asmática mulher, entrou o rapaz com os olhos famintos e o coração na boca. Com a porta fechada e as cortinas cerradas, o corpo de Maria do Céu encostou-se ao seu e ele, calculando áreas e perímetros e altitudes, colocou a sua boca na dela, untando a sua língua com o mel sensual que era a sua saliva.

- Maria do Céu, que bem sabes, mulher.

Ela perdeu as forças e entregou-se, fêmea e assustada, àquele homem que ardia. No chão da cozinha repousaram as roupas dele e dela. Na mesa, por entre taças, talheres e ingredientes, o corpo de Maria esticou-se. O esfomeado mordeu as duas ameixas que se erguiam, vermelhas e brilhantes, abaixo do pescoço delicado e branco. Depois, com lábios pesquisadores, ele desceu, deu a volta, fez marcha atrás, subiu, desceu, sugou, lambeu e, por fim, estacionou a boca no abismo macio do triângulo que as suas pernas formavam.

- Ai, Maria do Céu, que me desonras o discernimento.

E lá mergulhou, guloso, no pêssego de pele peludinha, fazendo com que Maria chegasse ao céu - finalmente, Maria do Céu! - e soltasse um grito, um suspiro de glória, de melodia, de traqueia inflamada, de voz comida, de corpo febril.

- Maria do Céu, que eu morra agora aqui, na explosão da tua felicidade.

 

 

Publicado, originalmente, na Revista Benfazeja.

tags:

21
Nov 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Estou fodida. Derrotada, inútil. Perdi a oportunidade. O tempo escoa na pista do aeroporto, naquele maldito avião que não quis transportar o meu futuro a um porto seguro. E deixou-me ficar aqui, sentada, nas cadeiras onde as pessoas sonham e lêem os mesmos autores de sempre, e ouvem música e ingerem uma sandes porque a dos aviões vem com uma mistela que ninguém entende o que é. Sinto-me assim - uma mistela. Uma confusão, um não saber quem sou. E choro porque sei que os passos que dei até aqui foram inúteis. Inútil, a palavra que melhor me define neste momento. Fodida nem tanto. Há quanto tempo não estou com um homem? Há quanto tempo, Sara? Sinto-me corar e olho em redor. Felizmente, ninguém repara no meu rubor salgado de lágrimas e quem olha, desvia logo o olhar. Pensam que me despedi de alguém, com certeza. Um amor que partiu numa viagem de negócios, um filho que foi para a faculdade, um irmão que foi destacado para uma missão militar. Não, minha gente, nada disso. Esta mulher que aqui vêem, borrada de maquilhagem, de olhos vermelhos, cabelo impecável e conjunto saia-casaco, não tem marido nem filhos e os irmãos estão longe e há muito tempo que não sabe deles. Há quanto tempo não estás com a tua família? Há quanto tempo, Sara? Retiro um lenço da minha mala e assoo-me, com força. Ao longe, um pai faz o mesmo à filha pequena e segura-a pela mão enquanto seca as suas lágrimas. A miúda caíra mas tinha quem a amparasse. E eu? Tu, Sara, não tens ninguém, absolutamente ninguém. Nem o gato que tenho em casa gosta de mim. Prefere passar os dias solarengos na casa da vizinha e, quando chove, desaparece. E as plantas, as plantas que é só deitar água, que não precisam de bons dias, nem beijos ou pão quente, nem dessas consigo cuidar. E depois acabo assim: sozinha, num aeroporto, com o fim da minha carreira à vista. E pergunto-me: valeu a pena? Não, não valeu. Assinei a minha sentença de solidão no dia em que me esqueci de viver.

- Menina, está tudo bem?

Olho e vejo um homem bem-parecido por detrás da água que me turva os olhos.

- Precisa de alguma coisa?

Ele sorri. Um homem, finalmente. Alguém que se preocupa comigo.

- Preciso.

Pode ser que à noite possa dizer, literalmente: Estou fodida.

