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29
Ago 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Conto originalmente publicado na rubrica Estórias que matam da Infektion Magazine, a 19 de Junho de 2011.

 

A pequena insurgia-se no canto vazio da sala, apertando os braços gorduchos e revendo uma série de consultas médicas que só lhe traumatizavam os sonhos: o dos dentes, o dos olhos, o da garganta, o do pé partido. Este, dissera-lhe a mãe, era de tudo e esse tudo afigurava-se um tanto monstruoso; o tudo incluía partes do corpo que ela não queria que investigassem, embora ela soubesse, muito bem, que estavam doentes. O médico chamou-a e ela cobriu as orelhas com as mãos, tentando, inutilmente, abafar os sons das vozes e os burburinhos próprios de um consultório. Lá dentro cheirava mal: como o chão velho da cozinha da avó Celeste - um cheiro a madeira podre e a uma mistura nauseante de molhos de assados e espinhas roídas do carapau que, sem querer, saltavam dos pratos e espetavam-se nas farpas levantadas e, ainda, aos sucos doentes dos escarros do avô que não tinha educação para cuspir para um guardanapo, ou a goivo proveniente de um festim de larvas agrupadas aos molhes, nos armários húmidos. Ou, mais secretamente, uma fragrância mórbida que só ela conhecia: as amálgamas de líquidos transparentes, esbranquiçados e rosados que sobravam nos lençóis, depois… depois... depois de coisas que não queria trazer à tona da sua memória. Era; aquela sala tinha o mesmo cheiro. E isso incomodava-a porque sabia, mesmo sendo inocente, que era um odor errado, que ali só se deveria sentir bálsamos medicinais. Encolheu-se ainda mais, escondendo o rosto nos caracóis miúdos. Vem cá, vem cá, não dói nada. Odiava essa expressão que só servia para recordar que podia doer, mesmo que minimamente. Não obedeceu ao médico e encarou os olhos chateados do pai. Se ao menos viesse com a mãe, se ao menos pudesse socorrer-se com o olhar plácido da sua querida mãe. Inês, não ouves o Sr. Dr.?, vem já! Sentiu um ódio peganhento que se colava ao céu-da-boca, impelindo a língua a movimentos estranhos, quiçá a deitá-la para fora e, assim, exibir uma figura de rapariguinha mimada. Conteve-se e escondeu a boca no braço, lambendo-o como um gato, sentindo a língua tropeçar nos pêlos fininhos que o adornavam. Inês, não repito! O pai parecia um bicho enjaulado, de narinas inchadas e a camisa bastante aberta, expondo um peito escuro e marcado por cicatrizes de uma adolescência rebelde. A menina levantou-se e andou até ele, colocando os braços em volta da sua cintura. O pai elevou-a no ar e ela beijou-o, no rosto, amordaçando-lhe as fúrias. Deixou-se deitar na marquesa e apertou os olhos com tanta força que se sentiu invadida por uma cegueira branca. Relaxa, disse-lhe o médico. Mas ela não relaxou. O corpo retesou-se. Relaxa, dizia-lhe o pai. Mas ela não relaxava. Sentiu um objecto estranho invadir as bordas da sua carne magoada. Como sentira, tantas vezes, na cama, um objecto duro invadir a rosa que tinha entre as pernas. Comeu a dor como tantas vezes suportara dores semelhantes. Sentiu o corpo adormecer, levado por uma maré de movimentos leves que sussurravam, baixinho, melodias de dormir. Deixou-se estar daquele jeito, quieta, entre o limbo da dor e da letargia. Então, Dr.?, perguntou o pai. O aborto está feito; para a próxima tenha mais cuidado. E a menina vomitou, horrorizada pela ideia de haver uma próxima vez.