 

 

Publicado, originalmente, na revista Benfazeja.

tags:

14
Nov 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Ela olhou duas vezes para o bocado de papel e confirmou a morada. Estava atrasada dez minutos e isso poderia traduzir-se no fim do que ainda nem começara. Ele fora bem explícito. 20h, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Encontrou a rua e depois a porta. Apertou o casaco ao corpo e entrou. Lá dentro cheirava a madeira velha e as escadas rangiam à medida que os passos avançavam no escuro. O coração bombardeava um sangue quente e louco. Chegou ao quarto, inspirou fundo e bateu. Não demorou para que abrisse, como se a esperasse atrás da porta. Estás atrasada. Eu sei, desculpa. Do nada, num contraste súbito entre a aspereza da voz e o golpe do seu abraço morno, encostou-a a si. Beijou-a sem avisos. Uma anestesia contra o frio do inverno, contra o desconhecido daquela cidade que a recebia pela primeira vez. Ela conhecera-o nesse mesmo dia e ele deixara bem claro que seria das poucas pessoas dispostas a ajudá-la. Não fora simpático, nem encantador. O sorriso não aparecera e os olhos, duros e penetrantes, não aqueciam. No entanto, ela soube que com aquele homem seria capaz de ir até ao inferno. Esperei tanto por ti. Ainda bem que apareci, então. E os beijos tornaram-se ferozes, como se travassem uma luta corporal. Era impossível saber que braço era o dele, que braço era o dela. Tinham o mesmo tom de pele, a mesma ausência de pêlos. Os cabelos navegavam por ambos os corpos, não havia o dele e o dela. As mãos atravessavam costas e barrigas. Conheciam-se, saboreavam-se, como se o amanhã pudesse não existir e era importante descobrir tudo. No ar, o cheiro a sexo, a saliva, a suor. Na cama, lençóis que se iam desfazendo. No chão, o soutien, a saia e a blusa. O casaco ficara à porta. Ela ainda envergava as cuecas e, por cima, umas meias quase transparentes. Ele não tinha nada. És linda. Tu também não estás nada mal. O amor surgia assim. Sem a primeira simpatia, sem o primeiro sorriso. O amor começava no sexo. Começava, permaneceria e, provavelmente, acabaria no sexo. As meias foram rasgadas, as cuecas caíram sobre o resto da roupa e ela gemeu, ele gemeu, o quarto deixou-se ficar quieto, a lua baixou o brilho, dando a intimidade que eles precisavam e os orgasmos vieram minutos, horas, dias, anos, décadas depois.

tags:

07
Nov 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

- Passe-me a mão direita, mãe.

A senhora, sentada na poltrona de veludo verde-escuro, permaneceu estática. No sorriso miúdo via-se uma espécie de gozo, como as crianças que desobedecem e sentem prazer nisso. Os dentes, da placa cara e antiga, escondiam-se atrás da cortina dos beiços pálidos e, por cima, um bigodinho ralo e negro, sombreava aquela pele branca de neve. Os olhos estavam fechados.

- Oh mãe, nunca faz nada do que eu peço.

Cristina puxou o braço da mãe, carinhosamente, mas com uma certa firmeza, para a velha ver que, ali, quem mandava era ela, a filha: as tais ironias da vida. Passou o pincel na unha maior, tornando o amarelo sujo da unha gasta num vermelho vivo, demasiado extravagante para aquela mulher.

- Hoje é um dia especial, mãe. Vais conhecer o meu namorado.

As unhas foram todas pintadas e, depois, a velha mulher ganhou mais cor no rosto, com a ajuda das maquilhagens que Cristina coleccionava. Não mudou de roupa - estava bem assim, no seu conjunto azul-escuro. Usava-o muitas vezes. O cabelo foi penteado para trás; nas orelhas pendiam umas pérolas pequenas e, no anelar, uma jóia em ouro luzia sob o reflexo da vela acesa.

- Acho que vais gostar dele!

Cristina beijou a mãe e foi, ela própria, preparar-se para o jantar. A mãe ficou sozinha na sala, como tantas vezes ficava desde o acidente. Guardada no escuro, fazia companhia aos móveis e às plantas. Às vezes, antes de sair para trabalhar, Cristina ligava a televisão, colocava o volume na medida certa - o suficiente para ouvir ou para deixar dormir - e ajeitava as almofadas da mãe, para que ela ficasse direita. Muitas tardes, quando Cristina voltava, a senhora estava tombada para a frente ou para o lado. Coisas do cansaço ou da gravidade que, como se sabe, não perdoa a idade. Mas Cristina, com a sua doce paciência, endireitava a mãe, dava-lhe um beijo e ia preparar jantar. Sentavam-se juntas na mesa da cozinha, após Cristina quase deslocar a bacia para poder levar a mãe até lá, e conversavam sobre o dia. Bom, Cristina falava porque a velha não tinha muito o que contar.