28
Mai 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

A Revista JA é um dos projectos mais importantes da Associação Académica da Universidade da Madeira, feito por alunos e por todos os que, de fora, colaboram. Mais do que uma revista para uso interno, a JA tem vindo a alargar o seu público-alvo e consequência disso é o aumento do número de exemplares editados. Artigos de qualidade e interesse e notícias importantes fazem parte desta revista que sai, tanto via on-line como fisicamente, a cada início do mês. A Menina da Biblioteca mantém, desde Abril, uma rubrica intitulada "Estórias do Arco-da-Velha". Se houver por aí alguém que queira receber a revista em casa, sem qualquer despesa a cargo, todos os meses, favor enviar e-mail para paraisobiblioteca@sapo.pt com o assunto "Revista JA em casa" com o nome e morada completa, que a Menina encarregar-se-á de fazer chegar um bonitinho exemplar, mensalmente, a vossas excelências.

 

Bom fim-de-semana, Queridos Amigos.

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21
Mai 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Olá, olá, olá :D

 

O sol não saiu hoje mas tudo bem. Aproveite-se o Sábado para ver dvds e pôr a leitura em dia.

Trago-vos uma revista recente - vai na 3ª edição - e, para promovê-la, nada melhor que usar as palavras do editor-chefe, Joel Costa.

 

"A Infektion Magazine é uma publicação online e gratuita cujo objectivo é promover o Metal e o Rock através de entrevistas, notícias, reviews de discos e concertos, artigos e outros conteúdos. Nas edições da Infektion podemos encontrar bandas e artistas nacionais e internacionais e do mainstream ao underground. Todos têm um espaço na nossa revista!

A Infektion é escrita em Português e é divulgada maioritariamente em Portugal e no Brasil através do ISSUU, local onde é publicada cada edição. Damos também a possibilidade de efectuarem o download da mesma no formato PDF.  A Infektion sai no dia 15 de cada mês!"

 

Podem encontrar, a partir da edição deste mês, uma rubrica da Menina da Biblioteca: Estórias que Matam.

Enjoy!

 

Bom fim-de-semana.

 

 

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14
Mai 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

Bom dia, Raios de Sol :)

 

Hoje a conversa é rápida, pois a Menina da Biblioteca tem muito trabalho para fazer, muitas coisas para escrever, reescrever, ler... (ui, ca bom!) Venho falar-vos do Magazon, a revista on-line do site Netmadeira. Para nós, madeirenses, o sítio já faz parte das nossas visitas quase diárias, não só porque colocam as notícias mais importantes da região, como são divulgadores da agenda cultural, nomeadamente, de conferências, peças de teatro, espectáculos, cinema, exposições e por aí adiante. No Magazon podem encontrar uma rubrica de contos, na qual que sou colaboradora, entre otras cositas mas.

Ide espreitar.

 

Bom fim-de-semana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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11
Mai 11
publicado por paraisobiblioteca, às 09:00link do post | Comentar

 

 

 

 

Olá, Corações!

 

Venho falar-vos de um cantinho muito especial. Benfazeja - Comunidade Literária é uma espécie de revista on-line que, diariamente, publica os mais diversos géneros literários desde poesias, aos contos e crónicas, passando por teorias literárias e, até, entrevistas.

Deixo, aqui, uma pequena citação do coordenador-geral Wellington Souza.

 

"Entrelaçada à literatura, haverá exposições de artistas plásticos, digitais, fotógrafos e também espaço para exibição de vídeos das mais variadas propostas.
Simples, à margem do grande (ou não tão grande) circo do mercado editorial e sem ter que legitimarmos nossos ofícios com contratos, nos dedicamos a fazer o que gostamos, de forma singela, para aqueles que gostam, de forma espontânea. Um casamento sem cerimônia, sem aliança, sem padrinhos nem contratos – apenas com noivos.
Com muita de dedicação e o apoio dos leitores, faremos uma comunidade literária Benfazeja."
 
A equipa é constituída por 16 amantes das letras que, com muito prazer, participam no site com aquilo que melhor sabem fazer: escrever.
Vale a pena visitar. Em cinco minutos lêem bonitas estórias.
 
Boas leituras!
 
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Contacto: paraisobiblioteca@sapo.pt | Twitter: @ValentinaSFerr
Adquire o teu exemplar do Distúrbio
E tu? Já és fã? ;)
A Menina da Biblioteca também escreve aqui:
"Estórias do Arco-da-Velha"