- Estou pronta, mãe. Que achas?

A senhora não pronunciou nenhum som, apenas aquele sorriso que, conforme o humor de quem o recebia, poderia ser bonito ou irritante. Pelo brilho dos olhos de Cristina, ela estava feliz e o sorriso tinha sido a resposta perfeita à sua pergunta. Pegou na mãe, um braço à volta da cintura e o outro detrás das costas e foram, ambas quase a rasgar a alcatifa com os saltos, até à sala de visitas, aquela que só era usada em dias muito importantes. E quando digo muito importantes não consigo exprimir por palavras quão especiais são essas ocasiões: como o dia do acidente. O irmão de Cristina ia casar. Estavam todos, naquela sala, a dar beijos e abraços e a fazer recomendações. Telmo, o irmão, apertava os atilhos dos sapatos; Cristina arranjava o chapéu; a mãe rezava, baixinho, com o nó da separação na garganta; o pai disparava imbecilidades para o ar. Saíram juntos, foram no mesmo carro e, a cinco minutos da igreja, um grande camião chocou com o carro. Telmo teve morte imediata. A mãe e o pai ficaram em coma durante longas semanas. Cristina, como se tivesse roubado a sorte de todos os outros, apenas cortou a bochecha.

- Mãe, ele chegou.

Cristina voou até à porta. O ruído de um beijo repenicado chocou nas paredes daquela casa que, há muito, não conhecia esses sons do amor. Cristina apareceu, com o rosto banhado de felicidade, ao lado de um homem baixo e pouco atraente.

- Mãe, este é o J.P.

O homem engoliu em seco e apertou o tecido do casaco. Analisou aquela mulher: como era feia - o cabelo teso pela laca em excesso; o sorriso mesquinho; os olhos pequeninos, quase fechados; a pele branca que, se olhássemos bem, podia ser cinzenta; o cheiro a podre entranhado num fato velho e castigado pelo uso. O vómito subiu-lhe à garganta. Nunca estivera tão perto da morte como naquele momento. J.P sentiu as axilas ensoparem em suor. Estava preparado para qualquer tipo de sogra, menos para aquela. Uma sogra defunta era tudo o que não queria. Isso, e uma namorada louca.

 

 

Publicado, originalmente, na revista Benfazeja.

tags:

24
Out 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Senti um leve escaldão na pele. Nada que magoasse mas que incomodava. Levantei as pálpebras e bati com os olhos nele. Ele admirava-me. E nesse olhar não havia qualquer tipo de contenção. Ele olhava-me com a vontade de um alcoólico. Era como se me bebesse. Deixei de me sentir mulher e passei a fazer parte dos vinhos. E quanto mais ele me olhava, mais me sentia bebida. Não sei, sentia-me deslizar pela sua garganta, dividindo-me pelas suas veias. Eu era o tinto que corria no seu sangue. Depois, com um piscar rápido, o seu olhar mudou. Já não era o de uma fúria sedenta de quem precisa colmatar um vício. Não, agora era mais requintado. Já não se tratava de uma necessidade mas sim de um prazer. Confesso que me senti invadida. Ele degustava-me com os olhos pequenos. De vez em quando sorria, como se cumprimentasse o chef pela magnitude do prato. É isso mesmo, passei de bebida a refeição principal. O comboio parou, nem sei em qual estação. Eu tentava arranjar maneiras de não encarar a satisfação com que ele me olhava. E, no entanto, senti que não havia necessidade em pedir para parar. Na verdade, estava a gostar do galanteio e sei que, mesmo que o confrontasse, o olhar não mudaria. Ele estava faminto, não sei ao certo de quê, mas a sua fome não deixaria de transparecer no castanho dos olhos. Era um homem bem mais velho do que eu. Isso, só por si, bastaria para que eu resmungasse para o ar palavras de desconforto. Porém, não aconteceu. Ele tinha em mim um poder quase sobrenatural. Fechei os olhos, numa tentativa de abstracção, e encostei a cabeça ao vidro. Foi aí, como se os sons se calassem, que eu senti o ressoar da sua respiração. Forte, pesada, a respiração de um homem com necessidades íntimas. Corei. Não sei porquê mas corei. Poderia muito bem comparar aquele respirar a um toque de devaneio, quase de pecado. Abri os olhos, tive de os abrir. Estava a sufocar em vários sentimentos. Ele continuava ali, a encarar-me, a lamber-me com a vista. Sobremesa. Olhava-me como se eu fosse uma fatia de bolo deliciosa. Foi o olhar que mais me incomodou. Estremeci, até. Ou eu estava muito enganada ou aquele homem acabara de se apaixonar por mim.

- Hannibal Lecter - disse-me, estendendo a mão grande. - Muito prazer.

 

Publicado, originalmente, na Comunidade Literária Benfazeja.

tags:

17
Out 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Na sala, o ar pesado e húmido embaciava as escassas janelas. Havia muita gente, sentada e em pé, atenta aos convidados que expunham conhecimentos, naquela Conferência que era um marco anual na cidade. Um homem perdia-se a meio da multidão: era apenas mais um - calças de tecido, camisa, olhos vigilantes e uma caneta, na mão, que desfilava pelo papel. Depois, talvez incomodado pelo imenso calor que roçava as peles humanas, coçou o pescoço e limpou o suor da testa. Subitamente, pareceu nervoso. Desapertou os botões do punho e acomodou o rabo à cadeira. Uma morena subiu ao palco. O sujeito afundou-se, ainda mais, no assento. O olhar dele passeava por toda a gente que se encontrava à sua frente. O pescoço, desenhado por veias salientes, virava, ora para a direita, ora para a esquerda. Por fim, a sua mão caminhou até à bolsa que apoiava nas pernas e tirou uma arma. O movimento foi veloz: o louco levantou-se, de arma em riste, e gritou. As mulheres jogaram o corpo contra o chão; os homens levaram as mãos à cabeça; os convidados esconderam-se por detrás das cortinas do palco. O tipo envergava uma cara de doente, de alucinado, com os lábios fininhos e pálidos e os sovacos molhados. O que quer?, perguntou um segurança. Eu?, questionou, Eu quero o dinheiro todo. Mas que dinheiro, homem?, isto não é um banco. O criminoso riu de uma forma doentia; um riso que provocava arrepios à mais valente das pessoas. Olhem para as câmeras - sussurrou - Foram todos apanhados. Aos poucos, sorrisos envergonhados foram esboçados nas bocas; em poucos segundos, as gargalhadas ecoaram e os responsáveis pela partida surgiram; deram-se palmadinhas nos ombros e elogiou-se o trabalho do actor. No palco, jogado no sofá azul, o Presidente, de mão ao peito, e uma dor no rosto, morria de ataque cardíaco.

 

Publicado, originalmente, na Revista JA.

tags:

10
Out 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Sempre tive medo de morrer sem saber que morrera; de acordar sem estar realmente acordada. Eu tinha um pavor hediondo de despertar de uma inércia qualquer e observar-me estendida em algum lugar, com olhares indiscretos sobre mim. Não deve haver sentimento pior que a morte sem aviso. Não temos tempo para despedidas, para conselhos nem pedidos. Não nos pomos bonitos e, muito menos, estamos habilitados para saber que aquele corpo teso e frio é o nosso e que por mais que o abanemos ele não ressuscitará.

Felizmente, eu soube em que dia iria morrer.

Eu padecia de uma leucemia que me roubava os dias à vida. Era uma luta constante entre doença e cura. Elas brigavam a todo o tempo, tentavam mostrar a sua superioridade em relação à outra e, por vezes, chegavam a agredir-se em disputas duras. A doença era feia e mal-arranjada, a cura parecia-me sempre tão esbelta e com uma expressão de paz. Toda a plateia torcia pela cura. O sangue, adepto fervoroso daquela, organizava bonitas claques de apoio, porém, a doença era superior em quase todas as batalhas e, por fim, venceu a guerra.

Andrés, o meu marido, sofria mais que eu própria, apesar de não ter nenhuma guerrilha no seu interior. A sua dor concentrava-se por completo no seu coração e, de cada vez que eu gemia de desconforto, aquele coração bondoso mirrava. Estávamos casados há 31 anos, a maioria deles felizes. Não tivemos filhos e, sinceramente, nunca senti vontade para tal. Andrés viajava demasiado por todo o nosso México e eu ficava muitas vezes sozinha, escrevendo romances. Amávamo-nos mas não nos prendíamos, respeitávamo-nos mas não nos submetíamos. E era bom desse jeito.

Descobri a minha doença por acaso. Já há algum tempo que me sentia mais débil, menos disposta a certas actividades mas desliguei-me desses sintomas. O ser humano é incrível. Renega sempre que o mal bata a porta, aliás, acha que ele só visita as outras pessoas. Marquei uma consulta praticamente obrigada por uma amiga e lá fui, certa de que era apenas cansaço. A notícia atingiu-me com força e mastiguei-a sozinha, demorando duas ou três semanas para revelar ao meu marido o que tanto me afligia. O choque dele foi igual ou maior que o meu e durante muitos dias choramos, às vezes sozinhos, outras vezes em dupla. Até que, num certo momento, numa certa ocasião, não me lembro quando, digerimos e aceitamos a brutal e inesperada realidade. Foi nessa altura que Andrés pegou na minha mão e me disse que iríamos combater juntos, com tanta franqueza que me dilacerou o coração. Eu acreditei não acreditando. Assentei com a cabeça e um sorriso que recebia lágrimas mas, no fundo, sabia que não haveriam forças suficientes contra aquele inimigo.

O primeiro ano foi mais ou menos tranquilo. Fiz tratamentos que não serviriam de nada, dei esperanças vãs a quem as precisava ouvir. Eu, apesar de ser a doente, era a única pessoa capaz de levantar a cabeça aos que carpiam por mim. Eu sofria de dores físicas, de mal-estares e enjoos. Eles sofriam com a visão cruel da minha debilidade juntamente com aquele mau agoiro que anunciava a minha morte a qualquer momento. Eu tinha de prestar auxílio, de amparar essas depressões pelas quais os meus familiares e amigos teimavam em ficar. Ainda assim, nunca me faltou amor. Fui acarinhada, mimada e acudida em tempos de crise. Jamais enfrentei uma quimioterapia sozinha. Estava sempre alguém do meu lado, segurando a minha mão e rezando pela salvação do meu corpo fraco.

Meses antes da minha partida, eu senti que estava prestes a deixar o mundo físico e, na verdade, eu estava preparada para conhecer o outro lado. Mesmo estando à beira da morte, eu vivia esses últimos bocados satisfeita por poder cronometrar todos os instantes. Cada minuto tinha a sua actividade, o seu sentido, a sua mensagem. Andrés viveu-os intensamente do meu lado. Satisfez os meus desejos e ficou comigo sempre. Acho que foi por essa altura que nos conhecemos profundamente. Eu não sabia de cor o som do seu bocejo nem ele sabia a maneira irritante que tenho de cortar o bife. Eu não sabia que ele era capaz de aguentar dois minutos debaixo de água nem que tinha jeito para a pintura. Ele não me caracterizava como uma pessoa forte. Agora sabemos. Só tenho pena que tenha sido demasiado tarde. Resta-nos a lembrança.

Um dia, acordei cedo e olhei pela janela. Senti uma necessidade inexplicável de cheirar papaias. O certo é que nunca gostara especialmente desse fruto mas nesse dia, àquela hora, era tudo o que eu mais desejava. Acordei Andrés e sussurrei-lhe o meu desejo. Ele levou-me à casa de banho, despiu-me e admirou-me como se o meu corpo ainda fosse atraente. Eu senti-me florescer apesar do terreno estéril que era a leucemia. O meu companheiro deu-me banho e olhamo-nos nos olhos inúmeras vezes. Despedidas. As despedidas começaram aí, com esses olhares de ternura e súplica. Ele pedindo-me para não partir; eu pedindo-lhe que me deixasse ir pois não aguentava mais o sofrimento.

- Para onde me levas? - pergunto-lhe, curiosa. Andrés enxugava os meus poucos e quebradiços cabelos com uma toalha macia.

- Realizar o teu desejo - disse-me, somente. Eu fechei os olhos e saboreei a conquista de uma vida plena. Curta mas farta.

Andamos de carro e atravessamos Chihuahua por inteiro. Chegamos a uma enorme plantação, Andrés estacionou o carro e carregou-me no colo até à árvore mais frondosa. Eu deitei-me por debaixo dela e inspirei fundo. Era morno o ar. Morno e de uma textura quase amanteigada. Parecia escorrer suavemente para dentro de mim. Doce, muito doce, ao ponto de quase enjoar mas, depois, tornou-se mais agradável e habituei-me, finalmente, àquela fragrância estonteante.

- Consegues cheirar? - perguntei ao meu marido.

- Cheirar o quê?

- Não sentes? É tão forte. Como podes não sentir? - e ele respondeu com um abanar de ombros.

Não entendi como é que o cheiro não lhe invadia as narinas da mesma forma que a mim. Eu sentia-me cheia como se tivesse comido um prato exagerado. Mesmo já me sentindo familiarizada com a quentura daquele aroma, o meu estômago fraco revirava e senti o vómito subir-me à garganta inúmeras vezes. De todas as vezes engoli e o azedo misturou-se com o demasiado doce. A minha cabeça girava, contendo dentro dela a essência exclusiva daquele momento. Não havia lembranças nem problemas, somente aquele perfume cru. Fechei os olhos e inspirei mais uma vez, uma respiração cansada pela enfermidade, numa tentativa de apanhar uma outra brisa, com outros cheiros. Porém, foi impossível. Aquela golfada de ar soubera-me exactamente ao mesmo e eu abri os olhos, encarando o ambiente à minha volta que, por razões que eu não conseguia discernir, me parecia estupidamente familiar.

Uma gota de suor deslizou até à minha orelha e Andrés beijou-me a face. Senti-o molhado e não entendi porquê. Na verdade, a sua presença era quase imperceptível. Ele tocava-me a alma de tempos a tempos, mas apenas por momentos fugidios. Eu estava noutra. Sentia-me num nirvana cujo único camarada que me dava sinais era aquele cheiro meloso.

De repente, sem eu contar com isso, ele fez-se acompanhar por uma luz forte e brilhante. Não chegava a doer nos olhos mas impedia-me de mantê-los abertos por muito tempo. Questionei Andrés sobre isso e não obtive resposta. Eu estava realmente a ficar chateada e incomodada. Não queria mais aquele cheiro. Estava farta de tanta doçura. Desejava apenas ir para casa e descansar. Pedi-o ao meu marido e novamente qualquer coisa molhada caiu-me na face.

- Estás em casa, querida - ouvi, muito longe, quase do outro lado do mundo. Apeteceu-me rir da resposta mas se o fizesse vomitaria. Andrés sempre fora muito brincalhão.

Tomei coragem e abri os olhos. Estava na hora de encará-lo e pedir-lhe seriamente que me levasse para casa. Quando o fiz, ele olhou-me avidamente, mal podendo crer na sua sorte. E eu vi o tecto do meu quarto. A minha cama. As mesas-de-cabeceira. O vestuário e as minhas jóias. Andrés sorriu de um modo agarotado que o tornou quase perfeito. Senti os olhos revirarem e lutei contra isso. Lutei tanto mas tanto e fracassei. Eles desviaram-se para outro sítio qualquer, um lugar desconhecido, e aquele cheiro que me perseguia desde de manhã abarcou-me toda, sem deixar espaço para mais nada. Perdia as minhas forças e, teimosa, fingia acreditar que ainda tinha alento suficiente para apertar a mão de Andrés. Deixei de sentir, a minha pele tornou-se insensível, a minha boca perdeu o sabor, os olhos cegaram e os ouvidos deixaram de ouvir. Ficou tão-somente o bálsamo da morte. Doce, quente, pesado, intenso e eterno.

Passaram-se segundos ou anos até recuperar tudo de novo. Eu não sei ao certo, perdi a noção do tempo. Quando voltei a mim, vi-me estendida na cama, pálida e fria, feia como nunca me achara. Fui até lá e abanei o corpo, pedi que me sugasse de novo para dentro dele. Ainda não era a hora, ainda não era. Eu, que tinha a certeza da minha morte, que tanto delineara os meus dias, deixei-me seduzir por um cheiro miserável que me fez crer a minha salvação. Não me despedi de ninguém, não fiz tudo o que pretendia e enfrentei o meu pior receio. Morrer sem saber que morrera.

Andrés desaparecera, toda a gente desaparecera, ficando somente uma parte de mim, petrificada sobre lençóis brancos, vestindo uma camisa branca que se confundia com a minha própria pele. E de repente, gritei:

- Olhem para mim! Olhem para mim! Não me deixem só.

Ninguém ouviu, ninguém se importou, ninguém apareceu. O medo de ter olhares curiosos sobre mim tornara-se, agora, uma súplica. Eu precisava disso, precisava para poder acreditar que aquela era eu, e, assim, poder partir. Continuei sozinha, metade lá, metade cá.

O cheiro que me acompanha desde então, tornou-se parte de mim. Não me preenche, não me consola nem me acompanha. Vive somente dentro de mim. E eu continuo dividida.

 

Publicado, originalmente, na Revista Magazon.

tags:

03
Out 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar | ver comentários (2)

E se a mordo? Arrisco-me a perder a quentura da sua pele que me embebeda diabolicamente. Se a mordo: não mais terei um corpo que estremeça de cada vez que o toco por trás. Se a mordo: a boca deixará de saber a vida, os olhos perderão o brilho mordaz de quem sente na alma a dor e o amor, a volúpia e o medo. Como eu a quero. Assim, do jeito que ela está - nua, branca: humana em toda a sua essência; frágil. Mas eu sei, eu tenho a certeza, que no momento em que a farei render-se a mim, o seu pescoço chamar-me-á e eu, faminto por aquela delicadeza clemente, ferrarei os dentes. E é aí que ela deixará de fazer qualquer sentido para mim. Vieste, diz-me ao ver-me entrar pela janela do quarto. Vim, respondo, Quero-te agora. Ela sorri daquela maneira que só as mulheres de carne e osso e sangue conseguem fazer e eu avanço até ela. A sua língua quente choca com o mármore frio que eu sou. Ela entrega-se e oferece-se. Eu cedo, marcando os limites, impondo um auto-controle praticamente impossível. Mas quanto mais tento, mais ela se implora a mim, como se me pedisse um resquício de vida eterna. As veias azuis, deliciosas, palpitam por detrás da pele que ferve. O meu amor transforma-se em monstro e o quente deixa de parecer tão sagrado. Desumanizo por completo o ser que se contorce de paixão diante de mim e sigo a minha natureza. Furo uma carne macia e encontro o sangue da minha insanidade; metálico, vulcânico, voluptuoso. Engulo, às golfadas, todo o interior daquela fêmea que, estúpida, quis ser minha. Deito-a no chão, sem me preocupar com o sofrimento que foge do seu corpo. Quero sangue, apenas sangue. E quanto mais bebo, mais preciso. Ela grita: sem dor, sem alma, ou rancor. Grita porque venceu o destino e conseguiu de mim o que sempre quis. Amo-te, diz-me ela, fraca, pálida, sem brilho, terrivelmente vampira. Mas, como eu suspeitara, a sua pele de gelo e os olhos metálicos do inferno deixam de ter em mim o fascínio de um louco pela sua demência. E eu sigo o curso natural da morte. Afundo a boca no seu pescoço e desfaço a sua existência de uma vez por todas. Amei-te, digo-lhe. E saio por onde entrei, sem olhar para trás.

 

Publicado, originalmente, na Infektion Magazine.

tags:

Contacto: paraisobiblioteca@sapo.pt | Twitter: @ValentinaSFerr
Adquire o teu exemplar do Distúrbio
E tu? Já és fã? ;)
A Menina da Biblioteca também escreve aqui:
"Estórias do Arco-da-Velha"